2018, o ano das lafúrias no Carnaval de Salvador

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11.02.2018, 07:00:00
Atualizado: 13.07.2018, 16:30:52

2018, o ano das lafúrias no Carnaval de Salvador

Solteiras, festeiras e donas de si, elas causam na avenida

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Foto: Reprodução/Arquivo CORREIO

Previsão certeira: quando o Carnaval de 2018 for lembrado, no futuro, uma injustiça será cometida. Vão dizer que foi o ano que não teve Ivete, ou o ano que ela teve as gêmeas. Vão ignorar, anote aí, que foi o ano de ouro das LaFúrias.

Na verdade, elas sempre estiveram por aí, por ali, por além. Quer prova? Bruno Magnata, vocalista da banda La Fúria, grande sensação do Carnaval do ano passado, explica o que é uma lafúria.

“É aquela menina que é solteira, que quer curtir a vida, que vai pra todas as festas, não quer namorado, só quer viver a vida, dona de si”, disse ele, em entrevista à lafúria Milena Teixeira, estagiária do CORREIO.

Mostrei essa descrição pra algumas moças no meio da folia. “Sou eu!” ou “então eu sou uma lafúria” foram alguns dos comentários mais comuns, em seguida. Mas pra não deixar o jogo correr solto, alerto: uma lafúria costuma saber que é uma lafúria. Pode até descobrir os poderes depois, como um Jedi desavisado, mas não deixa de seguir os preceitos do lado pagodeiro da força.

Compliquei a situação e perguntei pra algumas: “então, no Carnaval, você faz mais o tipo santinha (menção ao Gigante), malandra (à grandona Anitta), piriguete (em desuso, né?) ou lafúria? Só as lafúrias, de fato, não cederam ao malandra, segunda mais votada na enquete improvisada. E foi com as lafúrias que estendi a conversa. “Mas afinal, que zorra faz de diferente uma lafúria?”

“A lafúria não tem frescura. Pra onde chama, ela vai. E deixa o cara doido”, definiu a estudante Emilly Souza, 18 anos, que junto com seu bonde aguardava a passagem de Igor Kannário, na Barra, com uma energia que não permitia responder a uma terceira pergunta.

As amigas Patrícia e Carla, ambas de sobrenome Souza, como Emilly, mas que não conhecem ela, também concordam que com a lafúria não tem tempo ruim. No entanto, elas não são de aceitar qualquer porcaria, especialmente no quesito peguete.

“A gente não come reggae de homem. Se ficar muito de cheiro mole, manda logo vazar ou pega outro na frente dele, pra estarrar”, avisa Patrícia, 23 anos, que enquanto estuda para ser enfermeira curte o Carnaval confiando num corselet [minha irmã explicou, após descrição atrapalhada] vermelho para modelar sua fartura. 

Magrelinha, com menos a mostrar, a não ser um passo de dança mais elaborado, Carlinha arriscou apenas em um adereço: um frufru [valeu de novo, Gabi!] preto na perna direita.

Para ela, a lafúria é “aquela menina que bota o cara no bolso e curte”. Mas tem uma forma de vestir, pergunto. “Se veste assim, simples. Não precisa se produzir muito”.

Enfim, eis mais uns predicados: lafúria bota pra lenhar em cima de homem sem precisar investir muito no visu.

A autônoma Rosilene Oliveira, 33, se define como uma lafúria, mas também como outras coisas:

“Rapaz, eu sou lafúria, sou piriguete, sou malandra, sou a porra toda. Já me chamaram até de foveira, e eu num liguei, porque devo ser também. Se me chamar, eu vou”. Oêêê!

Mas vamos voltar às lafúrias puro-sangue. Vanessa ‘A Boa’ [se autointitulou e não quis dizer idade, atividade ou sobrenome] conta, sem parar de dançar um pagofunk que não dá pra entender a letra, que a lafúria é “a mulher que vai de ônibus”. Foi a descrição mais inusitada, até a chegada da amiga dela, que ela chama de aprendiz. “Fale com ele aí, vá. Ele quer saber o que é uma lafúria”, coordenou.

“Eu não sou lafúria, mas eu acho que é uma mulher difícil de segurar, que não tá nem aí pra nada”, opinou, em voz baixa, a desempregada Cleide Carvalho, 24.

Com um pouco mais de insistência nas perguntas, Cleide, que faz o tipo santinha, se solta e estende o conceito. “Pra mim, é a mulher que faz (sexo) bem feito. Que deixa o boy querendo mais, e depois cai fora”, arrisca, ante os exemplos que diz ter das amigas. No final da conversa, no entanto, tenta me demover da missão de definir uma lafúria: “são tudo é piriguete mesmo”. 

O ator Alan Miranda entrou de gaiato na história e arriscou um chute, diante da descrição do Magnata: “(a lafúria é) uma versão feminista para o termo piriguete.”

É, talvez uma evolução da espécie. Mas não vamos cair na armadilha de rotular, que isso é feio. E muito menos cair na tentação de acabar com três homens chegando à conclusão do que é, enfim, uma lafúria. Com a palavra, a educadora sexual Cris Arcuri.

“Vivemos numa sociedade cheia de rótulos, mas através do empoderamento feminino as mulheres estão deixando alguns rótulos caírem e serem felizes com seus corpos e a forma de viver”, opinou ela, ao ser apresentada ao neologismo.

Mas quais lições uma lafúria pode ensinar para outras mulheres que não se permitem viver a vida de forma mais intensa? “As pessoas precisam parar de rotular uns aos outros e viver a vida da melhor maneira que lhe convir. O empoderamento feminino abriu um caminho para que as mulheres, que sempre foram rotuladas e oprimidas, a se entenderem e correrem atrás do que querem. Viver a vida de forma intensa, sempre com atenção ao uso excessivo de álcool, e do preservativo, pode ser um bom exemplo de autoestima e amor próprio”, argumenta e indica Cris. Certeira. Bom assim que nem me dou ao trabalho de investigar o que diacho é uma foveira.

*João Gabriel Galdea é co-editor de Cidade e Polícia do CORREIO.

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