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Thais Borges
Publicado em 7 de julho de 2026 às 14:41
As imagens de um homem sendo contido, de forma agressiva, pela Polícia Militar, ganharam repercussão nos últimos dois dias. Os vídeos registraram o momento em que o cantor Tom Sofrência, 39 anos, é preso pela polícia, na noite do último domingo (5), na Rua João de Deus, no Pelourinho. >
A Polícia Militar (PM) informou que ele havia tentado fugir e estava com uma pistola. Tom, contudo, nega que estivesse com uma arma. "Quando vi que eles iam me prender e forjar uma arma, eu reagi. Mas levei spray de pimenta, fui levado ao chão, fui engarguelado (sic), fui humilhado no lugar onde eu vivo e ganho meu pão", rebateu o músico, em entrevista ao CORREIO, por telefone, nesta terça-feira (7). "No Pelourinho, não toco mais, porque temo pela minha vida".>
'Plantaram uma arma e agora temo pela minha vida', diz cantor preso em ação da PM no Pelourinho
Tom Sofrência se apresenta no Bar do Fua há quatro anos, sempre de sexta-feira a domingo. Dessa vez, segundo ele, não foi diferente. Por volta das 23h30 de domingo, estava arrumando o carro para ir embora depois do show. >
"Subi meu carro. Podia estar na contramão, na verdade, ali não tem mão, nem contramão. Me dou de frente com a viatura da 1845 (do 18º Batalhão). Eles conhecem meu carro, diga-se de passagem, que é uma Duster prata. Dei ré para eles passarem e eles verificaram que tampei a placa", diz. >
Tom admite que costuma tampar a placa devido aos radares da Transalvador, que restringem a circulação de veículos no Pelourinho. De acordo com ele, essa é uma atitude corriqueira entre comerciantes e até entre os próprios policiais militares. Ele admite que, quando os carros estão subindo, é comum que moradores e comerciantes locais tampem as placas da frente dos veículos; na descida, as placas de trás. >
A abordagem, contudo, já teria sido de forma truculenta. "Disseram que eu estava com arma. Eles plantaram aquela arma, porque eu nunca nem tinha visto. Sou músico, nunca me envolvi com tráfico de drogas. Eles conhecem todo mundo ali, mas são truculentos na comunidade", conta Tom. >
Tudo aconteceu na frente do Bar do Fua. Nas imagens, é possível ver que dezenas de pessoas estavam na rua no momento da abordagem. "Eu não sou vagabundo, não sou traficante. Nunca fui", enfatizou. >
Outra versão>
As informações divulgadas pela polícia, contudo, são diferentes. Segundo a assessoria da PM, equipes do 18º BPM apreenderam uma arma de fogo, munições, carregador e aparelhos celulares depois que avistaram um carro trafegando na contramão na Rua João de Deus. A PM informou que a placa de identificação estava coberta, de forma intencional, por um pano. >
“Ao receber a voz de parada dos militares, o condutor tentou fugir, mas foi rapidamente interceptado e contido pelas equipes após demonstrar resistência. Durante os procedimentos de abordagem e busca pessoal, foi constatado que o indivíduo estava portando uma arma de fogo”, dizem, em nota.>
Ainda de acordo com a PM, com ele teriam sido apreendidos uma pistola calibre .380, um carregador municiado com 12 cartuchos do mesmo calibre, além de dois aparelhos celulares.>
“O homem e todo o material apreendido foram conduzidos e apresentados na Central de Flagrantes para a adoção das medidas de polícia judiciária cabíveis”, completam, em nota.>
Perseguição>
Agora, Tom diz que não pretende mais voltar a tocar no local. Na avaliação dele, há perseguição ao Bar do Fua. "Domingo foi a última vez. A gente é perseguido por levantar a bandeira LGBTQIA+”, diz.>
Há quatro anos, Tom Sofrência toca no Bar do Fua. Desde então, o estabelecimento abraçou totalmente a bandeira LGBTQIA+ e se apresenta como Bar da Diversidade. "Parei de tocar no Bar do Fua por causa deles. Foram quatro anos para a gente levantar a bandeira e todo mundo estava falando muito bem. Para me desmoralizar, pegaram meu setor de trabalho, me agrediram, plantaram essa arma de fogo em mim, sendo que, em momento algum, ninguém viu essa arma de fogo", enfatiza. >
O Bar do Fua pertence a uma prima de Tom e ao marido dela. Tom acredita, porém, que mesmo entre os comerciantes, há quem seja contra a presença do estabelecimento ali. >
"É um complô contra nós três, porque nós botamos a rua para virar Carnaval fora de época e todo mundo ganha dinheiro - do pipoqueiro ao cara que vende geladinho, da baiana de acarajé ao cara da cerveja. Mas domingo foi a última vez, porque estou com medo".>
Na delegacia, ele pagou a fiança e foi liberado. "Graças a Deus, foi afiançável. Os policiais civis souberam conversar, me ouviram e entenderam que estou sendo perseguido". >
Músico há 16 anos, ele diz que está cansado de situações como essa. "Só quero sobreviver, trabalhar para pagar minhas contas e ter o dinheiro para meus filhos".>