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Maysa Polcri
Publicado em 3 de fevereiro de 2024 às 05:00
“Vamos adiantando, pessoal, que a fila está longa”, dizia o pescador que coordenava a entrada de baianos e turistas na Casa de Iemanjá, no Rio Vermelho. As oferendas depositadas no lugar pequeno dividiam espaço com os grupos de pessoas que deixavam flores e faziam selfies, no início da manhã desta sexta-feira (2). Até 30 pessoas se espremiam por vez na rápida passagem pela casa. “Tira uma foto minha rapidinho”, pediu um turista, ignorando a pressa do pescador. A agilidade contrastava com a multidão de devotos que formavam grandes filas no entorno da Colônia de Pescadores Z1. >
Por volta das 8h, o casal Maria José e Moisés Mendonça se aproximava do final da fila para depositar suas oferendas no barracão. Àquela altura, os últimos ficavam próximos ao Teatro Sesi e a espera era de, pelo menos, duas horas. “Há mais de 20 anos a gente vem para a Festa de Iemanjá, mas hoje atrasamos e chegamos mais tarde do que o normal”, justificou Maria, que mora com o marido na Boca do Rio. >
Mas se engana quem pensa que a demora desanimou os devotos que chegavam quando o sol começava a esquentar. “A gente gasta tanto tempo com besteira, ficar aqui não é trabalho nenhum”, completou. Nas mãos, a oferenda embalada era formada por espelho e uma tiara de criança. O significado dos pedidos? Maria José só conta para Iemanjá. >
Enquanto ela ainda nem tinha saído de casa, uma maré de gente vestida de azul e branco já lotava a praia do Rio Vermelho antes do presente principal chegar da Casa de Oxumaré, na Avenida Vasco da Gama. De cima, era difícil enxergar a areia. No chão, o espaço até o mar era disputado tanto por quem tinha acabado de chegar, como por aqueles que viraram a noite no bairro mais boêmio de Salvador. A madrugada foi de lotação no Rio Vermelho, como uma amostra dos momentos religiosos e profanos que viriam mais tarde.>
A principal oferenda só chegou às 6h30, com mais de uma hora de atraso, acompanhada pelos cantos e batuques do povo santo. Coberto por um pano branco, o presente principal só foi revelado no barracão. Uma concha amarela com uma pérola branca no interior embelezaram a oferenda deste ano, elaborada pela Casa de Oxumaré, como manda a tradição.>
Adelaide Moreno aguardava ansiosa com duas amigas a chegada do presente. Todos os anos elas participam de um café da manhã organizado por moradores do bairro no 2 de fevereiro e são a prova de que a festa atrai cada vez mais pessoas. “Há 30 anos era muito mais tranquilo. Hoje em dia aparece uma multidão no café da manhã. Ano passado foram quase 500 pessoas”, comentou Adelaide Moreno. >
Quando o sol começou a esquentar, às 10h, boa parte das pessoas que passaram a madrugada nas ruas voltou para casa. Na calçada, fanfarras garantiram a animação de quem chegava. No meio de quem já é figurinha carimbada na celebração, houve espaço para aqueles que participaram pela primeira vez. >
Caso de Paula Limongi, turista de Recife, que se encantou com todos os detalhes da festa. Este dia 2 de fevereiro ficará para sempre guardado na memória da jornalista, que usou pela primeira vez um vestido branco e azul costurado há 10 anos. “Meu sonho sempre foi viver este momento. Em 2014 eu mandei fazer o vestido para usar e, finalmente, o dia chegou”, contou. >
As duas gestações e a correria do trabalho atrasaram a vinda de Paula para a capital baiana, o que só aumentou a expectativa para o tão sonhado momento. “O mundo todo precisa conhecer. É uma festa democrática e de fé, mas que independe de religião”, falou. >
Por volta do meio-dia, o ritual para a evocação dos orixá - xirê - foi realizado no barracão, enquanto o movimento dos barquinhos continuava a levar os devotos para depositar suas oferendas no mar. Cada pessoa pagava ao menos R$ 20 para o passeio. Flores, colares de contas e banhos de folha também eram vendidos na orla e na areia. >
Para o babalorixá e doutor em Ciências Sociais Rodney William, a tradição das religiões de matriz africana é cada vez mais substituída pelas práticas de consumo na Festa de Iemanjá. O festejo teve início em 1923, quando pescadores de Salvador decidiram fazer uma oferenda ao orixá para que o período de escassez de peixes fosse superado. >
“Os pescadores eram, em sua maioria, negros e pobres que tinham ligação com os terreiros de candomblé. A festa cresceu e virou atrativo turístico que, muitas vezes, se descola das tradições, com as oferendas se tornando objeto de consumo”, completa. A Festa de Iemanjá foi reconhecida como patrimônio imaterial de Salvador em 2020 e é a maior realizada para um orixá no Brasil.>