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'Alice no País das Maravilhas' completa 150 anos e segue encantando as novas gerações

A publicação luxuosa traz ilustrações inéditas da presidente da Sociedade Lewis Carroll do Brasil, Adriana Peliano

  • Foto do(a) author(a) Laura Fernades
  • Laura Fernades

Publicado em 4 de agosto de 2015 às 10:57

 - Atualizado há 3 anos

Alice caiu na toca do coelho e encontrou um mundo cheio de criaturas psicodélicas, como uma lagarta. “Quem é você?”, questionou esta. “Eu mal sei, Sir... Pelo menos sei quem eu era quando me levantei esta manhã, mas acho que passei por várias mudanças desde então”, respondeu a garota que há um século e meio habita o imaginário de crianças e adultos.

É claro que o leitor sabe de quem estamos falando. A protagonista da conversa aparentemente despretensiosa dá nome ao clássico do escritor inglês Lewis Carroll (1832- 1898), que este ano completa 150 anos: Alice no País das Maravilhas.Reedição de Alice reúne colagens inéditas de Adriana Peliano, feitas sobre as ilustrações originais do livro de Lewis Carroll  (Fotos: Divulgação)Sempre criando novos significados a cada leitura, o livro publicado em 1865 faz sucesso até hoje, com inúmeras adaptações no mundo. Assim, para celebrar o “desaniversário” dessa inesquecível história, uma série de reedições comemorativas está sendo lançada no mercado editorial, como a que sai pela Zahar.

Em edição de luxo e tiragem limitada, a obra reúne duas histórias em uma só: Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho e o que Alice Encontrou por Lá (R$ 89,90/ 320 páginas).

A reedição da Zahar resgata a tradução vencedora do Prêmio Jabuti, de Maria Luiza Borges. A novidade fica por conta das imagens inéditas que ilustram o livro, feitas pela artista visual brasiliense Adriana Peliano, 41 anos, também presidente da Sociedade Lewis Carroll do Brasil. São cerca de 120 imagens criadas por ela, a partir de colagens sobre as ilustrações originais de John Tenniel (1820-1914).É possível ver os inconfundíveis ‘relógios derretidos’ de Salvador Dalí em uma das colagens de Adriana, feita sobre a ilustração original de John Tenniel“Muita gente me pergunta o segredo por trás da história, como se tivesse um mistério que precisasse ser desvendado”, diz Adriana. “Só que, depois desse tempo todo, o que encanta não é um sentido oculto, mas a ideia de uma obra que pode gerar novos sentidos. Quando a lagarta pergunta quem é Alice, é a história do próprio livro”, diz.

Surreal  

Eternizada no cinema pelo clássico da Disney, lançado em 1951, e mais recentemente pela releitura de Tim Burton (2010), Alice no País das Maravilhas até hoje serve de matéria-prima para artistas de diferentes linguagens. No caso de Adriana, o curioso é que ela tem uma relação visceral com o tema.

Além de fazer da própria casa uma toca do coelho, com objetos e colagens inspirados no mundo de Alice (veja na página ao lado), ela estudou o assunto no mestrado. Sua dissertação, Através do Surrealismo e o que Alice Encontrou Lá, foi apresentada na Universidade de Oxford, em 1998, no centenário de morte do autor.Então, não é de se estranhar que as colagens de Adriana sejam inspiradas em artistas que “se aventuraram no mundo dos sonhos ou no surrealismo”, como explica no posfácio da Zahar. Entre eles, estão o espanhol Salvador Dalí (1904-1989), o belga René Magritte (1898-1967) e o holandês Hieronymus Bosch (1450-1516).

No livro encontra-se, por exemplo, a inserção dos inconfundíveis “relógios derretidos” de Salvador Dalí na cena clássica do chá entre Alice, o coelho e o chapeleiro (confira na próxima página). Além do surrealismo, outra corrente ligada a “geometrias impossíveis” conduz a artista.

Nesse caso, a inspiração vem de nomes como o artista holandês M.C. Escher,  o matemático inglês Roger Penrose e o designer gráfico Shigeo Fukuda. “Com a colagem, as figuras se abrem para a livre reinvenção, promovendo estranhamentos poéticos e associações inesperadas”, resume Adriana no posfácio. Ao CORREIO, ela reforça que, ao deslocar um elemento de um contexto para o outro, “Alice deixa a terra Vitoriana e a obra se expande. É reinventada”.

Moral  

Cuidadoso, o trabalho visual recria o universo onírico de Alice, personagem inspirada na filha do reverendo da Oxford Henry Lidell (1811-1898), amigo de Lewis Carroll. Em um passeio de barco com a família do amigo, Lewis conheceu a inspiradora sua obra-prima, uma garota de 7 anos chamada Alice Liddell (1852-1934).

Lewis (cujo nome real era Charles Lutwidge Dodgson) ficou fascinado pela menina e dali nasceu uma amizade. Sem entrar no mérito das idades - já que na época o autor tinha 31 anos -, o que importa é que a amizade deu origem a um dos clássicos mais importantes da literatura infantojuvenil.A publicação luxuosa traz ilustrações inéditas da presidente da Sociedade Lewis Carroll do Brasil, Adriana Peliano“A narrativa carrolliana é rica não porque transmite uma mensagem, uma moral (pelo contrário, aliás), mas porque apresenta uma linguagem intrincada de valor atemporal”, ressalta a jornalista e editora paulista Cynthia Costa, 35, sócia da Editora Poetisa que vai relançar Alice Através do Espelho, em dezembro.

A narrativa complexa, cheia de jogos de palavras, é uma das responsáveis pelo sucesso  do livro. No Brasil, ele foi traduzido por nomes como Monteiro Lobato (1882-1848), Ana Maria Machado, Ruy Castro e Sebastião Uchoa Leite.

“O fato de haver muitas Alices no mercado editorial só reforça o fato de que sempre há espaço para novas traduções”, destaca Cynthia, que estudou as versões brasileiras de Alice no mestrado em crítica literária. “O livro muda de significado conforme você cresce, mas continua tão atraente quanto”, completa.

Casa de artista vira laboratório criativo inspirado na trama de Alice

De um lado, um labirinto cheio de objetos como xícaras, vidros e brinquedos. Do outro, um narguilé quebrado que foi encaixado na cabeça de uma boneca e virou um capacete de sonhos. Tem ainda os relógios de parede transformados em chapéu de cogumelo, de onde saem coelhos e flores. 

Não, isso não é uma descrição minunciosa do livro Alice no País das Maravilhas. Na verdade, é a casa da artista visual brasiliense Adriana Peliano, 41 anos, que fez do seu cantinho uma espécie de toca do coelho, igual àquela por onde a Alice de Lewis Carroll mergulhou  em um mundo onírico e lúdico.“Quando entro aqui, percoas palavras. As coisas funcionam em outra lógica”, ri Adriana que, além de ilustrar a edição comemorativa de Alice no País das Maravilhas, da editora Zahar, e ser presidente da Sociedade Lewis Carroll do Brasil, alimenta dois blogs sobre a personagem.

“Minha casa é um laboratório do meu mundo criativo. Como faço colagens, vou muito à feira e encontro esses objetos. Tenho uma relação um pouco de alquimia com as coisas. É como se os objetos ficassem aqui em estado mágico até a hora de entrar em algum trabalho”, explica.

Mesmo tendo a capacidade de unir o lado infantil e lúdico, ao mais intelectual - como fez no mestrado sobre a relação entre Alice e o surrealismo - ela garante 

não ficar só “no lado da brincadeira, nem no da interpretação séria”. A admiração de Adriana pelo clássico  começou na infância, inicialmente vendo desenho e depois com o primeiro livro que ganhou, aos 9 anos. 

“Na época não tinha dimensão do que ia virar”, lembra Adriana, que anos mais tarde deu uma palestra chamada Alice em Sete Fases, sobre como em cada fase da sua vida ela pôde interpretar o livro de forma diferente. Logo depois veio o insight de que queria mergulhar profissionalmente nesse universo. “Alice motiva a criação, a imaginação. Motiva a desmontar a lógica convencional, o parodoxo, que desafia a gente além do instituído”, provoca.