Ano de chuva: Salvador registra período mais chuvoso em 36 anos

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25.08.2020, 05:00:00
Atualizado: 16.09.2020, 22:30:58
(Marina Silva/CORREIO)

Ano de chuva: Salvador registra período mais chuvoso em 36 anos

Nos 4 meses de Operação Chuva, choveram 1540,8 mm em terras soteropolitanas, quando a média é de 977,9 mm

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O toró que caiu no 1º dia de janeiro anunciava que 2020 seria de chuva em Salvador. De fato, o ano quebrou recordes. De acordo com um relatório da Defesa Civil da Capital (Codesal), o período de março a junho, que é tradicionalmente mais chuvoso na cidade, registrou os maiores índices pluviométricos dos últimos 36 anos. Nestes 4 meses de Operação Chuva, choveram 1540,8 mm em terras soteropolitanas, quando a média é de 977,9 mm.

O prefeito ACM Neto comentou ontem sobre o relatório que apontou o recorde, durante a inauguração de uma geomanta no Alto do Cabrito. “É impressionante porque mesmo naquele ano de 2015, que foi um ano que a chuva castigou nossa cidade, marcado por tragédias, choveu menos do que agora em 2020”, destacou. 

Em 2015, ano citado pelo prefeito, 11 pessoas morreram em um deslizamento no Barro Branco, na avenida San Martin.

A Operação Chuva ocorre durantes os meses mais chuvosos na capital, segundo Sosthenes Macêdo, diretor-geral da Codesal. “Durante os meses mais chuvosos no ano, o prefeito realiza a operação para reforçar as equipes, em especial as de plantão, para termos uma resposta rápida aos chamados”, explicou. 

Ainda de acordo com ele, Salvador tem chuvas em sequência desde novembro do ano passado. Até o mês de julho, que não integra a Operação Chuva, registrou um acumulado próximo ao do período chuvoso. “As pessoas perguntam se não vai parar de chover agora em agosto. Já tivemos um julho extremamente chuvoso, parecia que estávamos dentro da operação”, afirmou  Sosthenes.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Meteorologia do Brasil (Inmet), os meses de janeiro, março, abril, maio e junho ultrapassaram as normais climatológicas para o período. Ou seja, foram maiores do que as médias esperadas para o período. Uma semana antes do seu fim, agosto também já ultrapassou a média em mais de 6% ao registrar um acumulado de 142,7 mm até esta segunda em um mês cuja a normal climatológica é de 133,5 mm. Fevereiro, com 40,2 mm, e julho, com 168,2 mm, foram os únicos que fecharam abaixo da média de 107,2 mm e 208,6 mm, respectivamente.

População percebeu aumento das chuvas
Quem mora em Salvador percebeu esse aumento na chuva. Para a estudante de Medicina Vitória Milheiro, de 22 anos, que mora na Pituba, está chovendo mais em 2020 do que nos anos passados. “Também está fazendo mais frio e muitos mais vento. Aqui na Pituba também está com muito mais umidade”, disse.

O ano mais chuvoso também foi percebido pela estudante Beatriz Barreto, 22, que mora na Federação. Por estar isolada em casa devido à pandemia do coronavírus, a jovem diz não sentir as consequências da chuva, mas se preocupa com as pessoas que residem em áreas de risco.

Em concordância com a afirmação de Sosthenes de que estão sendo registradas chuvas em sequência, o funcionário público Maurício Passos, 61, analisa que chove muito desde o começo do ano. “As chuvas têm sido muito intensas em Salvador. Logo em 1º de janeiro, eu estava em Guarajuba e caiu tanta chuva que meus convidados não puderam ir a praia. De março para cá também choveu bastante”, relembrou.

Fenômeno comum
O aumento na quantidade de chuva é comum em todo o Nordeste, aponta Cláudia Valéria, meteorologista do Inmet. “Ao analisar o mesmo local ao decorrer dos anos, este local terá sempre um valor diferente (de acúmulo de chuva), pois o Nordeste sempre apresenta uma variação de mensal e anual. Existem anos com mais chuvas e outros abaixo da média, por esse motivo, a gente faz as previsões para ter um padrão”, explicou.

Os fenômenos meteorológicos são os responsáveis por trazer chuva para Salvador, disse Cláudia. De acordo com ela, estes fenômenos atuaram mais frequentemente e com maior intensidade no período, o que não é um fator inédito.

“Este ano, por exemplo, teve uma maior atuação dos sistemas de alta pressão sobre o Oceano Atlântico trazendo muitas nuvens para a costa nestes últimos meses. O giro do vento joga umidade para a costa mantendo os dias nublados”, informou.

Diferentemente da Codesal, o Inmet aponta que o período mais chuvoso de Salvador é entre abril e julho. “De abril a julho são os quatro meses em que o volume mensal de chuva é maior consecutivamente, isso não acontece com março. O período chuvoso é no outono, mas a data do começo do outono é no final de março, por isso, contabilizamos o período chuvoso entre abril e julho”, explicou Cláudia.

Nos cálculos do instituto, que levaram em conta apenas os meses de abril a junho, o ano de 2015 foi mais chuvoso do que o de 2020. 

Mais vistorias
O maior acumulado pluviométrico em mais de três décadas também puxou o aumento no número de visitas realizadas pela Codesal durante a Operação Chuva. De acordo com Sosthenes, foram realizadas mais de 10 mil vistorias na capital durante a força tarefa. Em 2019, o número foi de 7,7 mil.

“Tivemos os nossos 11 sistemas de alarmes funcionando durante todo esse período. Foram feitas nesse período 10 ativações das sirenes em nossa cidade”, elencou o prefeito ao comentar a operação nesta segunda.

Sosthenes ressaltou que o planejamento da prefeitura para enfrentar o período de mais chuvas evitou desastres. “Houve mais demanda. Com uma pancada de chuva em abril, por exemplo, tivemos uma série de demandas ao mesmo tempo na cidade e tivemos que ter poder de resposta em pouco espaço de tempo. Em toda operação passamos por uma prova de fogo”, comentou.

Contenção desabou sobre carros na Boca do Rio em abril (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Desastres causados pelas chuvas são evitados com um trabalho conjunto da Codesal com a população, ressaltou Sosthenes. De acordo com ele, a maior demanda por vistorias também é fruto de uma maior conscientização dos moradores. “Devido ao trabalho de prevenção da Codesal, a população entende a necessidade de se afastar do risco e procura o órgão para fazer avaliações de situações de risco. Com o trabalho de prevenção, observamos problemas, mas não grandes tragédias”, pontuou o diretor, que ainda apontou que Salvador ainda chegou aos 371 mil metros de lonas instaladas até junho.

Durante a inauguração da geomanta, ACM Neto ainda afirmou que já são mais de 300 encostas protegidas em Salvador. “Se essa chuva que caiu em 2020 tivesse acontecido na Salvador do passado, teria sido uma tragédia sem precedentes”, diz. “Não tivemos situações mais graves do que as que aconteceram, que são graves, porque a cidade está muito mais protegida, porque a gente vem fazendo esse trabalho de investimento na contenção de encostas”, disse.

Frio
Se enganou quem pensou que, além das chuvas, Salvador também ia registrar temperaturas bem mais baixas com a massa de ar frio que levou neve para a região Sul. Na capital, os casacos continuam com “cheiro de naftalina” porque não há previsão de que a massa de ar venha a ser sentida aqui. 

De acordo com Ricardo Rodrigues, meteorologista da Codesal, as projeções apontam que os efeitos serão amenos na capital baiana, que é muito influenciada pela proximidade com o mar. 

“O oceano fica mais quente do que o continente, então, todo esse vento que vem do oceano com umidade, ele deixa a temperatura mais agradável em Salvador e esse mesmo vento pode dificultar o avanço desse sistema da massa de ar fria”, explica. 

Em 4 de agosto, Salvador registrou o dia mais frio do ano, com “congelantes” 20,4°C e sensação térmica de 17,5°C, segundo o Inmet. A situação gerou brincadeiras nas redes sociais com fotomontagens de pontos turísticos da capital cobertos de neve. No entanto, a temperatura é considerada esperada e normal, já que estamos no inverno, e Salvador, inclusive, já teve números mais baixos nos anos 2017 e 2018, com 18°C e 19°C.

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