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Thais Borges
Publicado em 17 de julho de 2026 às 11:17
E se a Medusa, um dos ‘monstros’ mais icônicos da mitologia grega, fosse apenas uma jovem mulher tentando encontrar seu lugar no mundo e descobrir quem realmente é? Tentar preencher as lacunas da história de uma das figuras que sempre foi vista como vilã foi um dos pontos de partida para que a escritora Ayana Gray escrevesse Eu, Medusa, que chegou às livrarias brasileiras em junho, pela Intrínseca. Ao mesmo tempo, ela percebeu que havia mais paralelos entre a vida de Medusa e as vivências de mulheres e meninas negras - e nada disso havia sido explorado anteriormente na literatura. >
“O que espero que os leitores percebam é que praticamente todas as mulheres e meninas desta história estão, de alguma forma, confinadas por uma sociedade que valoriza mais os homens do que as mulheres. Também espero que as pessoas notem que — assim como acontece na vida real — a reação de Meddy à misoginia constante e à violência de gênero não surge do nada. Ela é o resultado de uma raiva que se acumula lentamente, até transbordar”, diz Ayana, em entrevista exclusiva ao CORREIO. >
Ayana Gray é autora de Eu, Medusa, lançado pela Intrínseca em junho
‘Meddy’, aqui, é como Medusa é chamada pelos mais próximos, ainda que tenha crescido deslocada em meio à própria família - uma mortal em um universo de deuses. No livro, ela tem a oportunidade de se tornar uma sacerdotisa de Atena. Depois de sofrer uma violência e ser punida por um crime que não cometeu, é que Medusa é amaldiçoada, passa a ter os conhecidos cabelos de serpente e ganha o título de vilã. >
No entanto, o que muda é que ela decide encarar isso como justiceira. “Esta história reimagina um mito, mas grande parte dela se inspira nas experiências reais e cotidianas de mulheres que convivem com essa indignação silenciosa”, acrescenta a autora. >
Eu, Medusa, foi lançado em novembro de 2025 nos Estados Unidos e foi o primeiro livro de Ayana para adultos. Na primeira semana, já entrou na lista de mais vendidos do The New York Times. Embora tenha publicado uma trilogia para juvenil anteriormente, Eu, Medusa, é a estreia da autora de 33 anos no Brasil. >
Nesta conversa, Ayana falou sobre como foi reimaginar a história de Medusa, a representação de protagonistas negras na literatura fantástica e planos para o futuro. >
O que fez você olhar para Medusa e pensar que a história dela poderia ser contada de uma forma diferente? Por que era importante para você mostrar quem Medusa era antes de ser rotulada como um monstro?>
Sou uma apaixonada por mitologia grega desde sempre e sempre me senti atraída pelos "vilões" que fazem parte dessas histórias. A história de Medusa já foi recontada muitas vezes, mas, à medida que fui lendo mais sobre seu passado (ou, na verdade, percebendo que ela não tinha um passado realmente desenvolvido), vi uma oportunidade de usar minha imaginação para preencher essas lacunas. Também comecei a perceber que havia paralelos entre a história de Medusa e as experiências de muitas meninas e mulheres negras que nunca haviam sido explorados antes na literatura.>
Que tipo de conversas você espera que este livro desperte entre os leitores?>
Como escritora, fico sempre feliz quando os livros que escrevo provocam qualquer tipo de conversa. Mas, se tivesse que escolher, espero que Eu, Medusa desperte discussões sobre a forma como, enquanto sociedade, lidamos com jovens que ainda estão tentando descobrir seu lugar no mundo e que, muitas vezes, são julgados por isso. Também espero que o livro incentive reflexões sobre como podemos proteger melhor as pessoas mais vulneráveis de nossas comunidades contra figuras predatórias que se aproveitam da inocência, da juventude e da confiança.>
Como o seu romance aborda temas como misoginia e violência contra a mulher? O que você acredita que a história de Medusa ainda revela sobre a nossa sociedade? Em que medida recontar um mito também significa reexaminar a forma como as mulheres foram retratadas ao longo da história e na sociedade?>
Há muitas mulheres diferentes em Eu, Medusa, e algumas delas são certamente mais fáceis de gostar do que outras. O que espero que os leitores percebam é que praticamente todas as mulheres e meninas desta história estão, de alguma forma, confinadas por uma sociedade que valoriza mais os homens do que as mulheres. Também espero que as pessoas notem que — assim como acontece na vida real — a reação de Meddy à misoginia constante e à violência de gênero não surge do nada. Ela é o resultado de uma raiva que se acumula lentamente, até transbordar. Esta história reimagina um mito, mas grande parte dela se inspira nas experiências reais e cotidianas de mulheres que convivem com essa indignação silenciosa. Muitas narrativas da mitologia grega colocam os personagens masculinos no centro da história; espero que este livro ajude a deslocar esse foco.>
Meddy se recusa a aceitar o papel de vítima e escolhe escrever o próprio destino. Como os leitores, especialmente as mulheres, têm reagido a essa trajetória? Que tipo de retorno você recebeu?>
Fiquei profundamente emocionada com a forma como os leitores receberam Eu, Medusa, e as respostas têm sido extremamente positivas. Ouvi relatos de mães que usaram essa história não apenas para elaborar traumas do passado, mas também como uma oportunidade para iniciar conversas importantes com suas filhas sobre violência, aliciamento, comportamento predatório e os perigos de culpar a vítima. Saber que uma história que escrevi ajudou a dar início a algumas dessas conversas significa muito para mim.>
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Como você vê a representação de protagonistas negras na literatura fantástica hoje? Que barreiras ainda existem para que essas histórias ganhem mais visibilidade?>
Acho que temos muita sorte de viver um verdadeiro renascimento quando se trata da representação de protagonistas negras na fantasia. Há tantos livros incríveis que foram publicados nos últimos anos, e muitos outros ainda estão por vir. Ainda assim, acredito que há, sem dúvida, espaço para avançarmos. Na minha experiência, a maior barreira é convencer leitores não negros de que histórias com protagonistas negras também podem ser universais e gerar identificação.>
Além de Medusa, existe algum outro personagem mitológico que você gostaria de revisitar no futuro?>
Na verdade, há algumas figuras de diferentes partes do mundo que foram pessoas reais, mas cujas realizações as transformaram em personagens "míticos". Inclusive, estou escrevendo um livro sobre uma delas neste momento! Espero que esse livro seja lançado no próximo ano!>
O que você gostaria de dizer aos leitores brasileiros?>
Aos meus leitores brasileiros, gostaria de dizer muito obrigada. Meu sonho de toda a vida era poder contar histórias como profissão, e vocês fazem parte da razão pela qual esse sonho se tornou realidade. Sinto-me profundamente grata e honrada toda vez que vejo Eu, Medusa nas mãos de um leitor brasileiro.>
Qual é a sua relação com o Brasil? Você já tinha alguma conexão com o país antes de seu livro ser publicado aqui?>
Infelizmente, nunca visitei o Brasil, embora ele esteja na minha lista de lugares que sonho conhecer!>