Areia escura espanta banhistas da Barra: 'Não tem como ficar aqui'

salvador
23.01.2019, 04:01:00
Atualizado: 23.01.2019, 16:40:35
Areia preta chamou atenção de banhistas (Evandro Veiga/CORREIO)

Areia escura espanta banhistas da Barra: 'Não tem como ficar aqui'

Comerciantes também apontam que têm perdido clientes

A brasiliense Gilvanete Batista, 39 anos, está de férias em Salvador e aproveitou a manhã ensolarada desta terça-feira (22) para levar as duas filhas a uma das praias mais famosas da cidade, mas ficou decepcionada com o que viu. O tom branco das areias da Barra deu lugar a uma coloração preta, que se estendia do Barravento até o Barra Center.  

“A areia está muito suja, muito escura. Foi a primeira coisa que observamos quando chegamos”, contou.

"A gente não ia ficar aqui, mas meu marido achou melhor ficarmos, porque a maré é mais tranquila para as meninas. O rapaz da barraca disse que não tem problema, mas fiquei preocupada delas brincarem nessa areia", completou Gilvanete

Areia em praia da Barra está com coloração escura (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

A prefeitura de Salvador realizou vistoria no local na tarde dessa terça-feira (22) e informou que só depois do relatório final é que terá uma análise para fundamentar qualquer ação na área, inclusive de multa aos responsáveis. 

Os técnicos constataram, no entanto, que não há risco de o mar ser contaminado e a praia se tornar imprópria para banho por conta da mancha na areia, que está em análise. O Inema já atestou que a praia não está poluída.

A Embasa afirmou, no entanto, que não é a responsável pelo problema e argumentou que seria a rede pluvial, o que a prefeitura de Salvador nega.

“Dizer que esse material que está sendo jogado na faixa de areia, de cor preta, é fruto da rede pluvial, sendo que nem choveu ontem (segunda-feira) na cidade é, no mínimo, um contrassenso”, disse o prefeito ACM Neto, nas redes sociais, ao comentar o caso.


Problema antigo
Os comerciantes que atuam na Barra contaram que o problema é antigo e que, apesar das reclamações, nunca foi resolvido.

Luciano Alves, 27, trabalha há dez anos no local. Ele disse que a situação é pior nos dias em que chove, porque "uma água preta e fedorenta" é despejada na areia, e o odor espanta os clientes.

“O pessoal reclama muito. A gente tem que se desdobrar para convencer as pessoas a ficarem aqui. A maioria procura um local mais limpo. Já perdi as contas de quantos clientes a gente perde por dia. O pior é que ninguém resolve nada”, afirmou.

Nessa terça, o CORREIO flagrou algumas tentativas frustradas dos barraqueiros. “Quer uma cadeira, moça? Próximo do Farol não tem piscina natural para as crianças, mas aqui tem! E tem que ter cuidado, porque a bandeira dos Bombeiros está vermelha”, disse um dos vendedores.

As duas mulheres abordadas recusaram.

“Não tem como ficar aqui, moço. A areia está muito suja”, respondeu uma delas.

Segundo o barraqueiro Wanderson Lima, 20, essa cena é recorrente. “Quando a maré está baixa é melhor, porque a gente coloca as cadeiras mais para a frente, na faixa limpa da areia, mas, quando ela está cheia, não tem jeito”, disse.

Felipe Xavier e Lucas Loiola ficaram preocupados com a coloração da areia (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

Os banhistas e comerciantes acreditam que a coloração escura é resultado de uma mistura de água da chuva com esgoto. Os baianos Felipe Xavier e Lucas Loiola, ambos de 17 anos, tentaram aproveitar o dia de sol. Eles moram na Barra e confirmaram que o problema é recorrente. Os dois amigos cobraram resposta das autoridades.

“Ninguém sabe com certeza do que se trata. Então, não sabemos nem o risco que estamos correndo. Quando chove, é ainda pior. Alguém precisa fazer alguma coisa para resolver esse problema”, afirmou Felipe.

Wanderson Lima e Luciano Alves reclamam de perda de clientes (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

Respostas
Em nota nessa terça-feira, a Embasa afirmou que "as grandes tubulações que despejam água diretamente nas praias não fazem parte da rede coletora de esgoto da Embasa. Elas pertencem às redes de drenagem pluvial, que levam as águas de chuva diretamente para as praias, carregando também toda a sujeira e resíduos presentes nas ruas, inclusive matéria orgânica como folhas, fezes e urina de animais, que podem causar  mau cheiro".

A empresa explicou ainda que, "em Salvador, coleta o esgoto dos imóveis ligados em sua rede e dá destinação final, pelos emissários submarinos, ao efluente condicionado, que é lançado a distância segura da costa, em profundidade oceânica, sem riscos de poluição das praias do município".

"Os esgotos lançados indevidamente nas redes de drenagem de água da chuva vêm de ligações clandestinas dos imóveis e não da rede operada pela Embasa. A fiscalização da empresa é capaz de verificar se o imóvel não está ligado à sua rede, mas não tem como determinar se a ligação de esgoto do imóvel foi feita na drenagem, num córrego ou em fossa", continua a nota.

Multas
Também nas redes sociais, o prefeito ACM Neto afirmou que, recentemente, a Embasa foi multada em três ocasiões, por conta de crimes ambientais em Salvador, e que determinou à Secretaria de Manutenção da Cidade (Seman) que faça um estudo detalhado sobre o problema.

“Esse relatório técnico será encaminhado à Secretaria de Desenvolvimento e Urbanismo para que sejam adotadas as medidas cabíveis contra a Embasa, a quem cabe solucionar a questão”, disse o prefeito.

Praia da Barra passou por vistoria da prefeitura (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

Rede clandestina
Em nota, a Seman informou que a rede de drenagem pluvial e fluvial é composta por águas das chuvas e dos rios e que, teoricamente, não deveria ter coloração escura, turbidez, mau cheiro, eventual presença de fezes e expurgo. O órgão disse também que as reclamações sobre a manutenção de esgotamento sanitário são restritas à Embasa.

“Quando há fluidez constante de líquidos e resíduos, com relatos de água suja e peçonha, ratos e mosquitos, considera-se que a rede é constituída por esgotamento, mesmo que entroncado clandestinamente na drenagem”, diz a nota.

Já a Embasa disse que faz fiscalizações recorrentes nesta área e que tem notificado imóveis nesta situação, mas frisou que a autuação por esta infração é de competência do órgão ambiental municipal.

“Pela legislação ambiental, o proprietário do imóvel é responsável pela destinação adequada do esgoto. No caso da Barra, que possui rede pública de esgotamento sanitário, os moradores devem fazer sua ligação nessa rede”, diz a nota.

O problema foi assunto do CORREIO há pelo menos sete anos. Em 2012, o Ministério Público da Bahia (MP-BA) informou que iria apurar de quem era a responsabilidade pelo caso. Procurado nessa terça (22), o Ministério Público não informou qual foi o resultado da investigação. Nesta quarta (23), em nota, o MP informou que "tomou ciência do novo fato, relacionado à areia da praia da Barra, que será distribuído para um dos promotores de Justiça com atuação na área de Meio Ambiente, para as devidas apurações".

Qualidade da água
Para o Instituto Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), a coloração da areia diz respeito a "águas pluviais que transportam as sujeiras da cidade para as praias. Se fosse esgoto, seria contínua, já que a produção (de esgoto) é permanente".

A orientação do órgão é "não frequentar a praia próximo à saída de rios e drenagens pluviais em períodos de chuvas e também jamais deixar seus lixos na praia. Grande parte do impacto causado pelas drenagens pluviais se devem ao lixo lançado pela população nas ruas que termina se acumulando nos sistemas de drenagem".

Sobre a qualidade da água, estão próprias para banho as áreas em frente às escadas de acesso à praia, na Rua Dias D'Ávila e próximo ao Barravento e escada de acesso à praia, em frente à Avenida Oceânica - pontos onde houve coleta e análise da água.

Vistoria
A Prefeitura de Salvador reiterou que "é responsável pelo mantenimento da rede de drenagem pluvial e fluvial, que por suas composições, águas das chuvas e dos rios, não possuem ou teoricamente não deveriam possuir as características que comumente são alvo de reclamação, como coloração escura, turbidez, mau cheiro, eventual presença de fezes e expurgo".

Explicou ainda que "a rede de drenagem é desenvolvida para ser acionada somente nos momentos de chuva. Como não estamos num período chuvoso em Salvador, que possa acarretar em alagamentos, esta rede deve manter-se inoperante e esvaziada". 

Sobre o relatório da vistoria dessa terça-feira (22), a conclusão do documento, segundo a prefeitura, depende de análises para fundamentar qualquer tipo de ação.


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