Arte como luta e transformação política no Encontro Internacional de Artes

entretenimento
21.08.2018, 05:40:00
Espetáculo Quando Quebra Queima, de São Paulo, abre evento hoje

Arte como luta e transformação política no Encontro Internacional de Artes

Décima segunda edição do IC começa hoje e segue até domingo com 13 atividades

A arte como luta. Não é de hoje que o IC - Encontro Internacional de Artes veste essa camisa. Só que é agora, depois de doze anos, que o evento faz questão de estampar sua missão. "Sempre foi algo que nos acompanhou, mas em um ano de eleição, muito importante e decisiva, depois do golpe de 2016, não tinha mais como ser um subtema. Tinha que estar na camisa. Falar de uma arte que está desejando lutar por um mundo mais diverso, sem preconceito pela diferença, seja ela qual for", diz Neto Machado, um dos curadores do evento.

De hoje a domingo, o festival exalta em sua programação o viés político da produção artística local, nacional e internacional. Estudantes, travestis, prostitutas, militantes, artistas perseguidos, negros, indígenas, periferias e outros indivíduos marginalizados são atores de um total de nove atividades, em 13 diferentes sessões.  "O IC não quer ser um festival panorâmico. Não estão aqui as melhores peças, pensando na ideia de qualidade ou representatividade. Os trabalhos selecionados são propositivos, desejam suscitar essa discussão, levantar o debate", explica Machado. Teatro, música, artes visuais, moda se articulam nesse objetivo. Há atrações gratuitas e a R$ 20 | R$10. 

Logomarca da 12ª edição do IC Encontro Internacional de Artes (Arte: Talitha Andrade)

Na abertura, Quando Quebra Queima, uma obra construída por estudantes que viveram o processo de resistência e ocupação de escolas em São Paulo, entre 2015 e 2016. A “dança-luta” da ColetivA Ocupação será apresentada hoje e amanhã, às 19h, na Escola de Dança da Ufba.

Destaques
Convidada para desenvolver a marca da edição, a artista visual baiana Talitha Andrade também transformou luto em arte e em luta há algum tempo. Desde 2012, ela registra nos muros de Salvador a série LUTO, na qual confronta machismo e o sexismo – violências que atingem, especialmente, o gênero feminino. "Eu fico muito feliz que nesses momentos em que a arte passa a ser alvo de ataques, o IC traga a arte como luta e escolha o meu trabalho para representar isso", comemora a artista, que ano passado fez uma intervenção artística nos arcos que ficam em um terreno ao lado do Goethe, coincidentemente durante o IC. "Os arcos já faziam, naturalmente, a forma das figuras mascaradas que eu colocava na cidade. Decidi fazer aquela intervenção depois de uma abordagem policial muito agressiva que sofri enquanto trabalhava. O Goethe é um lugar que está aberto à dissidência e acolheu a intervenção, que permance até hoje lá", diz Talitha.

Integrando a programação do evento, Talitha abre a Ocupação LUTO, amanhã, às 20h, no Goethe. Na nova obra, ela segue munida de conceitos como guerrilha, artivismo, arte urbana, feminismo e resistência, a série emerge como prática visual de guerrilha urbana feminista, principalmente na cidade de Salvador. 

Intervenção da artista visual Talitha Andrade nas ruas de Salvador (Foto: Reprodução/ Instagram)

Na música, destaque para o show da artista multimídia Linn da Quebrada, que será aberto com desfile da grife Daspu, na sexta-feira, às 20h. O show-desfile terá 10% da bilheteria revertido para a Daspu e o Casarão da Diversidade. "Pensar o corpo como um agenciador, a arte como luta no corpo. Foi com esse pensamento que chegamos ao nome de Linn. Ela canta, dança, é um bicha negra periférica que fala sobre isso na sua arte e age sobre o mundo assim", sintetiza Neto Machado sobre a escolha da artista.

Para Ellen Mello, outra curadora do evento, aderir ao tema Arte como Luta poderia soar redundante, "mas a realidade expõe como estamos longe de esgotá-lo". "Precisamos reforçar a liberdade criativa, combater as censuras e resistir diante de retrocessos”, complementa.

O IC Encontro Internacional de Artes ainda apresenta a peça espanhola Anarchy, que questiona o poder e a interdependência social; o espetáculo baiano QUASEILHAS, que promove um mergulho na memória afro-diaspórica, integralmente em idioma africano, o yorùbá e a ação Urutau – Artivismo Indígena em Contexto Urbano,  dos artistas José Urutau Guajajara e Potyra Krikati (RJ/MA).

Linn da Quebrada faz show-desfile com a Daspu

Onda conservadora
Outro destaque da programação é o espetáculo Domínio Público, montagem que reúne Elisabete Finger, Maikon K, Renata Carvalho e Wagner Schwartz. Os quatro artistas foram objeto de acalorados debates em torno da liberdade de expressão, censura e limites na arte no ano passado. 

Alvo de ataques por conta da peça La Bête, Wagner Schwartz se reuniu a outros três artistas em Domínio Público, uma resposta a onda conservadora que censurou espetáculos pelo país ano passado (Foto: Divulgação)

Wagner é o artista da performance La Bête, em que se apresentava nu e podia ter o corpo manipulado pelo público. Elisabete Finger é a mãe da criança que aparecia tocando o pé de Wagner no vídeo da performance que, fora de contexto, foi espalhado pelas redes sociais, viralizou e deu origem a uma onda de acusações de pedofilia contra o artista. Já Renata é a atriz trans que encenou a peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, proibida em diferentes cidades do país, enquanto Maikon é o artista que fazia uma performance nu, dentro de uma bolha, na obra DNA de Dan, e que chegou a ser preso e impedido de se apresentar em Brasília.

“Tínhamos uma questão: resolver um problema que criaram para a gente”, afirma Wagner, que recebeu cerca de 150 ameaças de morte após uma criança tocá-lo em cena, quando estava nu. Como numa palestra, sobem ao palco cada um a sua vez. Têm ao fundo uma reprodução de Monalisa, de Leonardo da Vinci, e discorrem sobre a história do quadro, suas interpretações e polêmicas, traçando alusões sutis aos seus casos particulares.

"Monalisa apareceu como sendo a maior representante da condição 'domínio público'. Ela tem sido criada e recriada ao redor do mundo e nos interessou saber o porquê desse interesse com sua imagem. Encontramos na construção e na divulgação do quadro, fatos que contextualizam cada uma de nossas histórias específicas: o estatuto de arte, a ambivalência homem x mulher, os ataques ao que se tornou ícone, o papel da mulher. Todos esses temas que nos atravessam nevralgicamente estavam ali, emoldurados. Nada mais simples do que recontar essa história em 2018, para entendermos que, talvez, ainda não tenhamos entrado no futuro", sintetiza Schwartz.

Renata Carvalho em cena do espetáculo Domínio Público (Foto: Divulgação)

Para ele, o que norteou a construção do espetáculo foi a vontade de não equalizar a reação ao ataque. "Estamos propondo uma peça que pretende refletir sobre os efeitos das agressões em detrimento de um contra-ataque. Assim, construímos um texto que contextualiza a violência na história, fazendo prevalecer seus motivos mais importantes: a moral, a intolerância religiosa, o dinheiro", explica.

Cuidados
A censura e tentativa de boicote a alguns espetáculos recentemente, inclusive muitos dos quais apresentados em edições anteriores do evento, não intimidam a produção do IC. Segundo Neto Machado, desde que eles responderam ao Ministério Público sobre a encenação de La Bête, ano passado, junto com o Goethe, há uma atenção e cuidados maiores. 

"Claro que a gente tem estado um pouco mais atento ao modo como a gente coloca. Principalmente, relação às coisas ligadas à lei. Temos deixado os avisos sobre o teor das obras, a classificação indicativa, ainda mais explícitas. Sabemos que esse momento de polaridade, de disputa de poder, está gerando esse tipo de resposta", comenta. Para ele, "existe um cuidado sim, maior que nos anos anteriores, no sentido de lesgislação, mas também uma força interna de dizer que temos de afirmar nossa existência". "Se a gente não lutar pela nossa existência, a gente vai sumir, desaparecer. Não queremos que o festival, os artistas, nem as existências sejam apagadas", conclui.


PROGRAMAÇÃO IC12 – 21 a 26 de agosto
 
Quando Quebra Queima – ColetivA Ocupação (SP)

Onde: Teatro Experimental (Escola de Dança da UFBA) | Quando: 21/8 e 22/8 (ter e qua), 19h
Classificação indicativa: Livre | Quanto: R$ 20 e R$ 10
“Quando Quebra Queima” é um espetáculo construído por estudantes que viveram o processo de ocupações de escolas em São Paulo, em 2015 e 2016, em colaboração com a diretora Martha Kiss Perrone. Fruto da primavera secundarista, 14 corpos insurgentes deslocam para a cena a experiência dentro das escolas ocupadas, criando uma narrativa coletiva e comum a partir da perspectiva de quem viveu o dia a dia dentro do movimento.
 
Ocupação LUTO – Talitha Andrade (BA)
Onde: Goethe-Institut Salvador-Bahia | Quando: 22/8 (qua), 20h
Classificação indicativa: 14 anos | Quanto: Gratuito
Munida de conceitos como guerrilha, artivismo, arte urbana, feminismo, Latino-América e resistência, a série LUTO emerge como prática visual de guerrilha urbana feminista, principalmente na cidade de Salvador. Talitha Andrade transpõe desdobramentos desta intervenção urbana para compor a identidade visual do IC12 e para criação de uma nova obra.
 
Domínio Público – Elisabete Finger, Maikon K, Renata Carvalho e Wagner Schwartz (SP)

Onde: Teatro do Goethe-Institut Salvador-Bahia | Quando: 22/8 e 23/8 (qua e qui), 21h
Classificação indicativa: Livre | Quanto: R$ 20 e R$ 10
Em 2017, os artistas Elisabete Finger, Maikon K, Renata Carvalho e Wagner Schwartz foram objeto de acalorados debates em torno da liberdade de expressão, censura e limites na arte. Em “Domínio Público”, os quatro se juntam para uma reflexão a partir dos ataques sofridos, tomando como ponto de partida um dos ícones da história da arte e revelando como uma obra pode ser utilizada em diferentes narrativas ao longo dos tempos.
 
QUASEILHAS – ÀRÀKÁ – Plataforma de Criação em Arte (BA)
Onde: Forte do Barbalho | Quando: 23/8 e 24/8 (qui e sex), 19h
Classificação indicativa: 14 anos | Quanto: R$ 20 e R$ 10
 “QUASEILHAS”, obra autoral do artista Diego Pinheiro, se motiva numa densa pesquisa sobre o tempo aliado à memória afro-diaspórica, tendo como eixo as memórias familiares e negras do diretor e dos artistas corpo (alárìnjó). Propõe a criação de performatividades dentro das lacunas dessas memórias. É a primeira obra cênica autoral brasileira integralmente em idioma africano, o yorùbá.
 
Desfile Daspu e Linn da Quebrada – Linn da Quebrada (SP), Daspu (SP) e DJ Dolores (PE)
Onde: Estacionamento do Goethe-Institut Salvador-Bahia | Quando: 24/8 (sex), 20h
Classificação indicativa: 18 anos | Quanto: R$ 20 e R$ 10
10% da bilheteria serão revertidos para a Daspu e o Casarão da Diversidade
Um puta encontro entre moda, performance e música num desfile-show para ampliarmos e celebrarmos outrxs paradigmas sexuais, de gênero e corpo. O desfile da Daspu, ao som de DJ Dolores, irá abrir o show de Linn da Quebrada, artista multimídia, bixa travesty, que vem se destacando na música e na militância política nacional e internacionalmente. Um convite à celebração e arma de combate a preconceitos.
 
Anarchy – Societat Doctor Alonso (ESP)
Onde: Teatro do Goethe-Institut Salvador-Bahia | Quando: 25/8 e 26/8 (sáb e dom), 19h
Classificação indicativa: 12 anos | Quanto: R$ 20 e R$ 10
Um experimento no caos e na ordem, que assume que o poder não é de forma alguma simples. Nascemos amarrados às circunstâncias e, desde a mais tenra infância, dependemos dos outros para necessidades vitais. Dependemos do público, e também dos teatros e governos, para que nosso trabalho seja visto. No entanto, o que é essencialmente uma interdependência social não faz nem o público nem os teatros ou os governos nossos mestres. A arte é um meio em que podemos experimentar ou reproduzir certos estados, certas suposições.
 
RASHA BATALHA – RaSHa SHow (PI)
Onde: Pátio do Goethe-Institut Salvador-Bahia | Quando: 25/8 (sáb), 20h
Classificação indicativa: 18 anos | Quanto: Gratuito
Um racha que toma emprestado e amplia os sentidos de uma manifestação presente nas batalhas de breaking. Um acontecimento que borra os limites entre festa, batalha e espetáculo. Uma batalha que envolve BBoys, BGirls, drags, manas, monas e bixas em geral, contra os corpos estáveis e dominantes, contra o controle sobre nossos corpos, o preconceito e a hipocrisia. Um grito dançado, revolução descontraída, estética da liberdade. Poder aos corpos periféricos!
 
Festa! – DJ Nai Sena (BA)
Onde: Pátio do Goethe-Institut Salvador-Bahia | Quando: 25/8 (sáb), 21h
Classificação indicativa: 18 anos | Quanto: Gratuito
Para dançar na noite de sábado, porque festejar e ser feliz são dos mais potentes atos políticos! A pista fica nas mãos de Nai Sena, mulher, preta e DJ, que iniciou sua carreira musical no movimento Hip Hop e logo ganhou destaque na cena com seus sets dançantes marcados pela Black Music.
 
Urutau - Artivismo Indígena Em Contexto Urbano – José Urutau Guajajara e Potyra Krikati (RJ/MA)
Onde: Goethe-Institut Salvador-Bahia | Quando: 26/8 (dom), 16h
Classificação indicativa: Livre | Quanto: Gratuito
Filme, conversa e rito mediados por Urutau Guajajara, um dos grandes líderes no movimento pelos direitos indígenas na cidade do Rio de Janeiro, ao lado de Potyra Krikati. Às vésperas da Copa do Mundo da FIFA de 2014, Urutau permaneceu 26 horas no topo de uma árvore em resistência ao despejo ilegal da Aldeia Maracanã. Esse ato gerou a palestra-performance “Ocupa Árvore”, junto a Flavia Meireles. Nesta nova ação, são tangenciados assuntos como remoções, táticas de resistência, circulações territoriais, subjetivas e modos de existência do índio urbano.


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