Afrocidade faz mistura potente e dançante para denunciar opressões

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15.02.2019, 06:20:00
Atualizado: 15.02.2019, 08:29:38

Afrocidade faz mistura potente e dançante para denunciar opressões

Banda faz último show dos Ensaios de Verão nesta sexta (15), às 21h, no Pelourinho

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Uma das novidades musicais mais potentes produzidas na Bahia, a banda Afrocidade encerra hoje seus ensaios de Verão, na Arena do Teatro Sesc-Senac Pelourinho. A edição deve repetir o sucesso dos demais shows da temporada, com casa lotada e ingressos esgotados. 

Natural de Camaçari, na Região Metropolitana, a banda conseguiu inverter a dinâmica musical entre as duas cidades. “Normalmente Camaçari é que absorve o que vem de Salvador, com as bandas e os sons que saem da capital. Nós trouxemos nossa música para cá”, diz Eric Mazzone, 34, baterista e diretor musical.

O contrafluxo está na essência do Afrocidade, cuja formação foi catalisada a partir do projeto Cidade do Saber, onde Mazzone atuou como arte-educador e ministrou oficinas de percussão por quase uma década. Por divergências políticas e convictos de que era preciso expandir o som para além dos muros da instituição, o projeto logo se tornou independente.

“O Afrocidade surgiu dentro da instituição com essa missão de afirmar que tínhamos consciência da nossa história e do que estava acontecendo. A cidade era muito mais negra do que parecia ser  e a gente queria fazer disso um grito, que levasse as pessoas a refletirem também”, destaca Mazzone, ao lembrar de como a história de Camaçari é contada a partir da industrialização, desconsiderando seu passado de exploração agrícola e o fato de ser um território com muitos quilombos remanescentes. 

 

Formação base, da esq para dir: Deivite Marcel, Eric Mazzone, Fernanda Maia, José Macedo e Guto Cabral


O desejo era o mesmo do vocalista José Macedo, 29 anos, que conheceu o grupo quando saiu de um coletivo de hip hop. “Foi nessa transição que o Afrocidade começou a fazer sentido para mim. Minha formação ideológica veio do hip hop, foi na rua que conquistei isso, e não queria deixar de fazer som”, conta, ao lembrar que a inquietação sobre se estava no caminho certo acabou depois de ver uma entrevista de Chico Science, idealizador do Nação Zumbi. “Eles sempre olharam para o que havia de mais rico no Brasil, transformando em uma sonoridade própria, que dialogava com o rock, mas que era muito característica. Percebi que era a possibilidade de fazer o mesmo com o hip hop”, diz Macedo, que compõe as músicas do grupo.

Que swing é esse?
É por isso que o contrafluxo também caracteriza a própria arte do Afrocidade, classificada como “indecifrável” pela Folha de S. Paulo. O rótulo não é motivo de incômodo. “Acho que traduz o que fazemos, porque nós também estamos sempre nessa busca e cada ouvido direcionado ao nosso trabalho vai senti-lo de uma forma específica”, diz Mazzone. 

O som da banda mistura letras politizadas de denúncia às opressões contra o povo negro a ritmos populares como o arrocha e o pagode, além da música afro, dub jamaicano, reggae, ragga e afrobeat. Tudo isso com um groove percussivo incapaz de deixar qualquer um parado. 

Única mulher no Afrocidade, Fernanda Maia comanda a percussão; nos shows dessa temporada no Pelourinho se juntam a ela Rafael Lima e Marcio Manchinha

À frente do feito está Fernanda Maia, única mulher da banda e que descobriu a música nas aulas de percussão de Mazzone. “Nós, mulheres percussionistas, existimos! Sofremos ainda muito preconceito. No pagode, a figura da mulher ainda está muito associada à dança ou ao backing vocal. A gente é sempre vista no lugar daquela que não vai conseguir ou como alguém que está num lugar que não é o nosso, já que um cara faria melhor”, comenta, desejosa de que a realidade mude.

No palco, os dançarinos Deivite Marcel e Guto Cabral dão um show à parte. “Algumas pessoas só conseguem entender o nosso som a partir do movimento corporal, a gente se comunica desse jeito também. Os dançarinos traduzem com o corpo o nosso manifesto, tanto assim que eles participam do processo de composição da música. A Bahia dança o tempo inteiro, e não é só pra festejar, mas também para manifestar, como dizemos em uma das letras, para protestar”, comenta Mazzone.  “Estamos dando continuidade a algo que os blocos afro já faziam, de invadir as ruas do Carnaval cantando cantos que contam a história do nosso povo ao mesmo em que a gente se diverte”, complementa Macedo.

Os dançarinos Guto Cabral e Deivite Marcel, dão um show à parte

Há seis anos “na pista” e com apenas um EP de seis músicas autorais lançado (Cabeça de Tambor, 2016), o Afrocidade já deu provas concretas de que está ganhando o mundo: lançou e consolidou um evento próprio, o Afrobaile; fez duas turnês em São Paulo e uma em Londres; fez um dos shows de maior destaque no Carnaval do Pelô, ano passado, ao lado de Xênia França e Luedji Luna; venceu o edital Natura Musical e se prepara para lançar um disco no segundo semestre.

Banda posa ao fim do show no Pelourinho, no Carnaval de 2018, onde se apresentou ao lado de Xênia França e Luedji Luna

Serviço: Arena Teatro Sesc-Senac Pelourinho (Largo do Pelourinho). Hoje, às 21h. ingressos: R$ 30 | R$ 15. Vendas no site www.sympla.com.br


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