As mil faces de Iemanjá: conheça origem e formas da orixá celebrada domingo

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01.02.2020, 05:30:00
Atualizado: 02.02.2020, 09:47:34
As várias formas de Iemanjá: no Rio Vermelho, no Itaigara, em altar de sacerdote do Candomblé e em Itapuã (Fotos: Marina Silva/CORREIO, Marina Silva/CORREIO, Dadá Jaques, Betto Jr/CORREIO)

As mil faces de Iemanjá: conheça origem e formas da orixá celebrada domingo

São diversos nomes e representações, mas em todas as culturas ela é a grande mãe, que acalma e acolhe aos filhos, sem exceção

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Ao erguer e voltar para si o seu abebé - instrumento em forma de espelho – qual imagem Iemanjá vê refletida? Quem acha que aparece ali a figura da mulher alva, cabelos longos e negros (por vezes loiro), vestida de azul claro, olhos azuis ou verdes e metade do corpo em forma de peixe, melhor mudar seu conceito. Quer dizer, essa imagem não é totalmente equivocada, mas também está longe de ser a única. 

Iemanjá é água. E água se molda a qualquer recipiente. Por isso, a divindade mais diversa e complexa do panteão dos orixás (e não só dele), tem a seu dispor uma infinidade de cultos e nomes diferentes para a mesma energia: Mãe D'Àgua, Janaína, Inaé, Ísis, Marabô, Maria, Mucunã, Princesa de Aiocá, Princesa do Mar, Sereia do Mar, enfim, Rainha do Mar.

Para você que vai deixar sua oferenda na praia do Rio Vermelho nesse domingo (2), saiba que Iemanjá vai muito além dos oceanos. Tanto que sua própria saudação já desperta uma controvérsia: Odô Iyá! A tradução da expressão iorubana para o português é “Mãe do Rio”. Pois bem. Iemanjá originalmente tem relação com as águas doces. O dinamismo da cultura é capaz de provocar grandes transformações nas tradições.

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Abebé é este instrumento em forma de espelho; ele está presente em algumas das representações de Iemanjá (Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

Não por acaso o culto a Iemanjá é um dos mais ricos e difíceis de ser compreendido. Cada uma das três nações do Candomblé, por exemplo, tem suas formas próprias de evocá-la. Para os jêjes, Iemanjá é  Aziri Kaia. A nação Angola a chama de Kaiala. Os ketus, iorubanos, a chamam principalmente de Iemanjá, assim como as diversas vertentes da Umbanda. Mas, cada um desses nomes também varia de acordo com a qualidade (caminho) do orixá.

Isso só para falar dos nomes. Quando se trata de culto é possível identificar diferentes vestes, cânticos, toques nos tambores, danças, lendas, folhas sagradas para sacralizações e limpezas. Cada nação africana trouxe na memória uma dinâmica, um olhar, que aqui sofreu transformações pelos mais variados motivos.

Até mesmo o que Iemanjá come e gosta de ganhar de presente é diferente em cada um dos locais em que ela é cultuada, seja na Bahia ou mundo afora. Por isso, o tipo de oferenda varia muito. Vai de perfumes e espelhos a animais.

“A diferença dos outros terreiros é que ‘Yemoja’ aqui recebe àgbo (carneiro) como sacrifício. Terreiros de outros seguimentos não costumam fazer dessa forma”, afirma Luís Antônio de Oliveira, filho de Iemanjá e babá kekere do Ilê Axé Opo Aganju, um dos mais importantes terreiros de nação ketu de Salvador.

Luís é tão ligado a Iemanjá que seu apelido é Sereia. “Ser filho de Yemoja (Yemanjá) é uma honra e previlegio. Ser o representante dela como alufaa (sacerdote) olwo omilade (cultuador) e por saber que se trata de um orixá muito importante e cultuado de várias formas e várias línguas”, diz Sereia, utilizando expressões iorubanas.

Sereia e representações remetem divindades da fertilidade e simbolizam Iemanjá (Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

No livro Orixás – Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo, o fotógrafo e etnólogo Pierre Verger aponta a existência de sete diferentes Iemanjás nos cultos somente da Bahia. A mesma quantidade que tem em Cuba, onde seu culto também é muito forte. “As filhas de Iemanjá são voluntariosas, fortes, rigorosas, protetoras, altivas e, algumas vezes, impetuosa”, descreve a pesquisadora cubana Lydia Cabrera, no livro Iemanjá & Oxum.

Há terreiros em Salvador que sequer festejam Iemanjá no dia 2 de fevereiro. No Vodum Zô, no Curuzu, a festa é em outubro. Mas Amilton Sacramento Costa, o Doté Amilton, líder do terreiro de nação jêje, diz que não só apoia como exalta a festa que é realizada no Rio Vermelho.

“Temos o maior apreço pelo presente do dia 2. Aqui a iniciação é diferente, mas de alguma forma estamos todos juntos nesse dia 2. Aqui até a comida é diferente. Aziri Kaia (Iemanjá)  gosta de arroz”, diz Amilton, que costuma oferecer o presente ao vodum (e não orixá) em um rio e não no mar.

Mãe da vida 
Em Orixás, Pierre Verger afirma que o nome Iemanjá deriva da expressão “Iyê Omo Ejá” (“Mãe  cujos filhos são peixes”. Também por isso se tornou protetora dos pescadoress.

Iemanjá incorporada: mulher de Oxalá pariu Exu, Ogum, Oxóssi, Xangô e outros tantos orixás (Foto: Pierre Verger © Fundação Pierre Verger)

Mas, apesar de toda a variedade de nomes, ritos, qualidades e caminhos que surgiu a partir daí, uma coisa é comum em todas as formas de cultos: todas as culturas têm Iemanjá como a grande mãe, a que acalma e acolhe todos os filhos, sem exceção.

“Sem a água não existe vida! De Iemanjá nasceu a vida (...) Iemanjá é a Rainha Universal porque é a água, a salgada e a doce. Ela a todos alimenta. Tudo quanto vive na terra se sustenta graças a ela”, escreveu a cubana Lydia Cabrera.

Mãe Cici, griô (contadora de histórias africanas) da Fundação Pierre Verger, diz que Iemanjá alimenta, cura, protege sem distinção de cor, raça, idade, gêneros ou classes sociais. Mulher de Oxalá, assim como pariu Exu, Ogum, Oxóssi, Xangô e outros tantos orixás, é capaz de amar e cuidar de todos como filhos. “Ela criou Omolu, adotou Obaluaiê e ama também todos os seus filhos humanos. Por isso, atravessa tantas culturas e é a orixá que recebe bem os estrangeiros”, afirma Cici.
 
Iemanjá, portanto, é a mãe da vida e, como tal, é a dona de todas as cabeças (Iyá Ori). Ela sabe o que se passa em todos os pensamentos e consciências. No Terreiro São Jorge Filho da Goméia, em Lauro de Freitas, Kaiala (Iemanjá) é a força feminina que coloca os filhos no mundo, é a energia que equilibra.

“A água salgada reequilibra nossas energias, tira as mazelas do mundo”, contribui Mameto Kamurici, líder espiritual do terreiro de nação angola. Ela segura nas mãos um abebé de prata, a ferramenta de Iemanjá.

Mameto: 'água salgada reequilibra energia' (Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

Imagem
E sobre a forma de Iemanjá? Finalmente, qual a melhor imagem para representá-la além de seus instrumentos? Na Umbanda, por exemplo, a imagem física ideal também não existe. “Todas as leituras são permitidas desde que a essência seja mantida”, afirma Leandro de Xangô, zelador do Centro de Umbanda Jequiriçá de Sultão das Matas e vice-presidente da Associação de Umbanda da Bahia (Aumba).
  
“Para nós Iemanjá é um espectro. Energia não tem forma”, concorda Anselmo Santos Minatojy, o Tata Anselmo, sacerdote do Terreiro Mokambo, na Vila 2 de Julho, de nação angola. “Mas nós estamos acostumados a buscar alguma forma para simbolizar essa grande mãe. Por isso em alguns terreiros ela pode ter a forma de uma mãe negra de seios fartos”, observa.

Mesmo o abebé que ela segura não passa de um espelho mítico. “O espelho de Iemanjá é o reflexo de nós mesmos”, resumiu certa vez Mãe Stella de Oxóssi ao fotógrafo Dadá Jaques.  

Detalhe de representação de Iemanjá africana em altar de sacerdote do Candomblé em Salvador
Detalhe de representação de Iemanjá africana em altar de sacerdote do Candomblé em Salvador (Dadá Jaques)
Escultura em aço carbono, de Mário Cravo Jr, na orla de Itapuã
Escultura em aço carbono, de Mário Cravo Jr, na orla de Itapuã (Betto Jr)
Iemanjá grávida: escultura de Bel Borba, na  praça Coronel Waldir Aguiar, no Itaigara
Iemanjá grávida: escultura de Bel Borba, na praça Coronel Waldir Aguiar, no Itaigara (Marina Silva/CORREIO)
Segurando o abebé: no Rio Vermelho, voltada para o mar, orixá de cabelo crespo, feita por Tatti Moreno
Segurando o abebé: no Rio Vermelho, voltada para o mar, orixá de cabelo crespo, feita por Tatti Moreno (Marina Silva/CORREIO)

Iemanjá raiz: origem do culto se deu em rio da Nigéria
Para entender as mil faces de Iemanjá é preciso conhecer as transformações pelas quais o culto sofreu. Segundo a mitologia iorubá-africana (mitologia nagô), a origem está nas terras de Abeokutá, às margens de dois rios, o Ewa (às vezes chamado de rio de Yemanjá) e o Ogum, na Nigéria. Uma das maiores autoridades no assunto, o nigeriano Felix Ayoh'Omidire diz que tanto Iemanjá quanto Oxum tinham cultos semelhantes, ambos ligados às águas doces. Ele explica porque a mãe de todos os orixás ficou conhecida como uma divindade das águas salgadas no Brasil. 

“Foi na viagem transatlântica, na vinda dos negros escravizados, que ela acabou adquirindo essa qualidade de ser dona das águas salgadas, já que o mar foi o caminho pelo qual os filhos dela acabaram chegando ao Brasil através da diáspora”, afirma o diretor do Instituto de Estudos Culturais da Obafemi Awolowo University, na Nigéria, da qual é professor titular de estudos brasileiros e afro-latino-americanos.

Felix: diáspora explica porque Iemanjá está também ligada à agua salgada no Brasil  (Foto: Acervo Pessoal)

A representação iorubana de Iemanjá está longe de ser a de uma sereia ou mulher peixe. Iemanjá, diz o professor, como qualquer orixá, não tem a necessidade de ser representada por forma humana ou não humana. “Essa é uma compreensão ocidental euro-contextual”.

Mas, ao chegar no Brasil, no Candomblé, Iemanjá é representada em alguns terreiros por uma mulher negra de seios fartos, por vezes carregando uma criança e com um igbá (cabaça) na cabeça. Depois, com diversas influências, ganha outras formas de representação.   
 

Outras Mães D´Água: a fusão com sereias europeias
Por que Iemanjá é mais representada na forma de sereia? Essa imagem tem a ver com o fato de várias tradições, lendas e mitos africanos e indígenas terem se misturado com as mitologias de diversos povos europeus. “A imagem mais conhecida de Iemanjá é em função do sincretismo. Não tem nada a ver com a imagem relacionada com o Candomblé”, explica Leonel Monteiro, da Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro Ameríndia (AFA).  

A Iemanjá do Candomblé é negra de grandes seios volumosos. Mas, há muitas outras Mães D´Água. O folclorista Luís da Câmara Cascudo confirma que o mito da sereia chegou ao Brasil na segunda metade do século 19 vindo da Europa. Isso desde a Odisseia de Homero, que data do século 9 a.C, onde ela é meio pássaro e não peixe.

Com o canto, a sereia seduz o marinheiro ou viajante. A mais conhecida é Loreley, dos povos nórdicos e germânicos. É sobre ela que se contam as histórias de sedução de marinheiros que se afogam nas profundezas das águas, onde ela tem seu castelo.

Aqui no Brasil, isso se funde com os orixás e lendas indígenas das Janaínas ou Iaras, por exemplo. “Pensando como Umbanda e a sua forma aglutinadora, eu diria que todas as formas são possíveis. Você vai chegar em terreiro e encontrar Iemanjá com rabo de sereia, em outro vai ter uma mulher branca de cabelos ondulados, você vai chegar em terreiro e encontrar Iemanjá como uma negra”, diz Leandro de Xangô, vice-presidente da Associação de Umbanda da Bahia.

Nomes variados

Yemoja 
Nome original africano. Deriva da expressão “Iyê Omo Ejá” (“Mãe  cujos filhos são peixes”). Nos terreiros de nação irorubá (ketu), ganha o nome de Yemanjá ou Iemanjá, utilizado também na Umbanda.

Mãe D´Água, Inaé, Mucunã, Marabô Princesa do Mar, Princesa de Aiocá, Sereia do Mar e Rainha do Mar
Nomes populares latinizados relacionados com divindades das águas, surgidos a partir de diversas influências religiosas 

Iara
Iara ou Uiara, também referida como “Mãe-d’água”, é uma divindade que, segundo o folclore brasileiro, vive no Rio Amazonas 

Aziri Kaia
Nome usado nos candomblés de nação jêje, onde a divindade é tratada como vodum e não orixá

Kaiala
Nome usado nos candomblés de nação angola, onde a divindade é tratada com inquince e não orixá

Janaína 
Quando o culto entra em contato com as crenças indígenas, o nome de Janaína passa a ser usado também no Candomblé e na própria Umbanda

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