Animais de estimação podem contribuir para cuidados da saúde mental

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21.02.2022, 05:30:00
(Unsplahs)

Animais de estimação podem contribuir para cuidados da saúde mental

Tratamentos contra ansiedade e depressão podem ser potencializado graças ao amor e cuidado com os bichinhos

Clara Filippo, 20, já enfrentou momentos delicados na vida. Durante o final da adolescência, teve bulimia. Diagnosticada com transtorno misto, ansiedade e depressão, a garota de Vitória da Conquista, no sudoeste baiano, "passou altas barras", como costuma dizer. Durante os anos de tratamento, dois amigos foram fundamentais para reverter o quadro, hoje bem melhor: Ísis e Bóris, seus gatinhos de 2 e 5 anos, respectivamente.

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Histórias como a de Clara são cada vez mais comuns e a ciência garante: animais de estimação podem auxiliar em processos de terapia. O contato com os bichinhos auxilia na liberação do hormônio de amor, capaz de causar sensação de tranquilidade nas pessoas e isso é um grande pilar em tratamentos como os que Clara precisou passar. Já experimentou ouvir a vibração que o ronronar dos gatos produz quando está dormindo ou relaxado, recebendo carinho? Extremamente calmante, leve fé.

Clara (esq.) posa para foto com a dorminhoca Ísis e com sua mãe (Foto: Acervo Pessoal)

A psicóloga Isadora Fernandes, professora da UniFTC de Itabuna, explica que os animais são terapêuticos porque podem oferecer diversas possibilidades de mudança de pensamento e comportamento.

“A partir do momento em que você tem um gato, um cachorro, pássaro, peixe, ou qualquer outro animal de estimação, o nosso pensamento não vai ficar focado nas questões negativas, no pessimismo ou no medo do amanhã. Nosso pensamento vai ficar voltado para aquele animal e o que ele está precisando”, explica.

Mais velho da casa, Bóris foi adotado bem pequenino, antes mesmo do desmame. Clara recorda que o gatinho estava bem adoentado quando chegou à sua casa. Ísis veio um pouco mais tarde quando a gata de seu tio, veterinário, deu cria. A ideia era pegar um outro macho, mas a identificação com a gatinha foi instantânea: 'quando a gente se viu, me apaixonei e ela também. Não saía de meu colo', conto Clara.

"Decidi adotar porque às vezes me sentia muito só, sempre fui tímida, introvertida e sentia falta de companhia. Eu sou meio ligada ao misticismo e tal, e gatos pra mim são animais mágicos, incríveis, muito sensitivos e sempre ajudam a gente da forma que eles conseguem. Eles me ajudam bastante, são meu porto seguro", explica Clara.

Boris e Isis se refrescam com um picolé de sachê (Foto: Acervo Pessoal)

Um estudo publicado pela Universidade de São Paulo (USP) e divulgado na Revista de Medicina em 2017 teve como parâmetro 25 idosos hipertensos que viviam numa casa de repouso em Vila Velha, no Espírito Santo. Na pesquisa, foi comprovado que, estimulando tanto o aspecto físico quanto o emocional com a relação desenvolvida com animais de estimação, foi possível melhorar a qualidade de vida das pessoas e acelerar os processos de recuperação.

O nome desta ajuda que os animais dão para os seres humanos, pode se chamar amor ou, através do lado mais prático, Terapia Assistida por Animais (TAA), popularmente conhecida como Pet Terapia. Neste processo, gatos e cachorros, principalmente, ajudam na liberação de ocitocina, também conhecida como hormônio do amor.

“Quando a gente chega em casa e encontra, por exemplo, aquele cachorro abanando o rabo pra você ou o gato se esfregando nas suas pernas, isso tudo auxilia na liberação de ocitocina, que faz a gente se sentir bem e acolhido”, pontua a psicóloga. É através destes pequenos gestos que os bichinhos de estimação ajudam, criando uma relação mútua de carinho, evitando momentos de estresse, pânico e ansiedade.

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Elle é o segundo bichinho de estimação na casa do historiador Felipe Silveira, 26. A gatinha chegou ao apartamento no bairro do Cabula V no final de 2020, quando Felipe se sentia extremamente sozinho - solidão gerada pela pandemia, com mudança brusca na rotina. A contragosto, os pais não gostaram muito da ideia, mas liberaram quando ele argumentou que a pessoa que oferecia a adoção de Elle ia arcar com custos como tela no apartamento, caixa de areia, ração e castração.

"Meus pais liberaram a contragosto e eu adotei nessa expectativa de ter uma companhia mesmo. Gatos são muito companheiros, Elle é muito amiga. 2020 eu ficava muito só, minha mãe ia trabalhar, meu pai não ficava em casa e eu ficava muito só", lembra Felipe.

Felipe e a dengosa Elle posam para foto (Acervo Pessoal)

E aquela oposição dos pais logo passou. Carinhosa e dengosa, Elle conquistou toda a casa e hoje Don, mãe de Felipe, não chega do trabalho sem colocar a gata no colo por um tempo. 

"Ela é muito carinhosa e isso faz com que a gente se apegue. Isso vai ajudando. Às vezes, você está trabalhando em casa, estressado e Elle quer brincar comigo. Isso me desliga do stress e ajuda", avalia Felipe.

Segundo Isadora, há estudos comprovando que até o ronronar do gato pode ajudar pessoas a sair de uma crise de pânico, diminuindo sintomas de ansiedade, taquicardia, trazendo sensação de tranquilidade e calmaria. Exemplos científicos do poder de cura que só o amor oferece.

Pet Terapia?
Segundo a equipe de Intervenções Assistidas com Animais do Grupo GNAP, termos como 'Pet Terapia', 'Zooterapia' ou 'Cinoterapia' são equivocados e vêm caindo em desuso porque podem passar uma ideia errônea de que se trata de uma terapia voltada para animais com algum problema.

Além disso, destaca o GNAP, interpretações diferentes podem ser feitas, como a de qualquer animal de estimação pudesse se tornar um animal com perfil para trabalho terapêutico; o que é inviável. 

"O animal não substitui a presença de um profissional de saúde e não é ele o responsável pela terapia. A Delta Society estabeleceu em 1996 o termo Animal Assisted Therapy (AAT) como nomenclatura oficial, em português Terapia Assistida com Animais (TAA)", disse o grupo, em nota.

No entanto, é real que ter um animal de estimação pode fazer bem à saúde física e mental - mesmo não sendo uma terapia propriamente dita.

Saiba os benefícios que o ronronar dos gatinhos:
A vibração de 20 a 140 Hz que é produzida pode melhorar a sua saúde de várias formas. Não acredita? Confira esses dados: 

1. Foi provado que interagir com um bichano (ou com qualquer outro animalzinho) ajuda a diminuir a pressão sanguínea. Não é por menos que um estudo recente mostrou que donos de gatos tem 40% menos chances de terem um ataque cardíaco.

2. As vibrações provocadas pelo ronronar ajudam a curar infecções e a diminuir o inchaço.

3. As mesmas vibrações podem ajudar a fortalecer nossos ossos! Uma análise, publicada em 2006 pela Scientific American, mostra que gatos não ronronam apenas por prazer, mas também quando estão em uma situação que consideram difícil ou machucados. E o ronronar promove uma recuperação mais rápida dos ossos quebrados. A sugestão é que essa frequência pode fazer o mesmo por humanos. 

4. O ronronar também ajuda a aliviar a dispneia - sensação incômoda de falta de ar, como se a respiração estivesse incompleta. 

Poder do infrassom
Mas de onde o ronronar tem esses superpoderes? Para começar, ele está no limite de ser um infrassom. Enquanto o ultrassom é feito de ondas curtas e de alta frequência, o infrassom é 'feito' de ondas sonoras consideradas graves, com baixa frequência. Dificilmente, é ouvido por humanos que, em média, tem uma audição que capta desde os 30Hz (embora haja casos de gente que possa ouvir frequências menores). 

Mas o fato de você não ouvir a frequência não quer dizer que ela não possa te afetar. Tigres podem produzir rosnados de 18Hz. Você não percebe o som de imediato, mas sim uma presença que pode te deixar petrificado. Da mesma forma, ruídos produzidos por felinos domésticos podem ter um efeito em nossa musculatura - mas, dessa vez, relaxante, promovendo uma série de efeitos benéficos.


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