Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Carol Neves
Publicado em 11 de setembro de 2026 às 08:49
A inteligência artificial já está sendo usada para acelerar ataques cibernéticos, coletar informações para espionagem, criar sistemas de vigilância em massa, produzir propaganda política, aplicar golpes e auxiliar no desenvolvimento de sistemas militares. Os casos fazem parte de um relatório divulgado pela Anthropic nesta quinta-feira (10) sobre usos considerados abusivos de seus modelos de IA. >
O levantamento reúne atividades identificadas e interrompidas pela empresa ao longo dos oito meses anteriores à publicação. Os episódios ocorreram entre dezembro de 2025 e agosto de 2026 e foram divididos em sete áreas: operações cibernéticas, campanhas de influência, vigilância, golpes e fraudes, riscos biológicos, desenvolvimento de armas convencionais e extração ilícita de tecnologia de modelos de inteligência artificial.>
Segundo a Anthropic, os casos não representam necessariamente o uso indevido mais comum do Claude. Eles foram selecionados por apresentarem comportamentos considerados relevantes ou inéditos. Entre os responsáveis pelas operações estavam grupos supostamente ligados a governos, criminosos interessados em ganhos financeiros, fornecedores comerciais de ferramentas de vigilância, instituições estatais de propaganda e indivíduos com motivações políticas.>
Uma das principais conclusões do relatório é que a IA está reduzindo a quantidade de conhecimento técnico, mão de obra e tempo necessários para operações sofisticadas. Em alguns dos casos analisados, agentes de inteligência artificial executaram etapas que iam do reconhecimento inicial de alvos à exploração de vulnerabilidades e retirada de dados. Os humanos continuavam responsáveis por decisões como a escolha das vítimas e a análise das informações obtidas.>
As principais inteligências artificiais disponíveis hoje
Espionagem e ataques em escala>
Entre os casos detalhados está uma operação atribuída pela Anthropic a um grupo de espionagem com características compatíveis com atividades anteriormente relacionadas à Rússia. Mais de 20 organizações foram alvo, incluindo instituições governamentais, militares, diplomáticas e de defesa, além de pessoas ligadas à política externa dos Estados Unidos.>
O grupo utilizava inteligência artificial para automatizar tarefas como desenvolvimento de ferramentas, aquisição de infraestrutura, phishing, manutenção do acesso a sistemas comprometidos e retirada de informações.>
Fabricantes de componentes para drones estiveram entre os alvos. Em uma das invasões, o grupo obteve o kit completo de desenvolvimento de software de um sistema de visão para drones e utilizou a IA para analisar sua arquitetura, componentes, fornecedores e produtos ainda não anunciados.>
Em outra ação, contra uma autoridade tecnológica de um governo do Norte da África, os invasores conseguiram uma base com mais de 300 mil registros de identidade nacional e informações comerciais referentes a mais de 500 mil empresas.>
O relatório também descreve criminosos utilizando agentes de IA para ampliar ataques. Em uma das operações, mais de 1,8 milhão de aplicativos Android foram baixados e analisados em busca de informações sensíveis. Em outro episódio, uma invasão a um serviço de software permitiu extrair dados ligados a cerca de 200 clientes da empresa atacada. Segundo a Anthropic, agentes de inteligência artificial realizaram praticamente todo o trabalho técnico.>
A velocidade também chamou a atenção dos pesquisadores. Operações que poderiam exigir equipes especializadas foram executadas por indivíduos, com algumas invasões avançando em duas ou três horas.>
Irã usou IA para mapear forças navais dos EUA>
Entre os episódios de espionagem está uma operação atribuída a um agente ligado ao Irã. Segundo a Anthropic, o Claude foi usado para coletar e analisar informações disponíveis publicamente e produzir recomendações de alvos contra forças navais dos Estados Unidos na região.>
O material reunia posições de embarcações a partir de fontes abertas, identificadores públicos de navios e aeronaves, ferramentas para consultar imagens comerciais de satélite e sites que mostravam movimentações navais americanas. O grupo também reuniu uma relação de militares dos EUA a partir das legendas de fotografias públicas e pesquisou vulnerabilidades conhecidas em equipamentos utilizados em embarcações.>
Em outra investigação, um ator ligado ao Irã desenvolveu com auxílio do Claude uma ferramenta automatizada para traçar perfis a partir de fontes abertas. Centenas de pessoas em Israel e integrantes da diáspora judaica foram analisados, e o sistema também tinha como objetivo produzir informações sobre cidadãos israelenses e americanos.>
Os casos fazem parte de um cenário mais amplo de uso da inteligência artificial em atividades de vigilância. Entre janeiro e julho, a Anthropic identificou operações envolvendo agentes ligados a China, Irã e África Ocidental, além de empresas do mercado privado de vigilância. Em um dos episódios iranianos, centenas de milhares de publicações em redes sociais foram analisadas até que 39 contas de opositores fossem selecionadas para monitoramento.>
Propaganda e perfis falsos>
Outro eixo do relatório envolve campanhas destinadas a manipular o debate público. A Anthropic documentou nove operações de influência originadas na Rússia, Irã, Turquia, países do Golfo, Sul da Ásia, África e Europa, com públicos-alvo em seis continentes.>
A IA foi empregada não apenas para escrever publicações, mas também para estruturar as próprias campanhas. Os operadores recorreram ao Claude para criar manuais, bancos de alvos, sistemas de personas, documentos de planejamento e regras para disfarçar a origem do conteúdo. Também foram identificadas contas com fotografias geradas por IA, biografias inventadas, falsos jornalistas e imitações de pessoas e instituições reais.>
Em uma rede analisada pela empresa, cerca de 70 sites que se apresentavam como veículos de notícias publicaram ao menos 8.913 textos em aproximadamente 20 idiomas. Estados Unidos, Brasil, França e República Democrática do Congo estavam entre os países abordados. O Claude era usado tanto para produzir textos originais quanto para reescrever reportagens de veículos legítimos com determinadas inclinações políticas.>
O relatório também detalha três operações de propaganda associadas a instituições iranianas. O Claude funcionava como parte da estrutura administrativa e operacional das campanhas, ajudando a criar manuais, personas, protocolos e estratégias de amplificação. O conteúdo era adaptado para diferentes idiomas e distribuído tanto em plataformas iranianas quanto em X, Instagram, Telegram, TikTok e YouTube.>
A dimensão do material entregue à IA acabou expondo detalhes internos das próprias operações. Entre os documentos estavam um portfólio internacional de influência dividido em nove áreas e planos completos para o funeral e a sucessão do líder supremo do Irã. Os responsáveis também informaram nas conversas suas instituições, funções e localizações, elementos usados pela Anthropic, junto a outras evidências, para relacioná-los a instituições iranianas alinhadas ao Estado.>
Durante uma campanha relacionada à guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã em 2026, uma das redes chegou a atribuir alegações falsas a instituições ocidentais de pesquisa para aumentar a credibilidade das mensagens.>
Golpes com milhares de perfis de namoro>
A inteligência artificial também apareceu em esquemas de fraude. Um estúdio de aplicativos localizado na China, segundo a Anthropic, operava uma rede de mais de 20 plataformas de relacionamento enquanto anunciava que as conversas eram realizadas por pessoas reais.>
Em apenas duas semanas de abril, mais de 4,7 mil personagens controlados por IA conversaram com pelo menos 25 mil usuários. O Claude produziu aproximadamente 2,36 milhões de mensagens nesse período. Pessoas reais também participavam de algumas etapas, como chamadas de vídeo e interações em redes sociais, para reforçar a aparência de autenticidade.>
A operação utilizava aproximadamente três personagens de IA para cada operador humano. Outros modelos eram empregados para sugerir respostas, avaliar a atratividade de rostos, moderar fotos e áudios e produzir imagens de avatares.>
IA em projetos militares>
O relatório apresenta ainda seis casos envolvendo desenvolvimento de armas convencionais: três relacionados à China, dois à Rússia e um ao Iêmen.>
Quatro deles envolveram software destinado a sistemas militares. Entre os projetos estavam um programa de foguete guiado submetido a teste de campo, um sistema para interceptação de torpedos, software para enxames de drones e uma ferramenta de seleção de alvos voltada a operações de guerra eletrônica e supressão de defesas aéreas.>
Os outros dois casos estavam relacionados à obtenção de produtos de uso duplo para clientes da indústria de defesa russa e à coleta de informações públicas sobre armas de energia dirigida e seus fornecedores.>
Pesquisas biológicas também acenderam alerta>
A Anthropic identificou ainda usos considerados preocupantes em pesquisas biológicas. Os episódios envolveram trabalhos de uso duplo, ou seja, estudos que podem ter aplicações científicas legítimas, mas também apresentar riscos.>
Entre os exemplos estão pesquisas relacionadas à adaptação de vírus, elaboração de propostas envolvendo ortopoxvírus, desenvolvimento de um banco de peptídeos de venenos e redesenho computacional de toxinas.>
A empresa ressalta, porém, que os casos não demonstram que ameaças biológicas iminentes tenham sido viabilizadas pelo Claude e também não afirma que os pesquisadores envolvidos pretendiam causar danos. O alerta está relacionado principalmente à tentativa de contornar restrições de acesso e à dificuldade de diferenciar pesquisas legítimas de atividades potencialmente perigosas.>
Empresas de IA também são alvo>
O próprio Claude foi alvo de operações destinadas a extrair conhecimento do modelo para treinar sistemas concorrentes, prática que a Anthropic chama de “destilação ilícita”.>
O maior caso identificado pela companhia foi atribuído à Alibaba e envolveu mais de 151 milhões de interações entre maio e julho de 2026. Segundo a Anthropic, as respostas e os processos de raciocínio de modelos Claude foram coletados para auxiliar no treinamento de versões do Qwen.>
Também foram relatadas operações atribuídas a DeepSeek, Zhipu/Z.ai, Xiaomi, Moonshot AI, SenseTime e MiniMax. Em um dos casos envolvendo a DeepSeek, solicitações feitas por usuários foram encaminhadas ao Claude, provavelmente sem o conhecimento ou consentimento deles. Entre os dados enviados estavam documentos internos de uma empresa chinesa de tecnologia e credenciais ativas ligadas a um órgão russo associado ao Ministério da Defesa.>
Ao longo do relatório, a Anthropic afirma ter bloqueado as contas identificadas, reforçado mecanismos de detecção e, quando necessário, compartilhado informações com autoridades ou outras empresas. A companhia avalia que o avanço dos modelos está reduzindo barreiras técnicas para operações que antes dependeriam de equipes numerosas e especializadas, ao mesmo tempo em que permite automatizar etapas cada vez maiores dessas atividades.>