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Publicado em 27 de julho de 2026 às 05:00
Quase todo mundo já fez, ou pelo menos já ouviu falar, de um curso de primeiros socorros. Saber o que fazer diante de um engasgo, um corte ou uma parada cardíaca virou conhecimento popular, ensinado em escolas, empresas e academias. Mas existe um momento da vida para o qual quase ninguém é preparado: o fim dela. >
E assim como não se aprende primeiros socorros esperando por uma emergência, os últimos socorros também não deveriam ser aprendidos às pressas, no meio de uma perda. Diante disso, o curso Últimos Socorros se propõe a preencher essa lacuna. Criado na Alemanha em 2008 pelo médico intensivista Georg Bollig, como parte de sua pesquisa em Cuidados Paliativos, o curso já formou mais de 20 mil pessoas em 20 países e chegou ao Brasil em 2020. >
A partir deste ano, passou a ser ofertado em Salvador, através da Florence, hospital de transição, especializado em reabilitação e cuidados paliativos. >
A proposta é simples: assim como aprendemos a agir diante de uma emergência, também podemos aprender a acompanhar alguém no processo final da vida. “O curso dá ferramentas concretas para que as pessoas saibam o que fazer nesta situação: como conversar sobre desejos de fim de vida antes que seja tarde, como aliviar o desconforto de quem está partindo, como lidar com o silêncio e com as despedidas. São coisas que geralmente a gente só aprende na prática, no meio da dor, mas pode aprender antes, com calma”, afirma Yanne Amorim, médica paliativista da Florence, hospital de transição. >
Em um encontro em formato de roda de conversa, conduzido por facilitadores com vivência em cuidados paliativos, o curso aborda dos seguintes módulos: ‘Morrer é parte da vida’, ‘Planejar e decidir’, ‘Aliviar o sofrimento’ e ‘Despedidas’. Ele não exige formação técnica nem experiência prévia e é aberto a qualquer pessoa que queira entender, com mais clareza e menos medo, o que é possível fazer diante do fim da vida de alguém querido.>
“Enquanto a morte for um tabu, as famílias vão continuar decidindo no escuro, muitas vezes sem saber o que a pessoa gostaria, ou se sentindo culpadas por escolhas que nem eram delas para fazer. Falar sobre isso com antecedência é um ato de cuidado: dá autonomia para o paciente expressar o que quer e dá segurança para a família”, acrescenta Yanne Amorim.>
Os interessados em participar do curso podem se inscrever através do site ultimossocorros.com.br. Lá também é possível encontrar o calendário de turmas e mais informações sobre o projeto. >
Centro do debate >
A discussão sobre cuidados no fim da vida ganhou ainda mais visibilidade nos últimos dias com a estreia do documentário Preta – Eu Não Ando Só, que reúne registros íntimos feitos pela cantora Preta Gil durante o tratamento de um câncer, até sua morte, em julho de 2025. >
A produção reacendeu uma conversa que muitas famílias evitam: como acolher, decidir e se despedir com dignidade quando a cura já não é mais o objetivo.>
Para especialistas, é justamente esse tipo de repercussão cultural que ajuda a tirar os cuidados paliativos do tabu. “Falamos muito sobre como salvar uma vida, mas pouco sobre como cuidar bem de alguém até o fim dela. Os cuidados paliativos não tratam da morte como uma derrota, mas do alívio do sofrimento e da qualidade de vida possível em cada etapa. Quanto mais a sociedade conversar sobre isso com naturalidade, menos sozinhas as famílias vão se sentir na hora em que mais precisam de acolhimento”.>