Adriano não foi o policial-bandido mais perigoso a se esconder na Bahia; conheça Mariel Mariscot

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23.03.2020, 06:30:00
Atualizado: 23.03.2020, 11:34:49

Adriano não foi o policial-bandido mais perigoso a se esconder na Bahia; conheça Mariel Mariscot

Entocado em Salvador, líder do Esquadrão da Morte chegou a dar carona a Georges Moustaki, famoso cantor francês amigo de Jorge Amado e Vinicius

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O monopólio da pandemia de coronavírus no noticiário fez alguns assuntos, simplesmente, sumir da nossa frente. E digo sumir porque não dá pra considerar sequer que haja algum tema em segundo plano. A Páscoa, por exemplo, quem tá lembrando que é daqui duas semanas? 

Mas nessa quaresma convertida em quarentena, decidi ressuscitar uma história curiosa envolvendo Mariel Mariscot, o ‘policial bandido matador carioca’ mais perigoso a se refugiar na Bahia. Pois é, engana-se quem supõe que Adriano da Nóbrega, morto numa operação da polícia baiana pra lá de controversa – lembra disso? – tenha sido o primeiro dessa linhagem e, principalmente, o mais perigoso.

Adriano da Nóbrega e Mariel Mariscot, bandidões auto-exilados na Bahia (Fotos: Polícia Civil e Anibal Philot)  

A tal história curiosa envolve os escritores Jorge Amado e Zélia Gattai, o poeta Vinicius de Moraes, a atriz Susana Gonçalves (irmã de Susana Vieira, a quem emprestou o prenome), a também atriz e estrela canadense Alexandra Stewart (que fez uns filmes bem legais, incluindo uns das séries ‘Emmanuelle’ e ‘Highlander’) e, finalmente, o cantor greco-franco-egípcio Georges Moustaki, ex-peguete de Edith Piaf.

A história é contada por Zélia em ‘A Casa do Rio Vermelho’, de 1999, livro de memórias no qual ela narra momentos importantes ao lado de Jorge tendo como pano de fundo a busca e achamento da casa na Rua Alagoinhas, nº 33, hoje um museu que pode ser visitado (não nesses tempos de Covid-19) por qualquer pessoa. 

Vou voltar a esse livro depois, porque tem uns causos bem interessantes narrados por dona Zélia, mas hoje fico no capítulo ‘O Bandidão’, que se passa em fevereiro de 1973. 

Vinicius no TCA
O poetinha Vinicius de Moraes, que tinha se mudado para Salvador havia pouco tempo, estrearia no dia 27 daquele mês o show ‘Poeta, Moça e Violão’, no Teatro Castro Alves, com participação de Maria Creuza e Toquinho.

Um dos convidados, como disse, era o compositor gringo autor de clássicos como ‘Le Métèque’, ‘Joseph’ e, pra mim o mais legal, ‘Millord’, famoso na voz de Piaf.

Aqui, a canção numa cena da cinebiografia 'Piaf - Um Hino ao Amor', com Marion Cotillard.

“Moustaki chegou à Bahia quando Vinicius ainda morava em casa de aluguel, casa sempre movimentada, ponto de encontro de artistas, mais movimentada do que a nossa. Com a casa repleta, Vinicius nos consultou, talvez pudéssemos hospedar Moustaki. Foi com o maior prazer que concordamos”, relata Zélia, que junto com Jorge conheceu o compositor na França, local onde Moustaki viveu até sua morte, em 2013. 

Bom, Georges era fã de Jorge: conhecera sua obra, se apaixonara pela Bahia através dos livros deste e a amou tanto mais quando conheceu in loco. Prova disso é que depois lançou e regravou músicas sobre a terra (ver no rodapé).

Mas, mundo mundo, vasto mundo, calhou de ser recebido aqui pelo “maior bandido do Brasil”, como passaria, ele mesmo, a contar depois do episódio que também envolve Alexandra e Susana. As atrizes foram destacadas por Vinicius, então bastante ocupado com os preparativos do show, para buscar o cantor no aeroporto.

Narra Zélia:

“Elas tomariam um táxi, de Itapuã ao aeroporto era um pulo. Plantadas no meio da rua à espera de que passasse um táxi, viram que um carrão de luxo, um rabo de peixe, que passara por elas, diminuíra a marcha, parara, dera uma ré. Bem-posto, óculos ray-ban, o moço perguntou:
– Querem carona? Para onde vão?
Encantadas, elas aceitaram, o cavalheiro era simpático. Ele abriu a porta da frente e as duas entraram.
– Você não é a Susana Gonçalves? – Ele a reconhecera das novelas, era seu admirador.
– Sou eu mesma. Minha amiga também é atriz, ela não fala português.
– Você não está me reconhecendo, Susana? – perguntou ele, rindo.
– Não, não estou. Creio que nunca o vi antes.
– Ainda bem – disse ele ao mesmo tempo em que tirava os óculos. – E agora?
A moça tentava lembrar-se:
– Não, não me lembro.
– Eu sou Mariel Mariscot. Isso não lhe diz nada?
Claro que dizia: o temido policial-bandido do Esquadrão da Morte, procurado como agulha no palheiro pela polícia. Os jornais haviam se ocupado muito dele.”

Quem é
Ocupemo-nos então de Mariel Mariscot, personagem lendário da crônica policial carioca dos anos 60 e 70. Investigador de Bangu tirado a xerife de Copacabana, tinha pinta de galã cafajeste e, por conta da fama (de miseravão) que o precedia, chegou a se relacionar com muitas famosas da época.

Entre os nomes mais conhecidos, a modelo Elza de Castro, com quem se casou e teve uma filha, a também modelo Rose Di Primo, além das atrizes Darlene Glória, com quem teve um filho, e Rogéria (1943-2017), a “travesti da família brasileira”.

Com fama de matador de bandidos, ele se tornou um dos ‘12 Homens de Ouro’ da polícia fluminense, grupo de elite criado em 1969 pela Secretaria da Segurança local para, diziam, combater o crime. 

Se notabilizou ainda mais com a criação, no ano seguinte, de uma associação de policiais justiceiros denominada Scuderie Le Cocq, nome que homenageava o detetive Milton Le Cocq, morto em 1964 durante um tiroteio com membros da quadrilha do assaltante Manoel Moreira, o Cara de Cavalo. 

O marco da criação da escuderia, fachada daquilo que a própria polícia e a Justiça, anos mais tarde, passariam a considerar como um grupo de extermínio, foi justamente a caçada e execução de Cara de Cavalo.

Origem das milícias
Aqui, aliás, começam algumas intersecções mais interessantes entre as histórias de Adriano e Mariel. Primeiro porque na visão de pesquisadores, a Scuderie está na origem das milícias que hoje controlam vários territórios do Rio, onde o ex-Bope morto em Esplanada tinha o status de “patrãozão”.

Embora os remanescentes do Le Cocq (incluindo o ex-deputado e delegado Sivuca, criador da frase "bandido bom é bandido morto") neguem que o E.M. do brasão significasse Esquadrão da Morte (seria, na verdade, uma referência à função anteriormente exercida por Le Cocq no ‘Esquadrão Motorizado’ da guarda pessoal de Getúlio Vargas), as ações não deixavam dúvidas sobre a natureza do grupo, que chegou a ter 7 mil associados – além de policiais, empresários, políticos e até jornalistas.

Era comum alguns desses jornalistas receberem até ligações dos puliças-matadores logo após, como diz o novo jargão, “cancelarem o CPF” de algum sujeito. Mais assíduo que os demais nas páginas policiais, Mariscot acabou enquadrado – inclusive expulso da polícia e da Scuderie – pelos excessos flagrantes. 

Tudo ficou muito pior quando descobriu-se que a trupe de Mariscot já havia sequestrado, torturado e matado ladrões de carro, por exemplo, pelo simples fato de eles se recusarem a ‘trabalhar’ para o bando. 

Acusado (oficialmente) de sete assassinatos, Mariel também se envolveu com um grupo de estelionatários que extorquiu turistas estrangeiros. E se Adriano da Nóbrega só teve um homicídio realmente julgado e condenado (o de um guardador de carros), com Mariscot também não foi muito diferente: pegou 21 anos pela morte de um puxador de automóveis.

Também foi condenado por estelionato a 14 anos e, sem disposição para cumprir as penas, chegou a fugir da cadeia com a ajuda de Elza de Castro.

Numa das vezes em que esteve fugido, em 1973, veio bater em Salvador (onde chegou a morar na infância) e encontrou duas das poucas atrizes que conheceu e não se relacionou...

Entradas para o show
Zélia Gattai lembra da reação de Susana Gonçalves quando Mariscot apresentou as credenciais em Itapuã.

Narra assim: 

“Conseguiu apenas dizer: Não acredito. O senhor está brincando, está querendo me assustar...
Não estou brincando, não. Abra a caixa que está a seus pés e veja.
O homem não mentia. Na caixa havia nada mais, nada menos do que uma metralhadora e munições.
Alexandra Stewart estava sem entender nada até o momento em que viu a metralhadora e aí se apavorou, empalideceu: "Vamos pedir para ele parar e vamos descer", pediu a moça.
Vivo, Mariscot entendeu o que a canadense dizia: “Explique a ela que não precisa se assustar, eu não sou nenhum bicho-papão, não sou o bandido de que tanto falam. Apenas faço justiça com minhas próprias mãos, nunca matei um inocente, só mato bandidos, assassinos, por isso pertenço à Scuderie Le Cocq. Não se assustem, por favor”, repetiu ele.”

Além de se oferecer para levar as duas no aeroporto, Mariscot também ficou de esperar Moustaki para levar o trio de volta à casa de Vinicius, antes de ir até Jorge e Zélia. Na conversa, conquistou a confiança de Susana, que chegou até a oferecer-lhe entradas para o show, no dia seguinte. 

“Infelizmente não posso aceitar. Sou procurado pela polícia, como você sabe, não posso me arriscar a ir a um local fechado, se me pegam me matam na hora... Só não abro mão de esperar por vocês no aeroporto. Vivo tão solitário que as suas companhias, hoje, foram um presente para mim”, comentou o bandidão.

De mala em mãos, Moustaki cumprimentou as anfitriãs, embarcou no carrão e, ao chegar na casa de Vinicius, ainda teve uma última cortesia do chofer: “Posso, se quiserem, passeá-lo pela Bahia, não façam cerimônia, estou disponível, não tenho o que fazer, conheço os mais belos recantos da cidade. Será um grande prazer para mim”. 

O convite tentador, claro, não foi aceito. Zélia conta que Vinicius, ao tomar conhecimento do acontecido, quase desmaiou.

“Moustaki, ao saber dos detalhes, achou muita graça e sempre que fala de sua primeira visita à Bahia conta com orgulho: ‘Na minha primeira visita fui recebido pelo maior bandido do Brasil’”, relata a autora.

No final do capítulo, ainda lembra que os jornais anunciaram com estardalhaço quando Mariscot foi “preso na fronteira da Bahia, ao regressar ao Rio de Janeiro, de automóvel”.  

Sobrevivente da abordagem policial baiana, Mariel foi executado com oito tiros em 1981, no centro do Rio, quando estacionava o carro para uma reunião com bicheiros.

Na última entrevista antes de ser morto afirmou que seu plano, no regime semi-aberto, era ficar rico: "Antigamente era bandido; hoje sou gângster. É muito melhor".

História boa de contar – tanto que exagerei nas laudas –, a vida de Mariscot (que já é contada no filme 'Eu Matei Lúcio Flávio', uma resposta a 'Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia', de Hector Babenco) vai virar filme de novo, ainda sem previsão de lançamento.

O novo projeto é de Mauro Lima, diretor de ‘Meu Nome Não é Johnny’ e ‘Tim Maia’.

Pra fechar no tom maior, abaixo vão o áudio completo do show de Vinicius, no TCA, além da participação de Moustaki e, por fim, gravações do gringo saudando a terra do sol.

***

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