Antes de ser morto na Bahia, miliciano contratou motorista para voltar ao Rio

salvador
13.02.2020, 11:36:00
Atualizado: 13.02.2020, 21:56:25

Antes de ser morto na Bahia, miliciano contratou motorista para voltar ao Rio

No sábado, antes da operação policial, a mulher e a filha de Adriano da Nóbrega foram embora

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Antes de ser morto em uma operação policial no domingo (9), o miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, 43 anos, contratou um motorista para fugir da Bahia. Na sexta-feira, dois dias antes da ação que envolveu cerca de 70 policiais baianos em Esplanada, no Litoral Norte, o ex-tenente do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) do Rio de Janeiro planejou voltar à cidade natal com a família. No entanto, ele teria desistido da fuga. 

“A gente consegue, através de oitivas, identificar que Adriano muda de comportamento no sábado (7). Na sexta-feira, ele providencia a saída da família para sábado, 14h, e ele não vai. Ele não segue. Isso nos leva a crer que tem uma possibilidade de vazamento de informação, de suspeição dele”, afirmou o delegado Marcelo Sansão, diretor do Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco), na manhã desta quinta-feira (13). 

O delegado não descarta, ainda, a possibilidade de Adriano estar em um “sobressalto”, por quase ter sido preso uma semana antes, em um condomínio de luxo em Costa do Sauípe. Por isso, na sexta-feira, o ex-policial solicita a um amigo que indicasse um motorista para dar retorno ao Rio. “Só que ele não vai. Ele deixa a esposa e a filha seguirem com esse motorista”, disse Sansão. 

A mulher de Adriano, Júlia Emília Mello Lotulo, chegou a ser abordada pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), na noite de sábado, na BR-116. De acordo com a informação divulgada na quarta-feira (12) pela revista Época, Júlia telefonou para Adriano logo após a abordagem, na cidade de Vitória da Conquista. 

No ano passado, o nome de Adriano da Nóbrega foi parar entre os alvos da Operação Intocáveis, cuja primeira fase foi deflagrada em janeiro do ano passado, no Rio de Janeiro. A segunda fase aconteceu mais de um ano depois, no dia 30 de janeiro de 2020, e prendeu 33 pessoas.

Desde a primeira fase, porém, é considerado foragido. Sua defesa chegou a impetrar um habeas corpus, mas o pedido foi negado por unanimidade pelos desembargadores da Quarta Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro no dia 21 de janeiro. 

Adriano era apontado como um dos chefes do Escritório do Crime, uma das maiores milícias cariocas, fundada na comunidade do Rio das Pedras, na Zona Oeste da cidade. Conhecido entre os milicianos como Capitão Adriano ou Gordinho, ele nunca chegou a ser capitão, de acordo com a assessoria da Secretaria de Estado de Polícia Militar do Rio de Janeiro.

Ele serviu no Bope entre 2000 e 2002 como tenente. Quando foi demitido da corporação, em 2014, durante uma operação contra milícias no estado, ainda era tenente.

Outros estados
No final do ano passado, a polícia baiana recebeu as primeiras informações da movimentação de Adriano no estado – através de contatos da Polícia Civil do Rio de Janeiro e do Ministério Publico do Rio de Janeiro (MP-RJ). 

No entanto, Adriano já vinha deixado rastros na Bahia antes disso. De acordo com o delegado Marcelo Sansão, ele não ficava apenas aqui.

“Ele estava vindo periodicamente, mas possivelmente não ficava só na Bahia. Tinha extensões em outros estados próximos, como Sergipe e Alagoas, e também voltava ao Rio de Janeiro”, revelou o delegado Marcelo Sansão. 

Ele até mesmo “verbalizava” sobre a aquisição de propriedades na Bahia – que é uma das linhas de investigação da polícia local. Na Bahia, há duas investigações - além do inquérito sobre a ação policial em si, a possibilidade de lavagem de dinheiro através da compra de gado em terras. Quando começou a ser rastreado, foi localizado em um condomínio de luxo em Costa do Sauípe. Lá, tinha alugado uma casa. 

No domingo, Adriano estava sem seguranças. Tinha apenas o suporte do amigo – Leandro Guimarães, que chegou a ser preso e liberado após uma audiência de custódia na terça-feira (11), mediante o pagamento de uma fiança de R$ 3,5 mil e uso de tornozeleira eletrônica. 

A localização dele, após a fuga de um condomínio de luxo em Sauípe, foi descoberta depois de informações de moradores. “Foram populares. Não foi nem denúncia anônima”, explicou Sansão.

Na cidade, Adriano estava sendo visto circulando com uma Toyota Hillux branca. O amigo de Adriano, Leandro, também não teria dado as informações. “O amigo dele, quando a gente questiona, refuta e diz que jamais daria (a localização). O medo dele (Leandro), a gente ainda consegue visualizar, até por preservação e receio”. 

'Capacidade de fugir'
Os policiais tentaram prendê-lo pela primeira vez no dia 1º de fevereiro, em uma emboscada na casa alugada, mas Adriano conseguiu fugir. 

“Ele tem uma habilidade muito grande porque é muito bem treinado. Basta dizer que ele tinha cursos de sniper, caçador, sobrevivência em área de mata, explosivista. E normalmente ficava nos primeiros lugares ou o primeiro lugar desses cursos. Isso traz a demonstração da capacidade que ele tinha para impedir uma ação policial”, afirmou o delegado. 

No domingo, de acordo com o Jornal Nacional, Adriano fugiu e chegou a cruzar uma lagoa e uma área de mangue. Dias depois, a polícia soube que ele estava em Esplanada, na fazenda de Leandro. Posteriormente, horas antes de ser morto, na noite de sábado, ele fugiu para o sítio do vereador Gilson Lima (PSL-BA). Segundo o vereador, o imóvel foi invadido. 

Para a operação do domingo, foram designados cerca de 70 policiais baianos. Além disso, delegados e policiais do Rio de Janeiro já estavam na Bahia e, de Salvador, acompanharam a operação. O delegado Marcelo Sansão não soube dizer quantos, ao certo, estavam aqui. 

“O terreno não era de fácil visualização, não se sabia se ele (Adriano) estava com suporte de terceiros. Diante da possibilidade de situação de confronto e pelo histórico criminal dele, e também o insucesso da primeira operação, tudo foi levado em conta nessa”. 

Quando a polícia chegou ao local, segundo o delegado, houve confronto. "Houve disparos da equipe, do que a gente chama de célula tática, que foi montada para acessar a residência e tentar efetivar a prisão. Após a situação, os policiais terminam saindo e levando Adriano ao hospital”. Adriano foi baleado duas vezes, no tórax. Os tiros partiram de dois policiais diferentes, que já se identificaram como os autores.

No boletim de registro da ocorrência, emitido às 13h21 do dia 9, consta que os policiais chegaram ao endereço informado e avistaram Adriano na parte externa da propriedade. Ao visualizar as equipes, diz o boletim, Adriano “sacou uma arma de fogo cor preta e adentrou a residência desobedecendo a ordem de parada e voz de prisão dado pelos policiais”. A partir daí, três policiais adentraram a casa e os demais cercaram o imóvel. Dentro da casa, diz o registro, Adriano atirou e os policiais revidaram, o atingindo duias vezes.

Sansão criticou, ainda, a politização do crime. Nos últimos dias, o senador Flávio Bolsonaro afirmou que Adriano tinha sido “brutalmente assassinado na Bahia”. Já o ministro da Justiça, Sérgio Moro, disse que o governo da Bahia tinha que prestar informações sobre a morte do miliciano

“Apesar do óbito do Adriano, as investigações prosseguirão. Nada impede que tenha continuidade. A gente está verificando a legalidade da ação, a lisura do processo investigativo e a gente tem muito cuidado com isso. Estamos aguardando os laudos periciais e é muito recente para a gente chegar a uma conclusão”, finalizou Sansão.

Nesta quinta-feira (13), durante evento de lançamento da programação do Carnaval, o governador da Bahia, Rui Costa (PT), foi questionado: “Eu não entendo de miliciano. Eu não entendo nada do mundo do crime. Deixa quem entende ficar falando”, disse.

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