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Paciente com doença renal terminal passa 271 dias com rim de porco e volta a acampar e carregar peso

Paciente com doença renal terminal ficou nove meses sem precisar de diálise e, depois, recebeu um rim humano; pesquisa é considerada um marco no desenvolvimento do xenotransplante

  • Foto do(a) author(a) Perla Ribeiro
  • Perla Ribeiro

Publicado em 5 de setembro de 2026 às 12:18

Paciente com doença renal terminal passa 271 dias com rim de porco e volta a acampar e carregar peso
Paciente com doença renal terminal passa 271 dias com rim de porco e volta a acampar e carregar peso Crédito: Divulgação

Por 271 dias, um paciente com doença renal terminal conseguiu viver sem diálise graças a um rim de porco geneticamente modificado. O período é considerado um recorde para esse tipo de transplante e representa um dos avanços mais importantes na tentativa de usar órgãos de animais em seres humanos. As informações são do g1.

O procedimento foi realizado por uma equipe liderada pelo brasileiro Leonardo Riella, professor da Harvard Medical School. O caso mostra que um rim suíno pode permanecer em funcionamento por meses dentro do organismo humano e reacende a possibilidade de usar o xenotransplante como alternativa para pessoas que aguardam um órgão compatível. A expectativa de Riella é que a técnica possa se tornar uma opção para pacientes com insuficiência renal nos próximos cinco anos, inicialmente como uma espécie de ponte até o transplante de um rim humano.

Tim Andrews, 66 anos, recebeu o rim de porco em janeiro de 2025. Antes da cirurgia, ele enfrentava uma rotina marcada por sessões frequentes de diálise e havia ficado tão debilitado pela doença que passou a usar cadeira de rodas. A mudança veio pouco tempo depois do transplante. Segundo Riella, o paciente conseguiu retomar atividades que já não faziam parte de sua rotina, como acampar, cortar madeira e carregar peso. Ele também deixou de precisar da diálise e voltou a ter menos restrições no dia a dia.

O resultado chamou atenção porque, até então, nenhum paciente havia conseguido permanecer tanto tempo com um rim de origem animal. Antes de Tim, outro paciente da equipe havia passado pelo procedimento em 2024, mas sobreviveu por 52 dias. Segundo Riella, a morte ocorreu por problemas cardíacos sem relação com o transplante.

Por que o rim de porco precisou ser retirado?

Apesar do resultado histórico, o transplante não foi permanente. Tim desenvolveu uma infecção bacteriana, o que obrigou os médicos a reduzir os medicamentos imunossupressores utilizados para evitar que o organismo rejeite o órgão. Com a diminuição da imunossupressão, o sistema imunológico passou a atacar o rim suíno.

O episódio, porém, também permitiu que os pesquisadores observassem durante meses como o órgão animal se comportava dentro do corpo humano. O paciente recebeu um rim humano 82 dias depois, que continuava funcionando sem sinais de rejeição. Para Riella, o caso mostrou que o xenotransplante pode representar uma alternativa para evitar que pacientes permaneçam durante longos períodos submetidos à diálise enquanto aguardam um doador.

O que foi modificado no rim de porco?

O órgão utilizado no procedimento não veio de um porco comum. O animal passou por um processo de edição genética desenvolvido especificamente para reduzir os principais obstáculos ao transplante entre espécies. Uma das maiores dificuldades é a chamada rejeição hiperaguda, uma reação extremamente rápida do sistema imunológico humano contra o tecido suíno.

Para diminuir esse risco, os pesquisadores eliminaram genes responsáveis pela produção de determinadas moléculas presentes na superfície das células dos porcos e reconhecidas pelo organismo humano como estranhas. Outra preocupação eram os chamados retrovírus endógenos suínos, fragmentos de vírus presentes naturalmente no DNA dos animais. A equipe desativou esses elementos para reduzir o risco de que pudessem provocar uma infecção no paciente.

Além disso, sete genes humanos foram inseridos no material genético do porco. A estratégia é tornar o órgão mais compatível com o organismo humano e dificultar a ação do sistema imunológico contra ele. Foram cerca de cinco anos de pesquisas e diferentes etapas de edição genética até chegar à configuração utilizada no procedimento.

Por que isso é tão importante para os transplantes?

O principal objetivo do xenotransplante é enfrentar um dos maiores problemas da medicina de transplantes: a falta de órgãos disponíveis. O rim está entre os órgãos mais transplantados porque um único doador falecido pode beneficiar dois pacientes, além da possibilidade de doação em vida. Mesmo assim, milhares de pessoas continuam esperando por um órgão compatível.

Nesse cenário, pesquisadores estudam diferentes alternativas, incluindo órgãos artificiais e órgãos provenientes de animais geneticamente modificados. Para Riella, o xenotransplante está mais próximo de se tornar uma realidade porque parte de um órgão que já possui as características necessárias para desempenhar sua função. No caso do rim, isso significa regular água e minerais e realizar outras funções essenciais que seriam difíceis de reproduzir artificialmente.

O pesquisador estima que um órgão artificial completamente funcional ainda exigiria cerca de duas décadas de desenvolvimento, enquanto o xenotransplante pode avançar mais rapidamente. O principal desafio continua sendo o controle da resposta imunológica. Mesmo com as modificações genéticas, o organismo humano ainda pode reconhecer o órgão suíno como estranho. Por isso, os pacientes precisam utilizar medicamentos imunossupressores, e os pesquisadores tentam descobrir como ajustar essas doses ao longo do tempo sem comprometer o funcionamento do órgão.

A experiência de 271 dias ajudou justamente nesse processo. Para Riella, acompanhar por tanto tempo a relação entre o rim suíno e o sistema imunológico forneceu informações que não estavam disponíveis nos primeiros experimentos. Ainda serão necessários novos testes clínicos para determinar quais pacientes podem se beneficiar da técnica, quais combinações de medicamentos são mais seguras e por quanto tempo um órgão animal poderá funcionar no corpo humano.

Brasil também pesquisa xenotransplante

A pesquisa não está restrita aos Estados Unidos. No Brasil, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) também trabalham no desenvolvimento de animais geneticamente modificados para futuros transplantes. Em abril, pesquisadores da instituição anunciaram o nascimento do primeiro porco clonado no país dentro de um projeto ligado ao Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante.

A estratégia brasileira também envolve a edição genética de porcos para reduzir a rejeição dos órgãos. Os pesquisadores identificaram genes suínos relacionados ao processo de rejeição e trabalham ainda com a inserção de genes humanos para aumentar a compatibilidade.

O avanço internacional e os estudos brasileiros apontam para uma possibilidade que, até pouco tempo atrás, parecia distante: usar órgãos de animais para reduzir a dependência de doadores humanos e dar uma nova alternativa a pacientes que hoje passam meses ou anos esperando por um transplante.