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Carol Neves
Publicado em 17 de agosto de 2026 às 09:50
A casa de Shayne não tem endereço convencional, mas tem cozinha, sofá, fogão a lenha, varanda, chuveiro e um espaço para dormir. Escondida em meio à vegetação de uma encosta em Whangārei, na Nova Zelândia, a construção levou aproximadamente 12 meses para ser montada pelo homem.>
Em situação de rua, Shayne vive em uma área de mata de Whangārei. A história inusitada veio à tona durante uma reportagem do jornalista neozelandês Paddy Gower sobre pessoas sem moradia na cidade. >
Grande parte do que existe no imóvel foi encontrada por Shayne em locais onde os objetos haviam sido descartados. Em vez de simplesmente recolher os materiais, ele encontrou novas funções para eles e criou maneiras de levar peças pesadas até o alto da encosta.>
Homem construiu casa na árvore para sair das ruas
Um dos exemplos é o sofá de couro que ocupa parte da sala. Para transportá-lo, Shayne construiu um mecanismo de polias. "Não tocou o chão da floresta enquanto subia esse barranco", contou ao mostrar o sistema.>
A casa foi apresentada pelo jornalista neozelandês Paddy Gower no programa "Paddy Gower Has Issues". A reportagem acompanhava a situação de pessoas sem moradia em Whangārei quando Shayne convidou a equipe para conhecer o local onde vive.>
O acesso já revela o quanto a construção está isolada. A caminhada termina em um trecho de subida acentuada, onde o morador colocou uma corda para ajudá-lo a vencer o terreno. "Eu chamo isso de acampamento base. É lamacento, íngreme e difícil", disse.>
O que tem dentro da casa>
O interior, entretanto, é bem mais elaborado do que o caminho até ele poderia sugerir. Há uma bancada com armários para alimentos e café, uma chaleira de ferro fundido e um pequeno fogão a gás. O piso foi revestido com material laminado e uma área externa ganhou um corrimão de bambu.>
Também há espaço para guardar lenha, além de um chuveiro improvisado e um varal. Para dormir, Shayne utiliza uma barraca que recebeu de uma mulher. A estrutura não é totalmente protegida das condições do ambiente e ainda sofre com vento e umidade.>
O interesse por decoração aparece em diferentes detalhes. Shayne guarda revistas sobre arquitetura e usa madeira e outros objetos para produzir trabalhos artísticos. Entre as peças incorporadas à casa está o mostrador de um antigo relógio de mosaico que havia sido descartado por um centro comunitário.>
A preocupação em transformar o ambiente também tem relação com sua visão. Shayne contou que está perdendo a capacidade de enxergar e teme que o problema avance. Por isso, quer deixar algo que possa representar aquilo que considerava bonito enquanto ainda conseguia ver.>
"Quero criar algo assim para que eu possa fazer algo bonito para mim, para guardar como lembrança, para quando tudo estiver embaçado", afirmou.>
Improvisos>
A própria construção é resultado de uma série de improvisos. Segundo Shayne, duas árvores pūriri que haviam caído servem de apoio para a casa. Bambus foram amarrados e cruzados para formar parte da estrutura, junto a vigas e uma peça de aço de aproximadamente três metros.>
A reportagem não aponta a existência de inspeção técnica ou certificação de segurança para a estrutura. Shayne, porém, demonstra orgulho do trabalho e resume o projeto com uma comparação bem-humorada: "É tipo um projeto do Grand Designs, só que com orçamento baixo.">
Preço do isolamento>
A escolha de viver naquele lugar aconteceu depois de outra experiência de moradia. Shayne já ocupou uma habitação social, mas decidiu sair após ter ferramentas roubadas. Ele também relatou dificuldades na convivência com outras pessoas. Na mata, diz encontrar uma sensação maior de segurança.>
"Estou mais seguro aqui e é melhor para mim", afirmou.>
O isolamento, contudo, tem um preço. O morador precisa subir e descer a encosta para transportar água e alimentos e também é responsável pela conservação da casa.>
Shayne sabe que a permanência no local pode não depender apenas de sua vontade. Ele acredita que as autoridades tenham conhecimento da existência da construção e admite que pode ser retirado dali. A possibilidade é motivo de preocupação para ele.>
"Eu ficaria triste porque coloquei muito empenho, suor e lágrimas nisso", declarou.>
História de vida atribulada>
A história de Shayne é marcada por outras dificuldades. Ele relatou ter trabalhado como pescador e conseguido juntar bastante dinheiro, mas posteriormente gastou os recursos. Também contou que começou a usar heroína aos 16 anos e que está há alguns anos sem consumir a droga.>
Os efeitos desse período chegaram à saúde bucal. Depois de cerca de duas décadas com problemas relacionados à falta de dentes, ele recebeu próteses pelo sistema de saúde. Segundo seu relato, a mudança melhorou sua autoestima e facilitou sua relação com outras pessoas.>
A família de Shayne vive relativamente perto, embora não conheça completamente as condições em que ele está morando. Quando o jornalista perguntou se gostaria de receber os parentes na casa, ele respondeu: "Eu adoraria isso".>
Entre bambu, madeira, lonas, peças reaproveitadas e objetos encontrados no descarte, Shayne construiu um espaço que tenta adaptar às próprias necessidades. A casa não segue os padrões de uma residência convencional, mas representa, para ele, a possibilidade de ter um lugar que possa chamar de seu.>