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Carol Neves
Publicado em 11 de setembro de 2026 às 08:21
Vinte e cinco anos depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, algumas das imagens mais conhecidas daquele dia continuam sendo usadas para alimentar teorias da conspiração. O colapso das Torres Gêmeas, a queda de um terceiro prédio em Nova York, o ataque ao Pentágono e até movimentações no mercado financeiro deram origem a versões alternativas que sobreviveram às investigações realizadas nas décadas seguintes. >
Os ataques foram executados por 19 integrantes da Al-Qaeda, que sequestraram quatro aviões comerciais. Dois foram lançados contra as torres do World Trade Center, em Nova York, enquanto um terceiro atingiu o Pentágono, na região de Washington. O quarto, o voo 93 da United Airlines, caiu na Pensilvânia após passageiros e tripulantes reagirem aos sequestradores. Quase 3 mil pessoas morreram.>
A Comissão do 11 de Setembro concluiu que os integrantes da Al-Qaeda haviam considerado diferentes alvos em Washington, entre eles a Casa Branca e o Capitólio. As informações reunidas pela investigação indicam que, pouco antes dos ataques, a Casa Branca provavelmente permanecia como alvo principal do quarto avião, enquanto o Capitólio aparecia como alternativa.>
Relembre o 11 de Setembro
O tamanho da tragédia e a dificuldade inicial para compreender como uma operação daquela dimensão conseguiu ser executada em território americano ajudaram a criar terreno para versões que atribuíam os atentados ao próprio governo dos Estados Unidos ou sustentavam que autoridades sabiam antecipadamente o que ocorreria.>
Entre as teorias mais difundidas está a de que as Torres Gêmeas não teriam desabado apenas em consequência dos impactos dos aviões e dos incêndios, mas teriam sido derrubadas por explosivos previamente instalados. Vídeos que mostram jatos de fumaça e poeira saindo de andares inferiores durante o colapso costumam ser apresentados como uma das supostas evidências dessa versão.>
A investigação do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST), porém, chegou a outra conclusão. Após analisar documentos, milhares de fotografias e vídeos, componentes estruturais e depoimentos, o órgão determinou que os impactos provocaram graves danos aos edifícios e removeram parte da proteção térmica das estruturas de aço. Os incêndios que se seguiram enfraqueceram elementos estruturais até que o colapso começou nas regiões atingidas e avançou para baixo. O NIST não encontrou evidências que corroborassem o uso de explosivos.>
Os jatos de fumaça também receberam uma explicação técnica. Conforme os pavimentos superiores caíam, o ar dentro dos prédios era comprimido e expelido pelas janelas e por outras aberturas dos andares inferiores, carregando fumaça e detritos.>
Outro edifício se tornou peça central dessas teorias: o World Trade Center 7. O prédio de 47 andares não foi atingido por um avião, mas desabou no fim da tarde de 11 de setembro. Por causa da aparência do colapso e do fato de ele ter ocorrido horas depois das Torres Gêmeas, surgiram alegações de que o imóvel também teria sido demolido de maneira controlada.>
A investigação do NIST atribuiu a queda do WTC 7 aos incêndios que permaneceram sem controle durante horas e provocaram uma sequência de falhas estruturais. O prédio havia sido atingido por destroços após o colapso da Torre Norte e queimou por quase sete horas antes de cair, às 17h20. A hipótese de uma explosão também foi analisada, mas não foram encontradas evidências de uma demolição controlada.>
“Trabalho interno”: governo americano teria participado dos ataques?>
Uma das teorias da conspiração mais abrangentes sobre o 11 de Setembro ficou conhecida pela expressão “inside job”, ou “trabalho interno”. Em diferentes versões, a narrativa atribui algum grau de participação ao próprio governo dos Estados Unidos nos atentados executados pela Al-Qaeda.>
Há duas linhas principais dessa teoria. A mais extrema sustenta que integrantes do governo teriam participado do planejamento ou da execução dos ataques, que funcionariam como uma operação de “bandeira falsa”. É nesse conjunto que costumam aparecer alegações de que explosivos teriam sido instalados previamente nas Torres Gêmeas e no World Trade Center 7 ou de que o Pentágono teria sido atingido por um míssil.>
Outra versão admite que a Al-Qaeda organizou e executou os ataques, mas afirma que autoridades americanas teriam recebido informações suficientes para saber antecipadamente o que ocorreria e decidiram não impedir a ação. As falhas de inteligência registradas antes do 11 de Setembro são frequentemente utilizadas para sustentar essa interpretação.>
As investigações encontraram problemas reais na atuação e na comunicação entre órgãos americanos antes dos atentados, mas não apresentaram evidências de que autoridades tenham planejado os ataques ou deliberadamente permitido sua realização. Da mesma forma, as investigações técnicas sobre os edifícios não encontraram evidências que sustentassem a hipótese de demolição controlada.>
Assim, falhas de inteligência documentadas não comprovam a conclusão central da teoria do “trabalho interno”: a de que o governo americano teria participado da operação ou deixado conscientemente que ela acontecesse.>
Teoria diz que Pentágono teria sido atingido por míssil>
O ataque ao Pentágono também produziu uma das versões alternativas mais conhecidas. A teoria sustenta que o prédio não teria sido atingido pelo voo 77 da American Airlines, mas por um míssil ou outro artefato militar.>
As investigações identificaram, no entanto, o voo 77 e os cinco sequestradores que estavam a bordo. Registros do FBI apontam que a aeronave sequestrada atingiu o Pentágono e atravessou parte da estrutura. O órgão também identificou os passageiros e integrantes da Al-Qaeda que embarcaram naquele voo.>
Versões semelhantes passaram a circular sobre o voo 93. Uma delas afirma que o avião teria sido abatido pelas Forças Armadas americanas e que a reação dos passageiros teria sido criada posteriormente para esconder a ação militar.>
A reconstrução feita pela Comissão do 11 de Setembro, baseada em registros de voo, comunicações, dados de radar e ligações feitas por pessoas a bordo, descreveu a reação dos passageiros depois que eles souberam dos outros ataques. A aeronave caiu na Pensilvânia durante a tentativa de retomada do controle do avião.>
Movimentações na Bolsa também viraram alvo de suspeitas>
Outra teoria ganhou força a partir de operações financeiras realizadas nos dias anteriores aos ataques. O aumento na negociação de opções que poderiam gerar lucro com a queda das ações de companhias aéreas foi interpretado como sinal de que investidores teriam recebido informações antecipadas sobre o plano.>
As operações chegaram a ser investigadas pelas autoridades americanas. A Comissão do 11 de Setembro registrou que transações aparentemente suspeitas foram examinadas pela SEC, pelo FBI e por outros órgãos. A apuração analisou milhões de negócios e concluiu que as movimentações investigadas tinham explicações sem relação com os atentados, sem encontrar evidências de operações ilícitas baseadas em conhecimento prévio dos ataques.>
Uma das situações mais citadas envolveu opções da United Airlines. Segundo a investigação, 95% das opções consideradas suspeitas naquele episódio haviam sido adquiridas por um investidor institucional americano sem ligação identificada com a Al-Qaeda e faziam parte de uma estratégia que incluía outras operações no mercado.>
Boato dizia que milhares de judeus não foram trabalhar>
As teorias também assumiram caráter antissemita. Pouco depois dos atentados, começou a circular a alegação de que 4 mil judeus que trabalhavam no World Trade Center teriam sido avisados previamente e, por isso, não compareceram ao trabalho naquela manhã. Outras versões passaram a responsabilizar Israel ou judeus pela organização dos ataques.>
Não há evidência que sustente essas alegações. Judeus estavam entre as vítimas do World Trade Center, assim como pessoas de diferentes religiões e nacionalidades. O boato dos “4 mil judeus” tornou-se uma das narrativas antissemitas mais persistentes associadas ao 11 de Setembro.>
Ao longo dos anos, essas versões encontraram na internet um ambiente favorável para continuar circulando. Fóruns e páginas dedicadas ao assunto deram lugar a redes sociais e aplicativos de mensagens capazes de fazer vídeos, montagens e interpretações enganosas alcançarem milhões de pessoas.>
As teorias costumam combinar fatos verdadeiros, dúvidas legítimas e informações falsas ou sem comprovação. No caso do 11 de Setembro, falhas reais de inteligência e de comunicação entre autoridades americanas também contribuíram para alimentar desconfianças. A própria Comissão identificou problemas na troca de informações e na coordenação entre órgãos durante os sequestros, mas isso não equivale a evidência de que o governo tenha organizado ou permitido deliberadamente os ataques.>
Mesmo 25 anos depois, o volume de registros, investigações e documentos produzidos sobre os atentados não encerrou a circulação das versões conspiratórias. >
Como identificar e checar uma teoria da conspiração?>
Diante de conteúdos sobre o 11 de Setembro que apresentam versões diferentes das conclusões das investigações, alguns cuidados ajudam a separar questionamentos legítimos de alegações sem evidências. O primeiro é observar a origem da informação. Vídeos recortados, publicações sem autoria, imagens fora de contexto e afirmações que não indicam documentos ou fontes verificáveis devem ser tratados com cautela.>
Também é importante procurar a mesma informação em fontes independentes e consultar documentos produzidos pelas investigações. No caso dos atentados, estão disponíveis publicamente relatórios da Comissão do 11 de Setembro, do FBI e do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST), além de estudos acadêmicos sobre aspectos dos ataques.>
Outro sinal de alerta aparece quando uma teoria transforma a ausência de provas em prova da própria conspiração. Argumentos como “não existem evidências porque elas foram escondidas” criam uma lógica difícil de verificar: qualquer informação contrária passa a ser apresentada como parte do suposto encobrimento.>
Imagens e vídeos também exigem contexto. Uma gravação verdadeira não necessariamente comprova a interpretação apresentada por quem a compartilha. É preciso verificar quando e onde o registro foi feito, procurar a versão completa e conferir se especialistas ou investigações técnicas já analisaram aquilo que aparece nas imagens.>
A cautela deve ser ainda maior diante de conteúdos que atribuem coletivamente a responsabilidade por uma tragédia a grupos religiosos, étnicos ou outras minorias sem apresentar evidências. No 11 de Setembro, algumas narrativas antissemitas se aproveitaram justamente de dúvidas e informações falsas para responsabilizar judeus pelos ataques.>
Por fim, desconfiar de uma versão oficial não torna automaticamente verdadeira uma explicação alternativa. Questionamentos podem ser legítimos, mas uma hipótese precisa ser sustentada por evidências verificáveis para deixar de ser apenas uma alegação. Comparar fontes, buscar documentos originais e verificar o contexto das informações são formas de evitar que dúvidas reais sejam preenchidas por conclusões sem comprovação.>