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Gabriela Cruz
Publicado em 24 de maio de 2026 às 12:10
O Festival Mãos da Moda, que começou na sexta-feira (22), abriu sua programação de desfiles neste sábado (23). Na passarela, três marcas autorais baianas mostraram parcerias com organizações de artesãs, solidificando a união criativa entre o DNA das brands e os saberes manuais tradicionais. O evento, criado pela Nordestesse e patrocinado pelo Riachuelo Lab, movimentou o MAC_BAHIA e segue até domingo (24), quando outras três grifes também apresentarão suas coleções.>
Assim, Areia, TEROY13 e Inttuí subiram à passarela na área externa do museu com criações conjuntas que encantaram o público. Primeira a desfilar, a Areia apresentou a coleção “Mimosa 2: Açucarados”, desenvolvida em parceria com a Associação das Mulheres Artesãs Padre André (AMAPA), de Correntina, na Bahia. A coleção parte das memórias da infância, dos rituais afetivos e da simbologia dos erês para construir uma narrativa onde o sagrado e o cotidiano se encontram através do fazer manual. Inspirada pelo universo dos doces, das flores e das celebrações populares, a coleção traz bordados artesanais elaborados em colaboração com as artesãs, além de peças em linho, tule e sarja que exploram transparências, textura e volumes amplificados. Com forte presença de manualidade, cores vibrantes e referências ancestrais, “Mimosa 2: Açucarados” reforça a proposta da Areia de unir moda, identidade e memória em criações atravessadas pela cultura baiana.>
Mãos da Moda
Em seguida, foi a vez da TEROY13, de Alexsandro Rodrigues e Albert Lefundes, com a coleção “Vertigem”, criada em parceria com o grupo Mulheres do Algodão de Guanambi. A apresentação partiu da ideia de vertigem como metáfora para os desequilíbrios, tensões e reinvenções da vida contemporânea, atravessando referências das paisagens baianas, dos símbolos adinkras, dos saberes ancestrais e da cultura clubber. Com forte influência do streetwear e do clubwear, a coleção mistura jeans, brim e couro a técnicas artesanais desenvolvidas especialmente para o desfile, como o bordado “corrente dupla”, criado pelas artesãs sobre tecidos mais pesados. A proposta equilibra força e delicadeza em peças que celebram o corpo em movimento, a efemeridade e a potência criativa das manualidades baianas.>
O encerramento da tarde ficou por conta da Inttuí, de Washington Carvalho, que levou ao MAC_BAHIA a coleção “Pele de Céu”, criada em parceria com a Rendavan – Associação de Rendeiras de Dias D’Ávila. A coleção nasce do encontro entre moda, arte e arquitetura, construída a partir do diálogo entre os universos de Lina Bo Bardi e Heitor dos Prazeres. Das referências arquitetônicas surgem formas orgânicas, estruturas fluidas e volumes que evocam espaços vivos e acolhedores; já da obra de Heitor vêm a cor, o movimento e a narrativa visual atravessada pela cultura brasileira. A renda de bilro produzida pelas artesãs da Rendavan aparece como elemento central da coleção, costurando passado e presente em superfícies têxteis que remetem à ideia de expansão do corpo e da memória. Com alfaiataria ampla, silhuetas leves e construções poéticas, “Pele de Céu” reforça a proposta da Inttuí de transformar o vestir em uma experiência sensível entre espaço, ancestralidade e imaginação.>
O último dia do Festival Mãos da Moda terá os desfiles de Luci Bortowski, Dua e Adriana Meira, das 15h às 17h. Luciana Bortowski apresenta a coleção “Memórias para o Futuro”, desenvolvida em parceria com a Associação das Artesãs de Saubara, guardiãs da tradição da renda de bilro no Recôncavo Baiano. A coleção parte das memórias afetivas ligadas ao fazer manual e da relação das rendeiras com o mar para construir peças que unem ancestralidade e contemporaneidade. Redes de pesca, flores e peixes feitos em bilro aparecem aplicados manualmente sobre rendas tingidas em aquarela, criando texturas e nuances que evocam o tempo, o sal e a memória. Sedas e jacquards reforçam a pesquisa da marca em design regenerativo e economia circular, enquanto os bilros surgem também como elemento sonoro e narrativo das criações.>
Já a Dua apresenta “Benditas”, coleção inspirada na trajetória de mulheres negras alforriadas que, no século XIX, fundaram uma irmandade na Igreja da Barroquinha, em Salvador, unindo fé, resistência e ancestralidade sob o signo do sincretismo religioso. Desenvolvida em parceria com as 17 bordadeiras da Chitarte, a coleção une o metal forjado característico da marca ao crivo artesanal produzido pelas artesãs, valorizando o tempo do fazer manual e os saberes transmitidos entre gerações. As estampas assinadas pela artista Hanna Gomes reforçam a dimensão simbólica e ancestral das peças, em uma homenagem às mulheres de fé e resistência da Bahia.>
Encerrando os desfiles, Adriana Meira apresenta “Rio que Conta”, coleção inspirada nas artesãs dos quilombos da Barra, Riacho das Pedras e Bananal, na região banhada pelo rio Brumado, considerada a porta de entrada da Chapada Diamantina. A estilista mergulha na força e na delicadeza do ponto crivo rústico para transformar memórias, caminhos e paisagens em linguagem visual. Flores-diamantes e pontilhados que remetem às estradas e travessias da região aparecem aplicados em vestidos, macacões, blazers, saias e camisetas, compondo peças que evocam o fluxo contínuo das histórias, das pessoas e das mudanças de percurso.>
Enquanto os desfiles ocuparam os jardins do MAC_BAHIA ao longo do fim de semana, a Feira de Moda Artesanal da Bahia recebe o público gratuitamente durante os três dias de programação, reunindo 23 artesãos e coletivos com peças em renda, bordado, crochê, acessórios e tecelagem. Para Daniela Falcão, fundadora da Nordestesse, o projeto nasceu da necessidade de aproximar criadores de moda autoral dos grupos artesanais brasileiros. “O Mãos da Moda surge para estreitar esses laços, garantindo recursos humanos e financeiros para que essa parceria resulte numa coleção coesa e que fortaleça tanto as marcas quanto os grupos artesanais”, afirmou.>
A dimensão econômica e cultural do projeto também foi destacada por Weslen Moreira, coordenador executivo de Fomento ao Artesanato da Bahia. Segundo ele, iniciativas como essa ajudam a posicionar o artesanato baiano em novos mercados. “É um encontro entre identidade, ancestralidade e inovação, que amplia oportunidades de geração de renda e fortalece a presença dos artesãos e artesãs baianos em espaços cada vez mais estratégicos no cenário nacional”, disse.>
Parceira do projeto através do Riachuelo Lab, a Riachuelo reforçou o compromisso de investir na criatividade brasileira e fortalecer o ecossistema criativo do país. “O Riachuelo Lab nasce como um espaço de experimentação, criação e conexão entre talentos da moda e da cultura”, afirmou Cathyelle Schroeder, CMO da marca.>
Após a estreia em Salvador, as coleções seguirão para Fortaleza, onde serão apresentadas no Dragão Fashion Brasil, maior semana de moda do Norte-Nordeste.>
Serviço >
Festival Mãos da Moda + Feira de Moda Artesanal da Bahia >
Até domingo (24)>
MAC_BAHIA – Rua da Graça, 284>
Feira de Moda Artesanal - aberta ao público: 10h às 20h>
Desfiles: Luci Bortowski, Dua e Adriana Meira,15h às 17h>