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Márcia Luz
Gabriela Cruz
Publicado em 9 de agosto de 2026 às 14:02
“Limbo” é a graphic novel de estreia da artista Deb JJ Lee, que nasceu na Coreia do Sul e cresceu nos Estados Unidos. Indicada ao Eisner Award, considerado o Oscar dos quadrinhos, na categoria de quadrinho autobiográfico, a publicação acaba de ser lançada no Brasil pela Editora Versos.>
A obra destaca a experiência da diáspora de quem cresce entre dois mundos, sem se sentir inteiramente pertencente a nenhum deles. A questão se torna ainda mais latente durante a adolescência, quando o idioma e até mesmo as referências e memórias parecem distantes. Hoje mais madura, bem resolvida com o passado e morando no Brooklyn, Deb fala sobre esse processo em entrevista exclusiva à coluna. Confira!>
Annyeong
CORREIO: De que maneiras escrever “Limbo” ajudou você a olhar para o seu passado e a superar a sensação de ser diferente ou de não se encaixar? Você sente que ainda está processando ou superando alguma emoção ou experiência dos seus primeiros anos nos Estados Unidos?>
Deb JJ Lee: Sinceramente, já faz muito tempo que não nutro sentimentos negativos profundos em relação aos meus primeiros anos nos EUA, antes de Nova Jersey. Eram crianças que apenas refletiam o que seus pais e o ambiente lhes diziam. Ainda lido com essa questão de me destacar, mas a sensação hoje é mais do tipo “Ei, estou aqui, lidem com isso” e menos um desejo de ser outra pessoa ou de me misturar à multidão. Quero que as pessoas percebam que não tenho a mesma aparência que elas, mas que isso pode acontecer de forma normal e respeitosa. Sinto menos raiva e mais pena das pessoas que normalmente não convivem com quem tem uma aparência diferente da delas.>
Quanto a ser diferente ou não me encaixar no ensino médio, acho que consegui o fechamento emocional de que precisava depois que o livro foi publicado. Muitos dos personagens secundários da história entraram em contato comigo e confirmaram que nunca souberam o que estava acontecendo. Eles só conheciam a versão da história da [Quinn] e pouco mais do que isso.>
Qual é a sua relação com a cultura coreana hoje?>
Comecei a fazer aulas de coreano há cerca de um ano. Tem sido uma experiência de cura saber que estou exatamente onde preciso estar. Na vida adulta, percebemos que há menos paciência conosco do que haveria se fôssemos crianças aprendendo a falar. Estar em um ambiente seguro com outras pessoas da turma, a maioria também de origem coreano-americana, cria um espaço livre de julgamentos. Agora que tenho condições financeiras, consigo viajar para a Coreia do Sul cerca de uma vez por ano para visitar a família, às vezes levando um amigo comigo.>
Você ainda mantém algum hábito ou tradição coreana no seu dia a dia?>
Quase nenhum. Talvez quando houver tempo? Meus pais sempre estiveram ocupados demais para manter as tradições coreanas, então acho que a fruta não cai longe do pé.>
Como você descreve em “Limbo”, adaptar-se à vida nos Estados Unidos não foi fácil. No entanto, hoje você mora em Nova York. O que a levou a decidir continuar vivendo nos EUA? Chegou a considerar voltar para a Coreia do Sul?>
Quando você cresce dentro do sistema americano e só conhece o funcionamento de coisas como impostos e mercado de trabalho nos moldes dos EUA, é natural querer ficar lá. Como me mudei para o exterior aos 3 anos, não aprendi como funcionavam a cultura corporativa coreana e o sistema tributário do país, nem sequer como marcar uma consulta com um médico coreano. Mudar-se para um país totalmente novo envolve muitos riscos. Por isso, largar tudo para tentar algo assim é uma atitude muito corajosa por parte dos imigrantes.>
Sinceramente, eu nunca voltaria para morar na Coreia do Sul. Talvez passasse uma temporada lá, digamos, um mês ou um ano, mas nunca de forma permanente. Nas visitas que fiz a Seul já na vida adulta, percebi que não consigo me encaixar naquele ambiente, muito conservador e homogêneo, no qual as dinâmicas sociais têm um peso enorme. A comida pode ser limpa e fresca, e os produtos de cuidados com a pele podem ser superiores, mas sei que nunca me adaptaria sendo a pessoa que sou hoje.>
O que a sua própria história lhe ensinou sobre ser imigrante e uma pessoa asiática nos Estados Unidos ao mesmo tempo?>
Talvez não tenha sido apenas a minha história, mas também o surgimento de várias “graphic memoirs” que relatam experiências semelhantes. É reconfortante saber que não estou só nisso, não apenas em relação ao arco narrativo, mas também aos detalhes de como as pessoas que não são imigrantes interagem com você. Além disso, sinto que já alcancei a compreensão de que precisava ao colocar tudo isso para fora!>
Que sentimento ou mensagem você espera que “Limbo” desperte nos jovens coreanos que vivem fora da Coreia e talvez enfrentem desafios parecidos com os que você vivenciou?>
Quando terminei o livro, percebi que a história trata menos de ser imigrante e mais das amizades e dos relacionamentos vivenciados durante a adolescência. Não importa de onde você vem ou quem você é. A maioria dos estudantes do ensino médio lida com depressão, amizades codependentes e tensões no relacionamento com os pais. Acontece que sou da Coreia.>
É como se a primeira metade do livro tratasse da superfície, das coisas que se percebem apenas ao olhar para a personagem principal. A segunda metade é, na minha opinião, a parte mais profunda e desafiadora. É o que faz com que adolescentes e pessoas que já passaram por essa fase se identifiquem com o livro, independentemente da sua aparência.>