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Do cosplay a Dostoiévski: nova geração mistura leituras na Bienal

Obras contemporâneas abrem caminho para clássicos da literatura, que voltam a circular entre leitores iniciantes

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 21 de abril de 2026 às 05:00

Penúltimo dia da Bienal do Livro, em Salvador
Penúltimo dia da Bienal do Livro, em Salvador Crédito: Sora Maia

Há 160 anos, Fiódor Dostoiévski lançava o romance Crime e Castigo. Apesar desse tempo circulando no mundo, o clássico russo estava disputando espaço em pé de igualdade com títulos mais contemporâneos na Bienal do Livro, que se encerra hoje (21) no Centro de Convenções de Salvador.

Difícil imaginar a turma da nova geração lendo uma obra secular? Ledo engano, meu querido. Caracterizada como um personagem de mangá, Hoonie passeava pela Bienal com sua amiga, Zera, buscando o que toda garotada queria ver: autores modernos, quadrinhos e desenhos japoneses. Mas isso não significa que não goste do antigo. Aos 15 anos, ela garante: faz cosplay e lê o novo, mas ama o clássico. O melhor: o novo está puxando o velho de volta para as prateleiras.

“Tem um mangá chamado Bungo Stray Dogs, em que os personagens são inspirados em autores clássicos. Foi por causa dele que eu comecei a ler Dostoiévski. Estou lendo Crime e Castigo e depois quero ler Os Irmãos Karamázov. Além disso, também tenho interesse em Edgar Allan Poe e Franz Kafka, estou procurando por eles aqui na Bienal”, disse Hoonie.

Ela consegue misturar na estante um variado menu de autores, conseguindo colocar mangás ao lado de dramas do século XIX. “Eu gosto muito de literatura de terror, suspense e psicológico. Esses temas estão em qualquer época, adaptados a cada tempo”, explica. Para ela, a Bienal é a melhor oportunidade para fazer a mistura de gerações.

“Eu acho que um evento como esse é muito importante, porque ver os livros desperta o interesse das pessoas. Elas olham a capa, pensam ‘isso aqui é algo que eu gosto’, compram e começam a ler. Além disso, também conhecem outras pessoas que leem, então se forma um ciclo de troca: eu leio algo e te recomendo, você lê outra coisa e me recomenda. Isso é muito interessante. E tem também a oportunidade de conhecer autores independentes, novos e velhos títulos, o que torna tudo ainda mais legal”, completa.

No meio de tantos estandes, era difícil encontrar os clássicos. Era preciso garimpar. Teoricamente, os títulos antigos ficariam em desvantagem, mas isso não tirou a turminha dos nos sebos espalhados na Bienal. “Pensei que veria aqui no meu estande cabelos brancos, mas foi o contrário. Foi uma surpresa ver jovens e adolescentes procurando não só autores brasileiros tradicionais, mas também clássicos da literatura universal. Foi algo que nos deu muita satisfação. E estou dizendo pessoas entre 15 e 20 anos, viu? As obras de Jorge Amado sumiram da prateleira. É colocar e sair. A turma fica aqui durante horas garimpando”, contou Eduardo Sarno, do sebo Graúna.

Penúltimo dia da Bienal do Livro, em Salvador por Sora Maia

Professora de português, Cintia Pio acompanhou seus alunos para a Bienal e acredita que o interesse da camada mais jovem em clássicos é um trabalho construído na escola, desmistificando livros antigos como chatos e apenas de cunho didático. Quando são apresentados de forma lúdica, com adaptações, a literatura passa a ser um aliado na educação e também um livro de cabeceira para a galerinha.

“Meus alunos continuam consumindo Julio Verne. Eu noto que eles já não veem isso apenas como leitura obrigatória. Eles estão conseguindo acessar também por meio de obras adaptadas e, a partir dessas adaptações, começam a perceber que os clássicos são interessantes. A gente está vendo muitos quadrinhos legais, como os do Fábio Moon, que vem fazendo boas adaptações. É preciso partir de algum ponto. Primeiro, fazer com que gostem de ler, depois ir avançando aos poucos. Eles começam com HQ, depois passam para os contos e vão se apropriando”, explica a professora de português.

“O papel do professor também é apresentar coisas interessantes. Às vezes, eles entram em contato com textos de autores clássicos que são muito bons, mas essa relação não funciona se for imposta. Primeiro, é preciso criar o hábito da leitura e depois ir estimulando em doses homeopáticas”, completa.

Jovens na Bienal
Jovens na Bienal Crédito: Moysés Suzart

Também professor, Israel Mendonça reforça a fala da colega, mas também destaca a Bienal e sua importância nessa relação entre o novo e o velho. Para ele, é preciso colocar uma obra moderna, que atraia a camada jovem, ao lado dos clássicos. Apesar de a Bienal mostrar o aumento da leitura, a rotina ainda aponta o contrário: pouca base e mais obras superficiais.

“Os jovens estão consumindo coisas novas, o que é bom, mas deixando a base, que são os autores clássicos. E qual é o risco disso? Superficialidade, esquecimento também. A gente esquece porque precisa da memória, e a memória é muito importante. Eu acho que uma feira como essa deveria dar mais destaque a esses autores, porque é o lugar onde eles merecem estar. Isso facilitaria também, porque a gente não precisaria garimpar tanto”, opina.

Mas o passo foi dado. Com cabelos longos e azuis, Letícia de Carvalho diz que cansou da modernidade - ao menos, no quesito digital versus analógico. Ela já deixou o Kindle de lado e não abre mão de sentir o cheiro do livro. “Eu, particularmente, prefiro o livro físico, gosto de pegar, sentir o cheiro. Gosto dos clássicos, mas a maioria ainda prefere comédia romântica, coisas com uma linguagem mais atual. Esses clássicos são um pouco mais densos, mais complexos, e muita gente acaba não tendo paciência ou até mesmo tempo para ler”, revela. É preciso continuar amando o passado, mesmo sabendo que o novo sempre vem.

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