A filha do Caçador de Alegrias partiu para o Orun

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29.12.2018, 05:00:00

A filha do Caçador de Alegrias partiu para o Orun

Cleidiana Ramos é jornalista, doutora em antropologia e mestra em estudos étnicos e africanos

O ano de 2018 deixará mais uma grande lacuna no candomblé. A filha de Oxóssi, Maria Stella de Azevedo Santos, 93 anos, quinta ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, partiu para o orun no final da tarde de quinta-feira, 27, dia consagrado ao seu orixá, senhor das matas e provedor da comunidade pela caça.  Mãe Stella assumiu o trono do Afonjá em 1976.

Seu legado, além das suas atribuições religiosas, foi muito além da regência de uma das mais tradicionais casas do candomblé baiano. Mãe Stella teve uma intensa atuação para além dos muros do terreiro.  

Seu reinado no Afonjá começou após o jogo realizado pelo babalaô Agenor Miranda apontá-la como sucessora de Mãe Ondina Valéria Pimentel, conhecida como Mãezinha. Em 1983, durante a II Conferência Mundial da Tradição Orixá e Cultura, Mãe Stella conseguiu a adesão de Mãe Menininha do Gantois, Doné Nicinha do Bogum, Mãe Teté da Casa Branca e Olga de Alaketo para a publicação de um manifesto onde se afirmava que o candomblé era uma religião e precisava se afastar da ideia de vincular seus ritos a outros da Igreja Católica. Esse documento tem vários desdobramentos nas discussões sobre termos como sincretismo, associação religiosa, pureza e hibidrismo, dentre outros, no ambiente religioso.

Além disso, Mãe Stella dedicou-se à literatura. Autora de livros como  Meu Tempo É Agora  foi a primeira ialorixá a assumir uma cadeira na Academia de Letras da Bahia (ALB). Ela ocupou a cadeira nº  33, que tem como patrono o poeta Castro Alves.

Nos últimos tempos, a sua saída do interior da comunidade do Ilê Axé Opô Afonjá virou polêmica e um debate que, infelizmente, transcendeu o espaço adequado para essa discussão: o interior da comunidade religiosa, afinal cada família de santo é um núcleo que passa por suas crises, ajustes e a esperada superação.

Desde o último dia 14, Mãe Stella estava internada na clínica Incar, em Santo Antônio de Jesus, com o diagnóstico de “infecção”, sem detalhes mais específicos. Ela estava residindo em Nazaré com a sua companheira nos últimos anos, Graziela Domini.

 De modos discretos, Mãe Stella foi uma liderança especial à frente do Afonjá. Dificilmente, nos meus anos de repórter, a vi sorrindo largamente. Seu humor era refinado e afiado na ironia, mas de uma forma extremamente agradável.

Nas entrevistas que tive o prazer e a sorte de encontrá-la, sempre era patente seu respeito e admiração por Mãe Aninha, fundadora do Afonjá,  e Mãe Senhora, que foi sua mãe de santo. Mãe Stella sempre definia Mãe Senhora como uma verdadeira rainha.

Generosa, foi extremamente solícita quando pedi uma entrevista fora do ambiente jornalístico. Foi para a pesquisa que resultou em minha dissertação intitulada   O Discurso da Luz. Passei uma tarde extremamente agradável em sua companhia e, alegre, notei sua emoção e interesse ao ver as 50 fotografias que escolhi para analisar pertencentes ao acervo documental do jornal A Tarde.

Uma que a emocionou foi a que mostrava Mãe Senhora sendo homenageada como Mãe Preta do Ano pela União Umbandista do Brasil em 13 de maio de 1965, no Estádio do Maracanã. A outra foi a que a retratava momentos antes de ser apontada como a ialorixá do Afonjá. Lembro que ela comentou:

 “Eu estava com esta roupa- blusa e calças brancas- porque estava a caminho do trabalho”.

Em alguns encontros ela se mostrava mais reservada. Em outros, extremamente falante. Tive o privilégio de vê-la “trocar língua”, como se diz no candomblé, com ebomi Cidália Soledade na comemoração dos 70 anos de santo dessa última em um almoço no restaurante Aconchego da Zuzu. Mãe Stella era uma figura especial que transcende sua comunidade, sua cidade, seu estado e país. A filha do Caçador de Alegrias nos fará uma enorme falta neste aiyê de tantas lutas.


Cleidiana Ramos é jornalista, doutora em antropologia e mestra em estudos étnicos e africanos

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