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Viver sem visto na Europa pode custar até três vezes mais em dois anos; entenda onde o dinheiro vai embora

Informalidade pode reduzir salários, encarecer a moradia e dificultar o acesso a serviços e ao crédito, segundo levantamento voltado ao mercado europeu

Publicado em 3 de setembro de 2026 às 05:30

Portugal vai notificar mais de 4.500 estrangeiros para que deixem o país
Portugal vai notificar mais de 4.500 estrangeiros para que deixem o país Crédito: Shutterstock

A tentativa de economizar tempo e dinheiro ao chegar à Europa sem o visto adequado pode produzir o efeito contrário. Segundo um levantamento econômico sobre o mercado europeu, viver em situação irregular pode custar até três vezes mais, ao longo de dois anos, do que o investimento necessário para entrar legalmente no país com o visto apropriado.

A diferença aparece em várias etapas da vida do imigrante: no acesso ao trabalho formal, na contratação de moradia, na possibilidade de utilizar serviços e até na construção de um histórico financeiro que permita, no futuro, financiar um imóvel. A situação é especialmente relevante para quem chega ao continente em busca de trabalho ou de uma mudança definitiva e acaba recorrendo à informalidade enquanto tenta regularizar a permanência.

Izabel Rodrigues (à esquerda), que faz doutorado em História na Universidade Federal de Juiz de Fora, foi aprovada para o doutorado sanduíche na Universidade Politécnica em Valência por Acervo pessoal

Salário pode ficar abaixo do mercado

Um dos primeiros impactos aparece no trabalho. Sem a documentação necessária para residir e trabalhar legalmente — como a Tarjeta de Identidad de Extranjero (TIE), no caso da Espanha — o imigrante pode ficar limitado a atividades informais. Segundo as estimativas apresentadas no levantamento, trabalhadores sem documentação podem receber entre 30% e 50% menos do que o salário mínimo legal para a mesma jornada.

Em dois anos, essa diferença representaria uma perda acumulada de renda estimada entre € 10 mil e € 14 mil. A conta, portanto, pode superar em muito os custos relacionados ao processo de entrada regular no país.

Aluguel também fica mais caro

A moradia é outro ponto em que a falta de documentação pode pesar no bolso. Sem contracheques formais ou garantias exigidas pelas instituições financeiras, o imigrante pode ter dificuldade para conseguir um contrato regular de aluguel. Com isso, aumenta a dependência de quartos ou imóveis sublocados de maneira informal.

De acordo com o levantamento, nessas situações podem ocorrer cobranças de cauções sem recibo e valores de aluguel até 40% superiores aos praticados no mercado regular. Além do preço mais alto, a falta de um contrato formal também reduz a proteção jurídica do inquilino em situações de conflito com o proprietário.

Permanência irregular também pode gerar multa

A irregularidade migratória ainda envolve o risco de sanções administrativas. Na Espanha, por exemplo, a Lei Orgânica 4/2000 sobre direitos e liberdades dos estrangeiros prevê multas de € 501 a € 10 mil para determinadas situações de permanência irregular, conforme o enquadramento da infração.

O levantamento também aponta que proprietários e empregadores podem estar sujeitos a penalidades em situações previstas pela legislação quando facilitam determinadas formas de contratação ou hospedagem irregular. Ou seja, além dos prejuízos que aparecem no salário e na moradia, existe o risco de custos inesperados decorrentes da própria situação migratória.

Irregularidade pode atrasar planos de comprar uma casa

O impacto não fica restrito às despesas do dia a dia. A falta de residência legal continuada também pode dificultar a construção de um histórico financeiro necessário para quem pretende, no futuro, obter crédito para comprar um imóvel.

Instituições financeiras costumam exigir comprovação de renda e documentação de residência, além de outros critérios que variam de acordo com o país e o banco. Na prática, passar anos trabalhando e vivendo de maneira informal pode significar adiar a construção de um histórico financeiro e migratório necessário para projetos de longo prazo, como um financiamento imobiliário.

“Muitas pessoas chegam até nós após gastarem rios de dinheiro tentando contornar problemas que poderiam ter sido evitados com um visto adequado obtido no país de origem”, afirma Camila Bruckschen, diretora-geral da CB Asesoría. Segundo ela, multas, problemas com aluguel e salários inferiores podem fazer com que a tentativa de evitar os custos iniciais de regularização se transforme em um prejuízo maior.

“Viver 'apagando incêndios', pagando multas, perdendo depósitos de aluguel por falta de contrato legal e aceitando salários abaixo do mercado, custa infinitamente mais caro do que planejar a entrada pela porta da frente. A burocracia do visto não é um gasto; é uma proteção ao capital e ao futuro da família”, pontua.

Vistos ampliam opções para quem quer morar na Europa

O levantamento também destaca mudanças recentes nas possibilidades de entrada e permanência em países europeus. Entre as modalidades disponíveis em determinados países estão vistos para nômades digitais, residência não lucrativa e permissões de trabalho para estudantes, cada uma com requisitos próprios.

A escolha depende do perfil do interessado, da fonte de renda, do objetivo da mudança e das regras do país escolhido. Para Camila, o planejamento antecipado pode evitar que o imigrante chegue ao destino sem saber quais direitos terá ou como poderá trabalhar e morar legalmente. “O papel da assessoria especializada não é apenas preencher formulários, mas desenhar uma estratégia jurídica personalizada que blinde o patrimônio do cliente”, afirma.

Ela acrescenta que a entrada regular pode facilitar o acesso ao mercado de trabalho formal, ao sistema financeiro e a serviços públicos, além de permitir que o tempo de residência seja considerado conforme as regras aplicáveis para futuras etapas da vida migratória. É importante, porém, avaliar cada país individualmente: regras de visto, trabalho, residência, multas, acesso a serviços e requisitos para financiamento variam entre os países europeus e podem mudar conforme a legislação local.