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Carmen Vasconcelos
Publicado em 17 de agosto de 2026 às 19:21
Falar sobre dinheiro, planejamento e futuro deixou de ser um assunto exclusivo dos adultos e ganhou contornos, cores e balões de fala na rede pública de ensino de Salvador. Entre os dias 5 e 17 de agosto, o Parque da Cidade transformou-se no palco de uma experiência pedagógica inovadora: uma carreta com estrutura de sala de aula abrigou as oficinas do projeto itinerante Na Quebrada do Cofrinho, voltadas para cerca de 2 mil estudantes do Ensino Fundamental (Anos Finais) e da Educação de Jovens e Adultos (EJA) de 45 escolas municipais. >
A iniciativa é uma realização da Diretoria Pedagógica da Secretaria Municipal da Educação (Smed) em parceria com o projeto federal — financiado pelo Ministério da Cultura por meio da Lei Rouanet — e atende às diretrizes da Lei Municipal nº 9.785, sancionada em 2024. A legislação estabeleceu a inclusão da temática de Educação Financeira e Empreendedora no currículo da Educação Básica da capital baiana.>
Com uma proposta pedagógica atraente e dinâmica, as oficinas utilizam cartilhas com quadrinhos vazados e uma ambientação aconchegante para estimular crianças, jovens e adultos a exercitarem estratégias de organização financeira. Os conteúdos são articulados a partir de quatro indicadores centrais: desejos, necessidades, sonhos e emergências financeiras.>
“Nas sessões, o público é convidado a criar roteiros, personagens e histórias baseados em experiências reais ou vivenciadas em suas próprias comunidades. Ao final de cada encontro, as produções são compartilhadas com a turma, gerando debates práticos e divertidos sobre o uso consciente do dinheiro”, esclarece a professora Cristina da Mata,coordenadora dos Anos Finais do Ensino Fundamental.>
Lições do cotidiano>
As histórias criadas revelam como os percalços do dia a dia impactam diretamente a rotina das famílias. Em um dos relatos trabalhados, os alunos retrataram o drama de um telhado destruído por ventos e chuvas fortes — um imprevisto que, pela ausência de uma reserva de emergência, gerou severas dificuldades financeiras e desgaste emocional para os moradores. Em outro momento, um estudante de 12 anos desenhou o dilema de ver sua bicicleta quebrada sem ter recursos para o conserto, vendo o sonho de pedalar interrompido por falta de planejamento.>
Por outro lado, as produções também ressaltam lições de maturidade e independência. A aluna Heloisa, de 12 anos, estudante da escola municipal da Palestina, criou a história dos irmãos Helena e Renato em torno do carro quebrado do pai. Na narrativa, Renato consegue solucionar o problema porque mantinha um valor guardado. “Antes, tudo o que eu via e tinha dinheiro, queria comprar. Agora penso antes de gastar. Não importa a sua idade, é preciso se organizar financeiramente porque você pode precisar”, refletiu a aluna.>
Incentivos ao senso de responsabilidade também marcaram a produção de Maria Alice, de 13 anos. Em sua HQ, a personagem principal queria comprar um gato de estimação, mas o pai impôs uma condição: ela deveria juntar o próprio dinheiro para custear a ração do animal. A jovem projeta o aprendizado para a vida: “A lição é que tem que ser independente. Quero viajar para a Espanha e sei que preciso juntar dinheiro para isso”.>
Já Ana Júlia da Silva Santos, também de 13 anos, destacou a simplicidade e a importância das boas escolhas financeiras para o seu futuro. “É mais fácil de aprender assim. Entendi que existem várias formas de economizar e gastar do jeito certo. No futuro, quando eu for adulta, vou precisar muito de dinheiro. Sempre que ganhar algo, vou economizar para ter meu próprio empreendimento e comprar um computador e roupas”, relatou.>
Inclusão e engajamento >
O impacto do projeto estendeu-se também ao período noturno, atendendo turmas da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Trazendo a bagagem das contas do mês, da manutenção do lar e das responsabilidades do trabalho, os estudantes adultos proporcionaram discussões ricas sobre a gestão do orçamento familiar, aliando a vivência prática ao aprendizado teórico proposto pelas oficinas.>
A aceitação da rede municipal tem sido um dos destaques da ação. Cada uma das unidades participantes levou, em média, 40 estudantes e 3 professores. A partir do contato com as metodologias do projeto, educadores já estudam formas de integrar as dinâmicas de educação financeira de maneira permanente nas disciplinas do currículo regular.>
Para viabilizar a estrutura e o funcionamento das carretas no Parque da Cidade — garantindo atendimento contínuo entre 8h e 21h —, a Secretaria Municipal de Educação (Smed) realizou um trabalho prévio de articulação com diversas secretarias municipais, como a Secretaria de Cidade Sustentável e Resiliência (Secis), a Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop) e a Secretaria Municipal de Manutenção da Cidade (Seman). O esforço conjunto envolveu a autorização de uso do solo, suporte de logística para transporte dos equipamentos, instalação da rede elétrica de alta capacidade e reforço na segurança do local.>
Diante da riqueza do material produzido pelas crianças e adultos, a Diretoria Pedagógica da Smed informou que está estruturando um fluxo de publicação para divulgar trechos e amostras das HQs nas redes sociais oficiais. “O objetivo é registrar a memória do projeto e inspirar toda a comunidade soteropolitana sobre a importância da saúde financeira, do consumo consciente e do planejamento como caminhos para a realização de sonhos”, completa Cristina da Mata.>