A comunidade trans se vê presente nas artes e na cultura?

entretenimento
28.01.2022, 06:00:00
Coletânea textos de três autoras trans: Amora Moira, Kika Senna e abigail Campos Leal. Luh Maza é roteirista da HBO Max e Globoplay (1)reprodução; 2)@jadnalima)

A comunidade trans se vê presente nas artes e na cultura?

Dia da Visibilidade Trans é celebrado neste sábado. Artistas falam sobre importância da presença trans na mídia

Liniker é cantora; Luh Maza é roteirista de TV; Amara Moira é escritora. Artistas trans, elas encontraram seu espaço, mas a busca por esta visibilidade na arte ainda está no início. "É urgente que pessoas trans sejam incorporadas nas produções artísticas, e não só na arte de nicho, mas no mainstream mesmo", diz Milena Britto, que organizou a coletânea Abrindo a Boca, Mostrando Línguas, da editora Boto Cor-de-Rosa. O livro reúne textos de 16 escritoras LGBTQIA+, incluindo três autoras trans.

O Dia da Visibilidade Trans, celebrado neste sábado (29), desperta questionamentos: as pessoas trans se veem representadas na arte? Qual a importância dessa representividade? A roteirista Luh Maza, que é mulher transgênero, defende a presença trans na cultura: "Quanto mais a audiência estiver familiarizada com nossa presença, mais fácil será as pessoas respeitarem as pessoas trans que as cercam". 

Ela acrescenta que homens e mulheres trans, travestis e não-bináries protagonizem histórias de ficção:

"Quando lhes atribuímos histórias poderosas de amor, de relacionamentos interperssoais, de vida profissional, estamos alimentando o imaginário cultural destas pessoas integradas à realidade de toda sociedade".

A cineasta baiana Ceci Alves realizou, há dez anos, o curta-metragem Da Alegria, do Mar e de Outras Coisas, que foi inspirado num assassinato de uma mulher trans, cometido por policiais. "O que ativou esta minha militância de gênero foi o choque que me causa ver essas populações serem apagadas, violentadas. E isso ocorre apenas porque elas propõem existências diferentes daquilo que é considerado normativo", revela Ceci.

A diretora diz que, depois de dez anos daquela produção, "há um movimento robusto da população trans e travesti como ator ou roteirista". "Representatividade importa demais. Isso é empoderador porque essa população sempre foi tratada como anomalia, como um 'falso ao corpo', como diziam os mais velhos", afirma Ceci.

Ela ressalta, no entanto, que não é a reserva de cotas o motivo para pessoas trans ocuparem a arte:

"Essas pessoas estão lá porque têm competência e qualidade. E ocupam esse espaço não para falar só deles, mas estão ali para falar de qualquer assunto". 

Luh Maza diz que o espaço para pessoas trans na arte está mais democrático que quando ela começou: "Quando comecei a fazer teatro [há 22 anos], não tínhamos praticamente nenhuma referência de profissionais integrados ao mercado teatral ou audiovisual. Sem dúvida, hoje podemos enumerar muitas travestis e alguns transmasculines que vêm ganhando relevância pública". Maza é roteirista-chefe de uma série e diretora de outra, ambas em desenvolvimento para a HBOmax.

Milena Britto defende que a arte permite a construção de subjetividade, trocas e vivências: "Isso é necessário para sonhar, viver, pertencer. Esta representatividade não é apenas política; é sobretudo humana, pois todo ser humano precisa de trocas, de espelhos, de referências".

Neste sábado (29), a partir das 7h30, o Canal Brasil veicula neste sábado uma programação especial, dedicada à visibilidade trans, durante 24h. Alexandre Cunha, diretor de programação e aquisição do canal, diz que o critério principal da curadoria é respeitar o olhar de quem tem lugar de fala: "Procuramos evitar selecionar uma produção protagonizada por um ou uma “transfake” (ator ou atriz cis fazendo um papel trans). Desta maneira, os curtas, médias e longas são essencialmente dirigidos, produzidos ou protagonizados por pessoas trans".

Segundo o diretor, a veiculação de obras protagonizadas ou realizadas por pessoas trans é uma demanda do público: "Não há o menor sentido em excluir determinados grupos, seja por ideologia ou qualquer outra questão subjetiva. Enfim, a questão comercial, hoje em dia, anda de mãos dadas com a inclusão, com a tolerância e com o posicionamento ético". 

Entre os destaques do Canal Brasil neste sábado, está o documentário Divinas Divas, dirigido por Leandra Leal, que será exibido às 10h10. O filme é um retrato de integrantes da primeira geração de artistas travestis do Brasil, como Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria e Camille K. Às 12h10, vai ao ar Transmissão, programa apresentado pela dupla Linn da Quebrada - no atual BBB, ela se identifica como travesti - e Jup do Bairro, mulher trans.

Uma produção baiana, Cores e Flores Para Tita, será exibida às 13h50. O documentário apresenta a fotógrafa Andréa Magnoni, que fala sobre seu tio Renato "Tita”, homem trans morto em 1973. A direção é de Susan Kalik.
 

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