A praça, o poeta e o Carnaval: Foliões relembram momentos da folia na Castro Alves

carnaval
28.02.2017, 20:31:00

A praça, o poeta e o Carnaval: Foliões relembram momentos da folia na Castro Alves

Se estátua do poeta falasse, com certeza teria inúmeras histórias para contar dos Carnavais que assistiu de perto

Ele, de Muquiranas. Ela colada na corda, aguardando os trios que iriam passar pela Castro Alves. Há quem diga que amor de Carnaval termina na quarta-feira de cinzas. Mas não para o eletricista Ligio de Borges, de 60 anos. “Eu já vinha no bloco ali de paquera, só observando ela do outro lado da corda. Cheguei perto, beijei e casei tudo isso aqui na Castro Alves. Deu em romance. Até hoje não me esqueço”, contou. Ligio tinha 32 anos quando a conheceu. “O que mais me marcou aqui foi essa namorada. Foi o amor da minha vida”.

O pôr do sol na Praça Castro Alves é outro belo atrativo do Circuito Osmar (Foto: Marcelo Guedes/ Agência Haack)

Se estátua do poeta falasse, com certeza teria inúmeras histórias para contar dos Carnavais que assistiu de perto. No domingo de Carnaval (26), a praça deu lugar ao Por do Sol com o Navio Pirata da Baiana System que atraiu uma multidão de foliões. Ali próximo, deu pra curtir ainda as atrações do Terreiro do Samba, na Cruz Caída, o Palco Multicultural no Terreiro de Jesus e mais o Circuito Batatinha no Pelourinho. 

O músico Jarbas Bittencourt, 45, é daqueles que não abrem mão de passar pela Castro Alves durante o Carnaval. “Eu vivi meu primeiro encontro de trios quando tinha 13 anos. Lá na década de 80, me lembro que tinham uns 10 trios na praça. Todos foram embora e só os Novos Baianos ficaram tocando com o trio atravessado ali no Edifício Sulacap”. A banda varou a madrugada e levou o som até às 9h da manhã: “Só Baby continuava a cantar. A banda toda já estava dando tchau e ela emendava uma música na outra e Pepeu de cara feia. Só saí no lixo. Foi muito lindão”, completou.

'Navio Pirata' da BaianaSystem em frente à Praça Castro Alves no Carnaval 2017; apresentação aconteceu no último domingo (Foto: Reprodução/ Instagram)


Velhos carnavais
O Carnaval na Praça Castro Alves também está nas lembranças da médica Rita Fernandes, de 52 anos. “As coisas mais criativas acontecem aqui. Tudo de mais original que o Carnaval tem passa pela Praça Castro Alves”. Quando tinha 20 anos ela se encantou ao ouvir pela primeira vez a voz do cantor Lazzo Matumbi. “Eram 3 horas da manhã. Foi uma coisa fenomenal. A voz, aquele homem negro, empoderado em cima de um caminhão, completamente diferente de um trio habitual”.

Para a arquiteta Valéria Miranda, 41, a imagem do Olodum descendo o São Bento se tornou inesquecível. “Aqui é a essência do carnaval de Salvador. Curtia o Carnaval daqui antes de você nascer”, disse se referindo a idade desta repórter que escreve a matéria. Ainda de acordo com Valéria, o ponto de encontro da galera era na parte de baixo do estacionamento que faz esquina com praça. “A gente começava lá a festa e depois subia para ver os trios passarem”.

Chame gente
Se a praça é do povo, o Carnaval também é. Outro que frequenta sempre o Carnaval da Castro Alves é o jornalista Luciano Matos. Segundo ele, mesmo com o fim do encontro dos trios, o que importa é que as pessoas continuem percebendo a praça como um dos pontos centrais do Carnaval de Salvador. “O carnaval é o povo na rua e a Praça Castro Alves ainda respira isso, mesmo os grandes trios ignorando a importância deste lugar. Malmente eles param no Sulacap”.

Carnaval de 2010: Trio elétrico do bloco Internacionais faz a volta na Castro Alves, em frente ao edificio Sulacap, para retornar pela Carlos Gomes (Foto: Almiro Lopes/ Arquivo CORREIO)

Com o carrinho de pipoca colado na estátua do poeta, a ambulante Jailma dos Santos, de 30 anos, aproveita para trabalhar e se divertir ao mesmo tempo. “Estou errada é? Fico aqui fazendo pipoca e vendo de tudo um pouco. É gente daqui de outros lugares, um monte de turista. Acontece é coisa nessa praça. Mas o que eu gosto mesmo de ver passar aqui é Léo Santana, por que ele é bom e é o melhor”.

E se depender do folião Fábio Rodrigues, 38, a tradição e o Carnaval da Praça Castro Alves não vai acabar nunca. Quando tinha 5 anos, Fábio vinha com os pais pra cá. O mesmo circuito se tornou o preferido do filho Levi, de 6 anos que foi curtir a folia com o pai e a mãe Cleópatra, todo paramentado de soldado. “Estou colocando ele na experiência desde os 2 anos. Quando era criança eu ficava esperando o ano todo só para ver o Carnaval. Lembro de Luís Caldas virando o Sulacap e chega me arrepio. A praça tremia, era bom demais. Ó pra isso? Me arrepiei de novo”, brinca. 

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