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Cientistas encontram indícios de muralha de 1 km de altura que atravessava a América do Norte e ajudou a revelar as rochas do Grand Canyon

Pesquisa indica que uma gigantesca escarpa se formou há cerca de 800 milhões de anos, durante a ruptura de um supercontinente

  • Foto do(a) author(a) Carol Neves
  • Carol Neves

Publicado em 2 de setembro de 2026 às 09:09

O Grand Canyon, no Arizona, é uma das paisagens naturais mais impressionantes dos Estados Unidos
O Grand Canyon, no Arizona Crédito: Shutterstock

Muito antes de o Rio Colorado começar a escavar o Grand Canyon, uma enorme muralha de rochas pode ter redesenhado parte da América do Norte. Pesquisadores encontraram indícios de que uma escarpa com cerca de 1 quilômetro de altura se estendia por milhares de quilômetros no oeste do continente há aproximadamente 800 milhões de anos.

A estrutura teria surgido durante a separação de Rodínia, um supercontinente que reunia massas de terra hoje distribuídas pelo planeta. Ao longo de dezenas de milhões de anos, a erosão provocada por esse relevo colossal teria removido camadas inteiras do solo e exposto rochas muito mais antigas, que atualmente podem ser observadas no fundo do Grand Canyon, no Arizona.

A hipótese foi apresentada em estudo publicado na revista científica Geology. A equipe reuniu reconstruções dos movimentos das placas tectônicas e dados sobre a evolução da paisagem para reconstituir a transformação da antiga margem oeste da América do Norte.

Grand Canyon, no Arizona, é uma das paisagens naturais mais impressionantes dos Estados Unidos, com paredões rochosos esculpidos ao longo de milhões de anos pelo rio Colorado por Shutterstock

Segundo os cientistas, a chamada “Grande Escarpa de Laurentia”, nome dado ao antigo núcleo continental norte-americano, teria passado por áreas que hoje correspondem a Arizona, Utah, Idaho, Wyoming, Colorado, Texas, Oklahoma, Arkansas, Missouri e Illinois.

O processo ajuda a explicar um dos enigmas geológicos do Grand Canyon: embora o local preserve uma sequência de rochas com cerca de 2 bilhões de anos, uma enorme parte desse registro simplesmente desapareceu. Conhecida como Grande Discordância, a lacuna reúne mais de 1 bilhão de anos sem registros rochosos em alguns pontos.

A nova pesquisa indica que a retirada desse material não foi resultado apenas de geleiras ou de um evento isolado. A formação da escarpa, seguida pelo lento recuo de suas encostas para o interior do continente, teria arrancado entre 5 e 10 quilômetros de rocha em determinadas regiões.

Além de deixar à mostra o embasamento cristalino do Grand Canyon, a antiga muralha pode ter influenciado o curso de rios, o acúmulo de sedimentos e a entrada do mar em partes do continente antes da explosão cambriana, período marcado pela rápida diversificação de formas complexas de vida.

A escarpa não existe mais, mas seus efeitos continuam registrados na paisagem. Para os pesquisadores, formações atuais na África do Sul, no Brasil, na Índia e na Antártida ajudam a imaginar como essa barreira pode ter moldado a América do Norte em um passado remoto.