"Ajudar as boas causas é uma obrigação", diz Chistina Oiticica

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20.08.2021, 06:00:00
Christina Oiticica com a pintura que trará para a Ilha de Maré (Foto: Divulgação)

"Ajudar as boas causas é uma obrigação", diz Chistina Oiticica

Artista plástica fala sobre arte e explica porque ela e Paulo Coelho ajudaram Festival de Jazz do Capão

Nascida no Rio de Janeiro, a artista plástica Christina Oiticica faz parte de uma família de origem alagoana que tem um parente distante muito conhecido no mundo das artes e da música: Hélio Oiticica, criador do famosa obra Parangolé e um dos grandes nomes do movimento Tropicalista. Casada com o escritor Paulo Coelho, e morando em Genebra, na Suíça, Chris, como é chamada pelos amigos, ficou tocada depois de assistir o documentário No Rio e no Mar e resolveu fazer um trabalho denominado de Vênus Negra para colocar nas aguas da Ilha de Maré, na Baía de Todos os Santos. 

A escolha não foi em vão. Em entrevista ao CORREIO, ela confessou que se não morasse no Rio escolheria a Bahia, porque admira nosso povo, cultura  música, arquitetura e culinária: “Adoro a culinária baiana, sempre faço aqui em casa e é o maior sucesso. Faço tudo de acarajé a moqueca. Já saiu até uma receita num livro de uma amiga libanesa que mora em Dubai, da moqueca de peixe que fiz para ela”, conta. 

Christina pensa em trazer esse trabalho no início do próximo ano, quando pretende visitar as Obras Sociais de Irmã Dulce junto com o marido, que foi ajudado por Santa Dulce quando ela ainda era freira. Confira a entrevista, onde Chistina fala, entre outros assuntos, porque o casal resolveu ajudar financeiramente o Festival de Jazz do Capão.    


O que a motivou fazer a Vênus Negra em homenagens às Marisqueiras Quilombolas e colocar no mar da Bahia? 

Quando vi o documentário No Rio e no Mar me tocou tão profundamente a alma, que não tive dúvidas, queria colocar um dos meus trabalhos nesse manguezal. Em homenagem às Marisqueiras Quilombolas. Meu trabalho é feminino, venho desenvolvendo há mais de trinta anos, e chegou um momento que eu tive a necessidade de deixá-lo na natureza, para que ela fosse minha parceira. Já deixei meus trabalhos na Floresta Amazônica, nos Pirineus, na França, no Caminho de Santiago, na Espanha, no Caminho de Kumano, no Japão, e em muitos outros pontos importantes para mim. Há dois anos venho desenvolvendo um trabalho só com as águas, usando as Deusas. E colocarei meus quadros nas salinas da Sicília, nos mares da Galícia e agora na Ilha de Maré, que é berçário da flora e da fauna, como os recifes. É em homenagem pela luta dos seus habitantes em preservar essa riqueza natural. Escolhi a Vênus Negra para colocar na Ilha de Maré, pela luta dessas mulheres guerreiras. O feminino está no meu universo todos os dias, sou mulher e amo ser mulher. Isso veio junto comigo desde o meu nascimento, é natural. A Vênus de Botticelli representa esse nascimento da beleza de ser mulher vinda das águas, com toda a sua iconografia, como as conchas, areia, pérolas, estrelas, etc. Resgatei um trabalho antigo que fiz no Rio de Janeiro e em Paris, em 2000, que se chamava A Casa do Tempo, inspirado na obra de Botticelli. E agora incorporei outras figuras como Iemanjá, Oxum e sereias. Escolhi a Vênus Negra para colocar na Ilha de Maré, pela luta dessas mulheres guerreiras.  

Há uma previsão de quando o trabalho ficará pronto e a possível data de você fazer a entrega? E quando vir a Salvador, planos de visitar as Obras Sociais de Santa Dulce? 

Acho que pode ser janeiro ou fevereiro do ano que vem. Indo a Salvador vou ter o maior prazer de visitar as obras Sociais da Santa Dulce. Temos muita devoção. E além disso é um dos projetos mais importantes da nossa Fundação, ajudamos desde 2014. 

Qual é sua relação afetiva com a Bahia e os baianos? Sabemos que o escritor Paulo Coelho com quem você é casada, foi parceiro de Raul Seixas, passou um tempo por aqui e foi ajudado por Irmã Dulce... 

Sempre pensei, desde menina, que se não morasse no Rio, onde nasci, gostaria de morar na Bahia. Antes de conhecer a Bahia, já amava a sua cultura e tradições. Adoro a culinária baiana, sempre faço aqui em casa e é o maior sucesso. Faço tudo, de acarajé a moqueca. Já saiu até uma receita num livro de uma amiga libanesa que mora em Dubai, da moqueca de peixe que fiz para ela. A cultura é muito forte, a arte, a arquitetura, a música!!! Amo tudo! Quando fui a primeira vez tinha 20 anos e conheci Salvador. Depois voltei várias vezes, por muito motivos, férias, ser madrinha de casamento de uma amiga, participar do Carnaval e visitar amigos. Conheço Porto Seguro, Cabrália, a baía de Camamu, que cheguei por terra e não tinha estrada, tive que atravessar todo o sertão! Um dos meus primeiros quadros é da cidade na encosta da montanha. Muitas recordações dessa viagem. Em Itabuna passei mais de três meses. Muitos amigos. E salve Jorge Amado!!! Devorei todos os seus livros na infância e adolescência! Sim, na infância, pois na minha casa era liberdade total, líamos tudo, não só livros infantis. Na Bahia tudo para mim foi festa, mas para o Paulo, foi o lugar onde ele, sem dinheiro, depois de ter fugido de um hospital psiquiátrico, caiu nas mãos generosas de Irmã Dulce, hoje Santa Dulce dos Pobres. Eu só vim saber dela através da história que ele me contou quando nos conhecemos. E Raul Seixas conheci muito pouco, pois quando casei com Paulo, ele já não fazia a parceria com ele. Mas amo muito suas músicas e sua voz. 

Como você desenvolveu essa técnica especial definida como “uma exótica técnica neoconcretista que relembra a land art e também a ecoarte”? 

No início dos anos 2000, nós morávamos num hotel duas estrelas no sudoeste da França. Para o Paulo é muito simples, basta um laptop. Eu preciso de espaço e, muitas vezes, fazendo mesmo um pequeno trabalho, sujava o quarto com tinta, e o odor não era muito agradável. Eu adoro o cheiro de terebintina, de óleo de linhaça e de tinta a óleo, mas essa é a minha lenda pessoal. Então eu resolvi levar os quadros grandes para os campos para poder pintar, e muitas vezes deixava eles lá, para secar, e só ia pegar no dia seguinte. E comecei a perceber que tinha caído uma folha, um inseto. E ficava pensando que estragou o meu trabalho. Mas nesse momento era "eu sou eu e minha circunstância", como dizia o grande filósofo Ortega y Gasset. Resolvi, então, fazer uma parceria com a natureza. Comecei com uma tela de dez metros, que ia pintando por estações e enterrando. Levou um ano para complementar esse trabalho. E paralela a ela eu deixava outros trabalhos nos leitos dos rios, em cima das árvores, etc. Como sempre trabalhei com o feminino, essa atitude fechava um ciclo da Grande Mãe Natureza, da Imaculada Conceição. Era como uma semente que colocava na terra e ela se transformava. Um período de gestação. 

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Paulo Coelho e Christina Oiticica são casados e moram na Suíça (Foto: Reprodução)

Repercutiu muito bem entre a classe artística baiana a atitude que a fundação presidida por você e Paulo tomou em apoio ao Festival de Jazz do Capão. O que levou vocês a tomarem essa decisão? 

Nós acreditamos na liberdade, lutamos e vivemos isso. Acreditamos que ajudar as boas causas é uma obrigação é um prazer nosso. 

Qual foi a primeira reação ao tomar conhecimento do fato de o projeto não ter sido aprovado por gestores da Lei Rouanet por questões como a religião? 

O Paulo viu a notícia de madrugada aqui, pois temos cinco horas de diferença do Brasil. E resolveu apoiar, pois achou a coisa mais correta. Normalmente, os nossos projetos na Fundação são mais filantrópicos que culturais. Mas essa foi uma decisão que veio do coração! 

Quem é a Christina Oiticica fora das artes plásticas? O que ela gosta de ler, de ouvir e de assistir? 

Sou bem eclética nessas três questões. Adoro ler quase tudo, romances históricos, biografias, novelas românticas, livros sobre advogados, e muita ficção-científica. Mas gosto muito quando o livro é baseado em fatos reais. Isso acontece com os filmes também, mas ficção científica para mim só tem um, Blade Runner. Vi dez vezes. E a música me transporta para lugares distantes, momentos especiais. Gosto da nossa música, cresci nos anos da bossa-nova. Amo! A música brasileira é muito rica! Gosto, em particular, da música e do cinema italiano. 

Como é viver num pais como a Suíça, conhecido por suas belezas naturais e seu alto grau de desenvolvimento? 

Realmente a Suíça é um país lindo. Nós precisamos conhecer mais. Viver aqui é muito agradável e sabemos que, mesmo para o imigrante, é sempre oferecido o melhor ou mais correto. A política aqui não tem grande significado, eu e muita gente não sabemos nem o nome do presidente. Aqui, o que importa é o cidadão. Tudo é votado, até a cor da lata de lixo nas ruas. A vida é simples, tem muita natureza, e eu encontrei amigos ótimos. Isso é fundamental independente da onde se mora. As pessoas. 

Você tem saudades do Brasil e do Rio de Janeiro? 

A primeira vez que vim a Genebra foi para um casamento da filha de um grande amigo, vim sozinha. Achei a cidade muito agradável. Eu adoro uma igreja, imagina eu na Bahia. Aqui tem poucas, e a catedral de São Peter, que era católica, hoje é protestante. Mas eu adoro a palavra e o pastor era brilhante. Ele fazia uma comparação de quando dizemos que “os olhos não veem o coração não sente” que, na realidade, era justamente ao contrário. “Aquilo que os olhos não veem, são o que nos toca mais o coração.” Que as grandes músicas, as grandes sagas, foram criadas no exílio. As minhas raízes e minha cultura são brasileiras. Meu trabalho representa essa saudade que trago comigo. As minhas raízes nordestinas, apesar de eu ter nascido no Rio de Janeiro. Como falei, nós comemos em casa a nossa comida, que também é muito rica. Feijoada, carne de sol, até cuscuz eu faço aqui. E se encontra quase todos os produtos brasileiros. Falo muito da comida, pois ela é a nossa nutrição, ela que nós faz viver. Amo o Brasil e muito a minha linda cidade Rio de Janeiro onde tenho amigos muito queridos também. 



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