'A linguagem precisa ser rompida', diz Djamila Ribeiro sobre manual antirracista

entretenimento
14.12.2019, 06:50:00

'A linguagem precisa ser rompida', diz Djamila Ribeiro sobre manual antirracista

Em obra voltada para todos os públicos, filósofa reúne dez ações práticas contra o racismo estrutural

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

No dicionário, o verbete  “manual” é sinônimo de um livro pequeno, que sintetiza as noções básicas de um assunto ou que explica o funcionamento de algo. O formato foi o escolhido pela filósofa Djamila Ribeiro, 39 anos, para continuar discutindo racismo e outras questões que fizeram dela uma das autoras mais vendidas e lidas do país.
 
Em Pequeno Manual Antirracista (Companhia das Letras, 136 páginas), ela parte da premissa de que todos somos racistas, diferindo uns dos outros pelo modo como combatemos (ou não) essa característica estrutural da sociedade brasileira. É exatamente por isso que a existência de um manual se faz necessária, defende. 

Em dez capítulos curtos e contundentes, Djamila apresenta caminhos de reflexão que permitem ao leitor reconhecer discriminações raciais, e assim, assumir a responsabilidade pela mudança do estado das coisas. ”Nunca entre numa discussão sobre racismo dizendo 'mas eu não sou racista'”, sugere a autora, lembrando mais uma vez que o que está em jogo quando se fala de racismo não é um posicionamento moral, individual, mas estrutural. 

Isso não quer dizer, que não caiba a cada um de nós ações concretas para estimular o autoconhecimento e a adoção de práticas antirracistas. “O livro não é só para pessoas brancas, é para todas as pessoas, independente se são brancas ou não, porque pessoas negras muitas vezes não têm condições de refletir criticamente sobre o racismo. Não é só para a branquitude, mas é sobretudo para a branquitude, no sentido de que ela não se pensa, e não se reflete”, argumenta a autora, ao explicar qual o público-alvo do seu terceiro livro.

Se até para ela, filha de militante negro e que sempre debateu essas questões em casa, perceber as nuances do racismo foi algo desafiador, imagina para quem nunca se atentou sobre a questão. 

Diálogo
É nessa disposição para a interlocução com sujeitos de diferentes trajetórias que reside um dos grandes méritos do livro, que além de focar em estratégias para combater o racismo contra pessoas negras, visa contribuir para o combate a outras formas de opressão e discriminações estruturais. ”Quando a gente discute questões raciais, a gente historicamente só pensa a negritude. Nesse sentido, é que o livro é um convite para a branquitude olhar para si mesma”, acrescenta Djamila.

Inspirado no livro How To Be An Antiracist, do historiador americano Ibram X Kendi, e citando passagens de autoras de referência, como Angela Davis, Audre Lorde e bell hooks, Pequeno Manual Antirracista apresenta capítulos distribuídos por temas-conselhos como “informe-se sobre o racismo”, “enxergue a negritude”, “reconheça os privilégios da branquitude”, “perceba o racismo internalizado em você”, “leia autores negros”, “questione a cultura que você consome” e assim por diante.

Para Djamila, a falta de reflexão sobre cada um desses temas constitui uma das bases para a perpetuação da discriminação racial. Outras duas razões para a manutenção do racismo no país, segundo a autora, seriam a crença em determinados mitos, como o de que a escravidão no Brasil foi mais branda que em outras colônias, e o medo de nomear os problemas, transformando-os em tabus. “Quando um problema não é nomeado, não se tem como combatê-lo”, adverte.

(Foto: Reprodução)

Na esteira de tantas opressões e desigualdade estruturais, um termo aparece de forma recorrente na obra: privilégio. “Trata-se do privilégio estrutural, de entender o significado do contexto em que estamos inseridos e de desnaturalizar os lugares sociais que colocam  os negros na base da pirâmide”, explica.

Linguagem
Uma das ações práticas para combater a estrutura racista listada no manual é o apoio às ações afirmativas educacionais e o rompimento das estruturas linguísticas que ainda são responsáveis por afastar  muita gente do debate. “Meus livros têm uma linguagem muito acessível, mas o conteúdo é bastante profundo em relação a esses temas. Seguindo muito o que as feministas negras históricas falam, da questão da linguagem como manutenção de poder, a gente pensa em escrever de modo que as pessoas entendam. Se a gente ler um livro da Angela Davis, a gente vê que não é preciso ser doutora em filosofia para entender, porque a gente entende que a linguagem precisa ser rompida no sentido de não manter poder e não deixar de fora pessoas que não acessaram a norma culta”, defende.

Diante do alarde feito ainda hoje em relação à adoção de cotas raciais nas universidades públicas, a escritora é certeira. “Falar em cotas raciais hoje, quando elas já foram consideradas pelo STF como constitucionais e já foram transformadas em políticas, é anacrônico. Eu não sei por que insistimos num assunto que segundo as pesquisas mudou a vida de milhares de pessoas e a realidade social brasileira. Então, porque focar na grita, e não nas pesquisas que mostram a importância dessas políticas já constituídas?”, questiona.

Outras atitudes simples contra o racismo são conversar em casa, com a família, e não só manter uma imagem pública, com destaque para as redes sociais; apresentar para crianças e jovens livros e outras produções culturais e artísticas com personagens negros que fogem de estereótipos; apoiar o trabalho de movimentos engajados em questionar o sistema penal que criminaliza jovens negros (veja ao lado da matéria cada um dos dez pontos destacados no livro).

1 - Informe-se sobre

Reconhecer o racismo é a melhor forma de combatê-lo. Não tenha medo das palavras “branco”, “negro”, “racista”; elas não podem ser tabus e devem funcionar para melhor caracterizar o problema, e definir suas implicações.

2 - Enxergue a negritude

frases como “eu não vejo cor” não ajudam. a questão não é a cor, mas como ela é usada para segregar e oprimir. Se somos diversos, não há nada de errado em ver cores, e se vivemos em relações raciais é preciso discutir negritude e também branquitude.

3 - Reconheça privilégios 

Pessoas brancas não costumam pensar sobre o que significa pertencer a esse grupo, pois o debate racial é sempre focado na negritude. Uma pessoa branca deve pensar seu lugar entendendo os privilégios que possui na sociedade marcada por violências e opressões.

4 - Perceba o racismo internalizado em você

Os brasileiros dizem que o país é racista, mas quase ninguém se assume como um. Pelo contrário, o impulso é refutar automaticamente o rótulo. No entanto, o racismo é algo que está em nós, e contra o qual devemos lutar sempre.

5 - Apoie políticas afirmativas

O racismo estrutural facilita o acesso aos melhores cursos àqueles que tiveram uma boa base, falam idiomas e fizeram intercâmbios. Isso não quer dizer que quem fica de fora seja menos capaz. Apoiar ações afirmativas é dar uma primeira oportunidade a grupos que nunca tiveram acesso - mesmo que isso ainda não se reflita no mercado de trabalho.

6 - Transforme seu ambiente de trabalho

É preciso romper com a estratégia do negro único no ambiente corporativo. A questão para além da representatividade é a proporcionalidade. Comece se perguntando sobre quantos talentos o Brasil perde todos os dias por conta do racismo.

7 - Leia autores negros

É irrealista que numa sociedade de maioria negra somente um grupo domine a formulação do saber. O apagamento da produção e dos saberes negros e anticoloniais contribui para a manutenção do status quo. Precisamos ir além do que já conhecemos.

8 - Questione a cultura que você consome

É fundamental debater o papel do capitalismo na perpetuação do racismo. Procure refletir sobre a presença de negros em produções culturais e midiáticas diversas, já que o racismo costuma esconder a potente voz de grupos silenciados.

9 - Conheça seus afetos

É preciso questionar padrões estéticos que fazem com que mulheres negras, especialmente as retintas, sejam preteridas e desumanizadas como se não fossem dignas de serem amadas. Parte dessa compreensão se justifica por razões históricas, oriundas da escravidão.

10 -  Combata a violência racial

A política de segurança pública visa reprimir e exterminar pessoas negras, sobretudo homens. Historicamente, o sistema penal foi utilizado para promover controle social. Apoie o trabalho de movimentos engajados em questionar esse modelo.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas