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Popularização das mídias físicas resgata experiência sensorial

Maior responsável por esse aquecimento do mercado é o público jovem, especialmente a Gen Z

Publicado em 13 de agosto de 2026 às 06:00

Com alta nas vendas nos EUA, no Brasil e no resto do mundo, vários artistas têm feito questão de lançar seus trabalhos no formato LP
Com alta nas vendas nos EUA, no Brasil e no resto do mundo, vários artistas têm feito questão de lançar seus trabalhos no formato LP Crédito: Lucas Pereira

Música existe desde que o mundo é mundo. No compasso em que presente e passado estão constantemente interligados pelo som, um formato antigo tem voltado com bastante força e ganhado cada vez mais espaço no coração e casas de apaixonados por música: o vinil.

Nesta semana quando é comemorado o Dia Internacional do Vinil (dia 12/8), engana-se quem acha que o formato está morto ou mesmo é ‘coisa de velho’. Os bolachões ainda possuem um papel importante no mercado fonográfico mundial, especialmente em tempos onde a mídia física é cada vez mais escassa.

Um relatório anual divulgado pela Recording Industry Association of America (RIAA) mostra que a compra de novos LPs e EPs nos Estados Unidos ultrapassou a marca de US$ 1,04 bilhão, em 2025. Para comparação, os CDs venderam 29,5 milhões de unidades, enquanto os discos venderam 48,5 milhões.

Não à toa, artistas da nova geração como Taylor Swift, Sabrina Carpenter e os sul-coreanos do BTS têm investido na produção do formato LP e instigado o público mais jovem a consumi-los.

Vinil no Brasil

O levantamento do mercado fonográfico brasileiro divulgado pela Pró-Music mostra uma tendência semelhante, ainda que o domínio do streaming diante dos demais formatos seja equivalente a R$ 3,4 bilhões. Ainda assim, mesmo que as mídias físicas representem menos de 1% da receita total do mercado, pouco mais de R$ 24 milhões, o vinil é o principal responsável por essa arrecadação devido ao cenário de “expansão entre colecionadores e fãs de música de diferentes gerações”.

Grande e reproduzível apenas em vitrolas e similares, por qual motivo cada vez mais pessoas têm se entregado a esse tipo de mídia de quase 80 anos de idade? “É subjetivo, mas envolve muitos elementos”, de acordo com o funcionário público Rodrigo Melo, colecionador apaixonado de discos.

O acervo pessoal de Rodrigo supera os 400 LPs, dando destaque para as produções da banda Engenheiros do Hawaii, sua “grande paixão”, e da cantora Gal Costa. A ligação com o formato começou na infância, observando a coleção do pai, mas que somente após 2022 sua busca pelos “bolachões” ficou mais acentuada: “Meu lance todo era mesmo com CD. Porém, cresci com o vinil em casa, minha formação musical se baseou em vinil. Então, isso mexe muito comigo. Não resisti e tô aí de cabeça”, conta.

O velho e bom toca-discos
O velho e bom toca-discos Crédito: Lucas Pereira

Buscas pelo ‘bolachão’

Segundo dados do Dados do Google Trends, as pesquisas pelo termo de busca “Vinil” aumentaram 20%, e outros 30% para “Discos de Vinil”, no último ano. A busca também se reflete no mundo físico, de acordo com Eldo Luiz, o EldoBoss, dono da loja Discodelia, em Salvador.

Aberta há quase cinco anos no Shopping Colonial, na Rua General Labatut, Barris, a loja reúne um grande acervo de CDs, DVDs e, claro, discos de vinil. Segundo ele, a Discodelia nasceu como “uma iniciativa para trazer a possibilidade das pessoas mais jovens, principalmente, pudessem ter onde comprar discos novos, catalogados, organizados”.

E se engana quem acha que a juventude não está interessada. Segundo Eldo, “mais de 50% dos clientes têm 25 ou menos de 25 anos” e que essa busca entre os GenZs tem forte influência das redes sociais e também séries:

“A pessoa que hoje tem 22, 23 anos tinha, na pandemia, de 15 a 17 anos, então, ela viu os pais, em casa, retomando o hábito de escutar mídias físicas. Ela também cresce com os filmes de streaming e se você for observar, tudo que tá sendo mostrado no filme tá sendo vendido. Então, você mostra discos, você mostra mídias. É um mercado que cresce cada vez mais”, aponta, lembrando da série Stranger Things (Netflix), por exemplo, que faz muita referência aos vinis.

Para o empresário, ter a mídia física é uma experiência “hipersensorial”, especialmente em tempos de liquidez nas relações e vivências, cada vez mais digitalizadas. “O vinil é uma coisa muito particular, você tem que botar, escutar um lado, escutar o outro. Torna-se até, de certa forma, um programa terapêutico”, brinca.

Embora o CD tenha qualidade sonora inferior ao vinil, sua procura tem sido cada vez maior
Embora o CD tenha qualidade sonora inferior ao vinil, sua procura tem sido cada vez maior Crédito: Lucas Pereira

Investimento

Um elemento, porém, joga contra o vinil: os valores. Nos celulares, o público pode baixar um app de streaming e escutar sua playlist de forma gratuita, ainda que com anúncios neste caso. Para escutar CDs ou LPs, é preciso um aparelho para reprodução, que nem sempre é barato. Uma rápida busca na internet mostra variados modelos de toca-discos, incluindo modelos com recursos como conexão Bluetooth e USB. Os preços médios partem de R$ 350 e podem chegar a mas de R$ 1.500.

Quanto ao debate de a qualidade do som nas mídias físicas ser melhor que no digital, Eldo relembra que o disco “tem um som mais quente, mais próximo do que foi gravado” pelas próprias características da física. Já no digital, além da perda de qualidade sonora pela compactação dos tamanhos e pelos limites dos planos de assinatura, diversos discos e LPs acabam não sendo digitalizados.

Tanto Eldo quanto Rodrigo entendem que, com o mercado digital, houve maior possibilidade de se ter acesso a discos e aumentou-se a oferta de materiais raros, mas que os valores também aumentaram com o processo. Assim sendo, garimpar tornou-se fundamental.

Tags:

Música