Aquiles do MPB4: onze shows instrumentais

Aquiles Reis
10.11.2014, 04:35:00

Aquiles do MPB4: onze shows instrumentais

Onze são os temas interpretados pelo Duo Nazario no CD Amálgama (Utopia Studio). Integrado pelos irmãos Lelo Nazario e Zé Eduardo Nazario (Lelo nos teclados e sons eletrônicos, Zé Eduardo na bateria e na percussão), o duo exprime sua musicalidade através das exuberantes composições de Lelo. Carregadas de forte inclinação vanguardistas, elas permitem que expandam suas sonoridades contemporâneas.

O CD abre com A Flor de Plástico Incinerada (versão II). Do teclado surge um som de contrabaixo. Após alguns compassos com essa programação, ele volta ao registro de piano. A bateria carrega a levada ligeira do tema nas peles e nos pratos. Os dois instrumentistas se desdobram em muitos. Por vezes, tem-se a impressão de uma dissociação sonora, na base do cada um por si e Santa Cecília (padroeira dos músicos) pelos dois. Eles se desgarram musicalmente para na primeira esquina da composição tornarem a se juntar, como se nunca estivessem sós num só compasso que seja. E assim o tema vai, embalado por complicações e por facilidades interpretativas e composicionais. É o show número um do Amalgama.

O show número dois é Amalgama (que dá título ao CD), que inicia com uma percussão leve, difusa. Sons vindos do teclado oferecem uma composição atonal, o que de fato demonstra ser ao longo de mais da metade da música. O teclado fraseia, a percussão ressoa em improvisos. Tudo instiga os sentidos do ouvinte. Após cerca de quatro minutos, surge o ritmo em forma de um baião requintado, quase estranho, exatamente a música que interessa ao Duo Nazario: atonalismo e tradição entranhados e cúmplices.

O show número três é O Sétimo Portal. A percussão inicia. Logo a bateria, tocada nos tambores e no cincerro, dá as caras. O teclado toca o belo tema, cujas frases, repetidas como um mantra, lhes acrescentam suingue. Logo vêm os compassos de improviso, em perfeita comunhão com bateria e percussão. O som do teclado e a levada da bateria dão contemporaneidade ao baião. Coisa fina.

Velho Mundo Novo é o show número quatro. O teclado bota pra quebrar. O som é plural e inusual. Nos pratos, a bateria dá ainda mais vida ao tema. Valendo-se como sempre da sua incomum formação instrumental, o duo vai fundo num tema vanguardista. Melodia? Pra que melodia? O que vale são as multiplicidades sonoras tiradas dos instrumentos pelos irmãos Nazario. O coro come. Uma doideira.

Os Nazario trilham seus próprios caminhos, guiados por sua intuição musical, destino final da sabedoria adquirida ao longo do tempo e de estudos. Partindo da estranheza de sua formação instrumental, o duo busca, encontra e faz um som que mescla gêneros musicais, principalmente os brasileiros, o jazz norte-americano e a música atonal. Todos batidos no mesmo liquidificador que trata de baralhar timbres e estéticas, fazendo com que o resultado seja uma música instrumental brasileira com sabor de benfazeja internacionalidade.



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