"Agora vai sobrar para a babá?"

flavia azevedo
17.04.2021, 11:20:00
Atualizado: 18.04.2021, 15:11:32

"Agora vai sobrar para a babá?"

Tomara que "sobre" pra todo mundo, de forma exemplar

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De todas as pessoas envolvidas no caso do garoto torturado e morto, a babá tem sido defendida como aquela que "fez o que podia", que "tinha medo do que o padrasto do menino pudesse fazer com ela", que "avisou à mãe o que acontecia". Insisto: o único inocente, nessa história, é Henry. Não importa se os adultos envolvidos foram omissos por vaidade, medo ou fragilidade social. Prioridades. Eu tenho as minhas.


(Ponto de vista da criança, lugar da criança, interesses da criança.)


(Se você "denuncia" para alguém que é cúmplice, está apenas fingindo denunciar.)


"Agora vai sobrar para a babá?", perguntam. Por mim, vai. Há muitas maneiras de se fazer uma denúncia. Psicóloga, escola, avó, pai, babá, a "parente" que já foi citada porque disse ter visto um comportamento estranho do menino e sei lá quem mais esteve por perto e observou sinais evidentes desse crime. Qualquer dessas pessoas podia ter feito alguma coisa, nem que fosse anonimamente. Se ninguém fez, é porque não achou importante, porque o garoto não era prioridade de ninguém.


(Não cito a mãe porque o papel dela, nessa história, é consenso.)


Tomara que "sobre" pra todo mundo, de forma exemplar. De um jeito tão contundente que colabore para chegarmos ao dia em que a decisão de defender uma criança nem passe por qualquer elaboração racional. Que seja impulso, até de autopreservação. Que seja muito "barril" ver alguma coisa e calar. Que os agressores, estes sim, morram de medo de qualquer passo em falso. São eles que devem viver apavorados, observados, sob tensão.

Que sobre para as mães que priorizam seus machos, em vez dos filhos. Para os pais que se eximem de qualquer responsabilidade, para os "namorados da mamãe" que acham que podem cantar de galos nos terreiros dos filhos do relacionamento anterior. Que sobre para madrastas que fazem questão de mostrar o quanto os filhos dele "atrapalham", pra quem puxa criança pelo braço, deixa bebês chorando sozinhos nos quartos, para quem chama bebês de "tiranos" e age como se fossem, de fato. Que sobre demais para psicólogas que dizem "muito bom este seu posicionamento", quando uma mãe ameaça um filho para que ele pare de chorar.


(Sim, há a troca de mensagens, entre a mãe a psicóloga, na qual a mãe conta que ameaçou e a psicóloga do garoto elogia a ameaça. Devia, no mínimo, ser proibida de exercer a profissão.)


Zero empatia com essa babá. Zero empatia, também, com a que eu vi colocando um bebê pra engatinhar no asfalto da orla do Leblon. Menos empatia, ainda, com a que eu vi beber o leite da mamadeira do neném que devia cuidar, na casa onde eu fazia faxina, em Londres ( e entreguei para a família - que a demitiu - na primeira oportunidade). Nenhuma empatia para a "enfermeira" que dava tranquilizante para um recém-nascido da minha família nem para a babá que trancava minha amiga, quando criança, no armário.


"Mas nem toda babá"... sim, né? Há muitas que são melhores do que mães e pais. Pelo óbvio: tem gente boa e ruim em todos os lugares sociais, em todos os gêneros, em todas as profissões. Mas a parte de que "tem gente ruim" parece ser esquecida por quem defende a omissão da moça porque ela era "apenas a babá". Não tem "apenas", nessa história. Todos/as foram protagonistas, todos/as tiveram estômago pra conviver com a tortura de uma criança de quatro anos. Todos/as colaboraram para criar o ambiente que favoreceu os crimes do doutorzinho. Gente ruim, em minha opinião. Em níveis diferentes, mas todos/as culpados/as. Segurança de criança é - ou devia ser, em uma estrutura social funcional - prioridade máxima. Mas é isso: somos mesmo um bando de desajustados.


("Mas não tinha como saber que o menino seria assassinado". O que estava em curso já era crime, o assassinato foi o desfecho, o momento mais trágico.)


(Pessoas que silenciaram não tinham a intenção de fazer mal a Henry, talvez. Mas também não tinham a intenção de fazer o bem. O ponto é esse.)

(Este texto nem traz só "a minha opinião". Sugiro que todos/as se informem sobre obrigações legais relativas a esse tipo de situação.)
 

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