Após ‘Marighella’, Ancine atrasa lançamento de filme de Lázaro Ramos

entretenimento
07.12.2021, 23:03:00
Atualizado: 07.12.2021, 23:06:15
Alfred Enoch, Taís Araújo e Seu Jorge em cena do filme que tem história baseada em peça de Aldri Anunciação (Foto: Reprodução)

Após ‘Marighella’, Ancine atrasa lançamento de filme de Lázaro Ramos

"Medida Provisória" se passa num Brasil distópico, com governo que propõe despachar negros para a África

A Agência Nacional do Cinema (Ancine) voltou a ser acusada de atrasar propositalmente o lançamento de um filme no circuito comercial, após as polêmicas envolvendo Marighella, primeiro longa dirigido por Wagner Moura. Agora, o alvo é novamente a estreia de outro astro global na direção: "Medida Provisória", de Lázaro Ramos.

Baseado numa peça teatral de Aldri Anunciação, o filme aborda o Brasil sob um governo que determina que todos os negros do país sejam despachados para África, como forma de "reparar" injustiças da escravidão.

"Medida Provisória" será exibido pela primeira vez no próximo dia 15, no Festival do Rio. Contudo, a sua circulação em salas comerciais está travada pois, de acordo com produtores, não houve liberação da Ancine. Em nota publicada nas redes sociais da assessoria Trigo Press, na segunda-feira (7), os produtores envolvidos cobram uma resposta da agência. "Medida Provisória segue impossibilitado de ter seu lançamento no Brasil apesar dos inúmeros recursos submetidos por suas produtoras e coprodutoras à Agência Nacional do Cinema (ANCINE) para que ele seja liberado em circuito comercial."

De acordo com comunicado da assessoria do filme, o pedido está sendo realizado desde novembro de 2020, mas questões burocráticas não foram solucionadas. O filme, portanto, segue sem data de lançamento oficial no país. "Ao longo de mais de um ano foram trocados com a agência dezenas de e-mails, checados o recebimento e andamento de protocolos, bem como foram realizadas consultas processuais”, diz um trecho da nota.

"Medida Provisória" tem elenco composto por nomes como Taís Araújo, Seu Jorge, Adriana Esteves, Renata Sorrah, Mariana Ximenes, Emicida e Alfred Enoch. O longa vem circulando por festivais do exterior com o nome “Executive Order”. Em outubro do ano passado, ele ganhou o seu primeiro prêmio gringo: o de melhor roteiro no Indie Memphis Film Festival. O roteiro foi escrito por Lázaro com Luisa Silvestre e os co-roteiristas Aldri Anunciação e Elísio Lopes Jr.

Temática pode motivar atraso
Apesar de mostrar uma realidade distópica, o filme trata de um assunto bastante pertinente pelas desigualdades raciais vigentes no país. Uma medida similar já foi realizada pelos Estados Unidos no século 19, quando o país ajudou a criar a República da Libéria para mandar ex-escravos. Essa temática, que faz críticas à intolerância, poderia justificar o motivo do atraso por parte da Ancine.

Já no caso de "Marighela", o atrito ocorreu por ser um filme que abordava a vida de um guerrilheiro contra a ditadura, período político exaltado por Jair Bolsonaro. O governo federal também tem mostrado sua visão acerca de discussão com racismo através da Fundação Palmares, presidida por Sérgio Camargo, que por diversas vezes negou a existência de preconceito racial.

Em entrevista à "Veja", Lázaro Ramos negou a intenção de fazer críticas ao atual governo com o filme. “O roteiro começou a ser feito em 2013, e mudamos muito pouco. Tem o talento dos roteiristas de farejar o que poderia acontecer no futuro caso continuássemos com determinados comportamentos. A fala de que mais gosto está no roteiro desde 2015. O personagem do Seu Jorge diz: 'Como é que a gente não percebeu que isso ia acontecer?'", disse Lázaro Ramos.

O caso de Marighella
O filme "Marighella", de Wagner Moura, fez estreia em 4 de novembro, quando foram completados 52 do assassinato de Carlos Marighella pela ditadura militar brasileira, em 1969. Inicialmente, o filme seria lançado em 20 de novembro de 2019, no Dia da Consciência Negra, mas a estreia acabou cancelada por problemas com trâmites na Ancine. O próprio Wagner Moura, em entrevista ao colunista Leonardo Sakamoto, do Uol, em 2020, chegou a dizer que o projeto foi censurado pela agência. Mais duas datas foram cogitadas - 14 de maio de 2020 e 14 de abril de 2021 -, mas sem êxito.

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