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Raquel Brito
Publicado em 3 de julho de 2023 às 07:30
No Corredor da Lapinha, os moradores esperam ansiosos pelo desfile de Dois de Julho. Entretanto, uma habitante tem um motivo especial. Maria Quitéria Azevedo dos Santos, de 58 anos, foi batizada em homenagem à heroína, e desde 2013 estende com orgulho uma imagem da xará na porta de casa no dia da Independência da Bahia. A criatividade não parou por aí: além dela, sua mãe deu à luz a mais dois ícones brasileiros, Joana Angélica e Ana Néri. >
“Nós somos três heroínas, minha mãe gostava muito. Mas, eu gosto de dizer que não sou só eu que represento Maria Quitéria, você representa ela, todas as mulheres representam. Porque nós todas temos uma força aqui dentro que quem é mãe, dona de casa, desempregada e procura sobreviver conhece bem”, diz.>
Para quem mora próximo ao percurso do desfile cívico, o cortejo pode rapidamente se tornar uma oportunidade de rever amigos, reunir a família e assistir de camarote às manifestações culturais e políticas dos baianos. Não é difícil perceber uma varanda cheia ou casas de portas abertas, movimentadas a todo tempo, desde o início da caminhada, na Lapinha.>
Todos os anos, Maria Quitéria recebe primas, sobrinhos, netos e amigos na casa onde mora com sua tia, para assistirem juntos ao cortejo da Independência. Para Mária de Fátima Azevedo, prima de Quitéria, o imóvel que se transforma em camarote uma vez por ano serve como local de aprendizado para os mais novos, que têm a chance de ver de perto as homenagens à história da Bahia. “Eu trago meu netinho, Gabriel, desde que ele era pequeno, e ensino um pouquinho da história a ele, do melhor jeito para ele aprender. Hoje ele está com oito anos e continua vindo”, conta.>
Também no Corredor da Lapinha, na casa vermelha de número dez, o movimento começa a se intensificar uma semana antes do desfile de Dois de Julho. São os familiares, que vêm dos quatro cantos da Bahia para ajudar na cozinha. É preciso tratar as carnes e catar o feijão com ao menos sete dias de antecedência para dar conta de preparar a tempo a feijoada oferecida por Valdineia de Souza e seu marido, Adilson Lima, durante o cortejo. Para a refeição, disponibilizada a todos os transeuntes, são usados 300 quilos de feijão.>
A tradição de distribuir feijoada para os participantes do desfile cívico nasceu há 28 anos, inicialmente apenas para os clientes de Adilson, que era microempresário. Já nessa época, eram tantos interessados que, quando ele ia comer não tinham mais pratos, e o marido de Valdineia tinha que fazer a refeição numa calota de fusca. Hoje, apesar da refeição só começar a ser servida às 10:30, a fila na frente da casa se forma muito antes.>
“Todas as pessoas que chegam na minha residência são acolhidas e comem, sem distinção nenhuma. O importante é que venha e que coma”, diz Valdineia. “Tem uma semana que a gente não dorme, mas é prazeroso, não está ruim, não. Eu sinto uma satisfação em servir o almoço para as pessoas, porque, assim como nós temos os nossos alimentos todos os dias, tem pessoas que vêm e não têm um alimento para comer”, completa.>
As tradições também se mantêm na casa de Zoraide dos Santos Silva, de 54 anos. Mesmo tendo se mudado após se casar, o único endereço possível para ela no segundo dia de julho é a casa de infância. Caçula da família, que comanda uma lavanderia, ela cresceu na Lapinha e aprendeu desde cedo a celebrar a história baiana. >
Na família de Zoraide, a celebração vem em forma de decorações na fachada da casa, que chamam de longe a atenção de quem passa. A cada ano, eles se reúnem para pôr a criatividade em dia e decidir como vão adornar o local. Todos colaboram na confecção. >
Este ano, a homenagem ao bicentenário veio com um destaque às mulheres da Independência. “Resgatar a história é muito importante para as nossas vidas. É uma forma de fazer com que as pessoas entendam tudo que se passou, por isso a gente tenta retratar de alguma forma aqueles momentos. A gente decora para que a gente tenha essa história bem viva”, diz Zoraide. >
Além das fanfarras com músicas típicas de carnaval que embalam o caminho da Lapinha ao Campo Grande, muitos dos que acompanham o cortejo trazem consigo uma energia digna de fevereiro. Sandra Rodrigues é uma dessas pessoas: por anos, a esteticista de 48 anos e o marido aproveitaram o desfile da Independência baiana para apresentar a história do estado aos filhos. Hoje, com as crianças já crescidas, eles aproveitam para curtir ao lado dos isopores.>
“A gente gosta muito de ver o desfile e, sem as crianças para olhar, nós ficamos mais à vontade. Eu acho essa festa muito legal, porque além da alegria tem os protestos, as pessoas que têm dificuldades trabalhistas chegam aqui e mostram, eu acho isso muito bom”, afirma.>
Para Alberto Dantas, advogado de 46 anos, a situação é similar. Amante da data pela simbologia, ele uniu o útil ao agradável e curtiu a festa próximo aos pontos de vendas de cerveja, com o irmão. “Eu vim pela simbologia do dia, pela importância histórica, e me surpreendi positivamente. É um show de expressão e de sentimento do povo baiano”, diz.>
Lindinalva Lopes, 56, vê o cortejo como uma ocasião para reunir os amigos. “Todos os anos eu venho com os meus amigos para o mesmo lugar, ver os políticos passarem e tomar minha cervejinha, também”, diz ela.>
Para muitos moradores e comerciantes em geral, as comemorações da Independência são uma oportunidade de lucrar um pouco mais. Luiz Antônio Ribeiro é um eles. Morador de um ponto do percurso do desfile cívico há seis anos, em todo Dois de Julho ele aproveita a movimentação nas ruas para vender produtos na frente de casa. >
No menu, ele oferta licor, batidas, caldos e dobradinha. Às 07h30, Ribeiro já tinha vendido cinco dobradinhas. “O movimento está ótimo, o pessoal começa cedo a procurar o que comer. É bom para poder tirar um trocadinho, né? Que nem todo mundo aí”, diz.>
No caminho para o Campo Grande, os participantes do cortejo encontram diversas opções de lanches, refeições e bebidas. Entretanto, um ponto de vendas na Ladeira da Soledade é notável. Em frente ao Centro de Surdos da Bahia (CESB), integrantes surdos vendiam salgados e refrigerantes na língua de sinais. A interação com ouvintes que não sabem Libras era feita com o cliente apontando para o produto que queria na tabela colada à parede.>
Janete Baliza, 55, através da intérprete Cristiane Guimarães, que é coordenadora administrativa do CESB, foi uma das responsáveis pelo caixa durante o desfile, e conta que o dinheiro das vendas retorna para investimentos no Centro de Surdos. “Depois, nós temos diferentes ideias do que fazer com o valor: economizar para depois investir em outro evento, no social, no esporte. Às vezes, junto com o esporte, a diretoria da parte social promove diferentes eventos, cursos de Libras, festas de São João e de Natal ou palestras, por exemplo”, conta.>
*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro>
O projeto Bahia livre: 200 anos de independência é uma realização do jornal Correio com apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador. >