'A escola não é só o lugar para aprender o bê-á-bá', diz doutora em Educação

salvador
08.03.2021, 22:22:00
Atualizado: 10.03.2021, 20:02:39
(Foto: Reprodução)

'A escola não é só o lugar para aprender o bê-á-bá', diz doutora em Educação

Ka Menezes, primeira convidada do QuantA ao Vivo: a palavra é dela, falou sobre transformações na educação

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

A escola que conhecemos ainda existe? Foi para responder essa pergunta que a colunista do CORREIO Flavia Azevedo recebeu a pedagoga e professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Ka Menezes, na primeira transmissão do QuantA ao Vivo: a palavra é dela, que aconteceu nesta segunda-feira (8), Dia Internacional da Mulher.

“Essa pergunta me motiva a pensar na escola antes disso ainda. Porque a escola é uma das instituições mais presentes. Até quem não passou por ela tem um imaginário da escola, porque a escola em nosso país é uma obrigação. E por ser uma obrigação ela também é um direito que foi conquistado. E a escola é um direito de todos em qualquer idade”, avaliou Ka Menezes, que é doutora em Educação pela Faculdade de Educação da Ufba. A pedagoga também integra grupos de pesquisas nas áreas de infância, tecnologias e linguagens e o Raul Hacker Club de Salvador Bahia. Ela foi vencedora do Prêmio Capes de Tese 2019 na área de Educação, é defensora do Software Livre, idealizadora do Crianças Hackers e mãe de Ian.

“A escola não é só o lugar onde a criança vai aprender o bê-á-bá, é um lugar também onde a criança vai socializar. [...] A escola que eu tenho em mente é aquela escola que meu pai e minha mãe tinham, de um lugar que eu iria pra poder ter um futuro melhor, e isso não mudou”, falou.

Questionada pela colunista Flavia Azevedo sobre a escola a necessidade de uma nova escola que dê conta das demandas contemporâneas, Ka Menezes falou sobre o desejo pelo novo. “A gente precisa de uma nova escola, porque a gente tem um certo desejo do novo, como se fosse uma resposta do que e gente tá vivendo. A gente precisa de uma escola que a gente ainda não teve, uma ideia de autonomia que a gente ainda não teve, e que tá na LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional] de 2016. E isso não aconteceu. A gente infelizmente tem um sistema escolar que é muito hierarquizado”, contou.

Sobre a possibilidade de extinção dos professores com a evolução da tecnologia nas salas de aula, a pedagoga foi enfática: “essa ameaça aos professores é antiga”. “Na década de 60, um psicólogo inventou a máquina de ensinar, ele pensou em uma ajuda para professoras que tinham muitas crianças, então era pra ajudar a professora a preparar o conteúdo para cada criança. Só que quando essas invenções vão sendo trazidas para a nossa rotina, elas são pensadas para substituir o professor. Vamos trazer uma máquina pra colocar no lugar deles. Muitos programas focados em trazer tecnologia pra escola, ao invés de focar em ajudar o professor, estavam voltados em substituir ele. Então, esse risco de extinção sempre ocorreu. E hoje é mais complicado, porque é uma das profissões que mais sofrem ataque, e que são mais desvalorizadas”, disse. 

Para Flavia, isso reflete a ideia de educação que existe na sociedade.

“Isso reflete o que a gente pensa por educar. Porque se educar for passar uma coisa engessada, de forma vertical, sem se preocupar com o interlocutor, realmente qualquer plataforma pode fazer”, ponderou. 

Ka Menezes acrescentou que o papel do professor é muito mais importante que os conteúdos das disciplinas. “Eu aprendi que os professores tem essa capacidade de se reinventar e de criar a humanidade no outro e em si mesmo. Como a gente se olha, um novo olhar sobre nós. E isso máquina não faz. É por isso que eu acho que não está em extinção”. 

Ka, que também participa de um clube hacker, O Raul Hacker Club, falou como a dinâmica do hacker é importante para se pensar educação. “No universo hacker, tem um negócio que a gente aprende: a procurar as brechas, procurar apoios, trabalhar sempre em comunidade. Isso é ser hacker. Então, como professores, educações e pessoas preocupadas com a educação, a gente precisa ser indisciplinado sim. Porque a indisciplina as vezes é só o desejo de liberdade”, completou. O perfil do Raul Hacker Club no Instagram é @raulhackerclub e o da pedagoga é @kaikamenezes.

O QuantA ao Vivo: a palavra é dela integra a quarta edição do projeto Retada, que homenageia mulheres baianas ou que estão na Bahia, que se destacaram no último ano nas suas áreas de atuação. Além das transmissões, o projeto traz matérias, vídeos e cards publicados ao longo do mês de março com conteúdo sobre as homenageadas. Na próxima segunda (15), o tema do ao vivo é tecnologia. 
 

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas