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Saberes manuais e moda contemporânea marcam edição histórica do Dragão Fashion Brasil

Festival encerrou programação com desfile de Lino Villaventura em Fortaleza e aplausos de pé para a coleção da baiana Inttuí, de Washington Carvalho

  • Foto do(a) author(a) Gabriela Cruz
  • Gabriela Cruz

Publicado em 13 de junho de 2026 às 09:11

Desfile da Inttuí no DFB 2026
Desfile da Inttuí no DFB 2026 Crédito: PAULA MATOS - DUCKER STUDIOS

Ao longo de quatro dias, o Dragão Fashion Brasil (DFB) 2026 mostrou que a moda autoral produzida no país segue encontrando novos caminhos para dialogar com o presente sem abrir mão de suas raízes. Em passarelas instaladas em diferentes pontos da Praia de Iracema, estilistas consagrados e novos criadores apresentaram coleções que lançaram mão de bordados, rendas, crochês, tecelagens, reaproveitamento de materiais e técnicas artesanais diversas para construir narrativas contemporâneas, provando que tradição e inovação podem caminhar juntas.

Mais do que uma tendência estética, o que se viu ao longo da programação foi uma valorização dos fazeres manuais e dos territórios de origem como elementos centrais da criação. Seja por meio do diálogo com comunidades artesanais, da recuperação de memórias afetivas ou da releitura de símbolos culturais, as coleções apresentadas mostraram que a moda brasileira continua encontrando potência criativa em seus próprios repertórios.

O encerramento do festival, realizado nesta sexta-feira (12), sintetizou de forma simbólica essa proposta. Em um mesmo dia, o público acompanhou o desfile de Lino Villaventura na Ponte dos Ingleses e a apresentação da baiana Inttuí, de Washington Carvalho, dentro do projeto Mãos da Moda. A marca, que também integra o elenco do Afro Fashion Day, projeto de moda realizado anualmente pelo CORREIO durante o mês da Consciência Negra, levou à passarela uma coleção marcada pelo diálogo entre artesania e contemporaneidade. Em linguagens completamente distintas, os dois momentos compartilharam algo em comum: o rigor técnico, o cuidado com a construção das peças e a capacidade de emocionar o público.

Inttuí desfila no DFB 2026 pelo Mãos da Moda por PAULA MATOS - DUCKER STUDIOS

Lino Villaventura transforma a Ponte dos Ingleses em passarela

Um dos cartões-postais mais conhecidos de Fortaleza se transformou em cenário para o desfile de Lino Villaventura, responsável por abrir o último dia do DFB. Com a coleção Outono/Inverno 2027, intitulada "Fractal – Gênese Infinita", o estilista apresentou um trabalho marcado pela teatralidade, característica que o tornou uma das figuras mais importantes da moda brasileira.

Nervuras, plissados, jacquards, sedas metálicas, patchworks e construções volumosas criaram uma sequência de silhuetas em constante transformação. O resultado foi um desfile de grande impacto visual, potencializado pelo cenário da Ponte dos Ingleses e pelo encontro entre modelos que marcaram diferentes gerações da moda brasileira.

A apresentação reforçou a importância de Lino como um criador que construiu uma linguagem própria ao longo de décadas, sempre atento ao trabalho manual, ao acabamento e à experimentação têxtil. Para muitos dos estilistas presentes no evento, o desfile funcionou também como inspiração e referência sobre a construção de uma carreira autoral sólida e consistente.

Lino Villaventura no DFB 2026 por PAULA MATOS - DUCKER STUDIOS

Inttuí emociona e encerra participação baiana no Mãos da Moda

Horas depois, já nas salas de desfile do Centro Dragão do Mar, outro momento arrancou aplausos do público. Última representante baiana do projeto Mãos da Moda a subir à passarela nesta edição, a Inttuí apresentou a coleção "Pele de Céu", desenvolvida por Washington Carvalho em parceria com a Associação Rendavan, de Dias D'Ávila.

A coleção parte do encontro entre moda, arte, arquitetura e artesania para construir uma narrativa delicada e sofisticada. A renda de bilro produzida pelas artesãs da associação aparece como elemento central das peças, em um trabalho que valoriza o fazer manual sem abrir mão de uma linguagem contemporânea.

Para quem acompanhou a estreia do projeto no Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC Bahia), em Salvador, o desfile no Dragão Fashion revelou uma experiência diferente de fruição da coleção. O que antes dialogava com a atmosfera do espaço em Salvador ganhou novos contornos na estrutura de uma grande semana de moda, sem perder a delicadeza e a força poética que marcaram sua primeira apresentação.

O resultado foi um desfile que emocionou o público e terminou com aplausos de pé para Washington Carvalho. Em um festival marcado por diferentes linguagens criativas, a Inttuí conseguiu se destacar justamente pelo equilíbrio entre delicadeza, técnica e identidade.

Ao lado da marca baiana, o último bloco do Mãos da Moda contou também com a participação da paraibana Morada, de Lucyana Azevedo, desenvolvida em parceria com a Associação Quilombola de Pedra D'Água. A coleção destacou técnicas como o bordado labirinto e reforçou a proposta do projeto de aproximar comunidades artesanais e design contemporâneo.

Diversidade criativa marca encerramento

A programação do último dia também reuniu criadores de diferentes origens e linguagens. Representando o Cariri cearense, Alan Araújo estreou no line-up oficial do DFB com a marca 407 AA e a coleção "Patuá". Inspirado em benzedeiras e mezinheiras, o estilista reuniu referências da religiosidade popular, da moda japonesa e do universo esportivo em uma coleção construída a partir do reaproveitamento de materiais.

A parceria entre o Dragão Fashion e a Nordestesse teve continuidade com a apresentação da Almacor. A marca baiano-mineira transforma em estampas as obras produzidas por jovens artistas neurodivergentes, criando coleções que unem moda, arte e inclusão. Para sua estreia no festival, apresentou uma coleção inspirada em jardins floridos, reunindo diferentes linguagens visuais e reforçando a diversidade como elemento criativo.

O estilista indígena Rodrigo Tremembé levou à passarela a coleção "Tutóia", criada em homenagem à mãe, Fátima Tremembé. A apresentação transformou lembranças familiares em roupas e trouxe reflexões sobre memória, espiritualidade e permanência.

Já Melk Zda apresentou "Flor da Meia-Noite", coleção inspirada na flor do mandacaru e construída a partir dos contrastes entre delicadeza e resistência. A pesquisa reuniu referências da Caatinga, da vestimenta do vaqueiro e das paisagens sertanejas em peças desenvolvidas com linho, seda, organza, tule e materiais reaproveitados.

Encerrando as passarelas da 27ª edição do evento, o Studio Orla apresentou sua criação na Sala Preta, fechando oficialmente a programação de moda do festival.

Fortaleza como palco da moda autoral

Integrado às celebrações pelos 300 anos de Fortaleza, o DFB Festival 2026 ocupou espaços simbólicos da cidade, como a Rua dos Tabajaras, o Estoril, a Ponte dos Ingleses e o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Ao longo de quatro dias, a programação aproximou moda, patrimônio, cultura e economia criativa, reafirmando a capital cearense como um dos principais polos da moda autoral brasileira.

O encerramento musical ficou por conta de Fernanda Abreu, que celebrou os 30 anos do álbum Da Lata diante de uma Arena DFB lotada. O show encerrou uma edição que reuniu diferentes gerações de criadores, artistas e públicos em torno de uma mesma ideia: a de que a moda continua sendo uma poderosa ferramenta de expressão cultural.

A jornalista viajou ao Ceará a convite da produção do evento.