À beira de um Mississipi qualquer

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19.12.2017, 11:32:50
Atualizado: 19.12.2017, 11:42:24

À beira de um Mississipi qualquer

Oscar Paris é jornalista

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Mesmo quando não se trata de notícia o Jornalista tem mania, vicio pra ser sincero, de tentar transpor para o papel todo e qualquer tipo de sentimento, seja arrebatamento, surpresa, choque, tristeza ou o que for. O papel, quero dizer, os teclados do computador, são para nós como um divã. Repousando os dedos sobre ele, abrimos coração e mente, numa alquimia frenética embalada em altas doses de emoção e razão.

Pois sentar à frente do computador e tentar dizer algo realmente significativo sobre Álvaro Assmar é sim uma forma de terapia na difícil tentativa de digerir a notícia de sua passagem. Jovem e cheio de planos, surpreendeu colegas, amigos, admiradores e mais profundamente ainda, aos seus familiares. Partiu cedo demais. Mesmo assim, deixou uma história gigantesca. 

Álvaro Assmar foi meu vizinho no Canela, onde nasceu meu filho e onde o filho dele, Eric, aprendeu os primeiros acordes. Também foi meu colega no Irdeb. Eu na TVE e ele na Rádio Educadora Blues. Naquela época o cigarro ainda era nosso companheiro inseparável e não foram raras as vezes em que jogamos conversa fora nos fumódromos da vida, sempre discorrendo sobre futebol e blues, modéstia à parte, nossas especialidades. Cada um na sua, claro.

Mais que um guitarrista virtuose, Assmar era um bluesman de raiz. Nato, típico, original. O maior da Bahia. O primeiro na terra de João Gilberto e Dorival Caymmi. Um mestre quando o assunto era a paixão maior de Eric Clapton e B.B. King. Por tudo isso, Álvaro era um valente, um forte, um gladiador. Não sei, mas imagino, que não deve ser nada fácil fazer do blues um modo de vida, um trabalho capaz de sustentar a família, em pleno terreiro do axé.

Conquistar o respeito de artistas tantos e a admiração de incontáveis fãs não deve ter sido tarefa simples. Imagino quantas montanhas este artista teve que ultrapassar até virar referência e ser reverenciado como o mestre baiano do blues. Difícil mensurar. Assim como é difícil dimensionar o mérito por ter superado tudo com sua arte, com seu som, com sua Gibson virada na zorra.

Mais do que música, ele injetava adrenalina e levava a plateia ao clímax ao extrair de sua guitarra a melancolia turbinada do autêntico blues, sua maior e mais poderosa arma. Com ela embaixo do braço nunca precisou pedir para ninguém “levantar as mãos” ou “tirar os pés do chão” os gritos de ordem mais ouvidas de 10 entre 10 shows realizados na São Salvador da Bahia. 

Álvaro Assmar vá em paz e esteja certo que os seus maiores ídolos, aqueles que te inspiraram ainda menino, estão à sua espera, quem sabe a beira de um Mississipi qualquer, para uma jam session digna de uma grande recepção. Por aqui, ficamos nós com o teu blues. Uma maneira singela e razoavelmente leve de dialogar com a saudade. Valeu brother.

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