As sete encruzas do filme 'Meu Amigo Fela'

entretenimento
07.11.2019, 10:05:00
Atualizado: 07.11.2019, 10:05:13
O músico nigeriano Fela Kuti é o criado do afrobeat (Divulgação)

As sete encruzas do filme 'Meu Amigo Fela'

Documentário de Joelzito Araújo mostra a genialidade e as contradições do músico Fela Kuti

Autor da biografia Fela: This Bitch of A Life, o cubano Carlos Moore fez uma provocação ao cineasta Joelzito Araújo, que resultou num documentário profundo, que valoriza a envergadura política do músico nigeriano. Acompanhei o projeto do filme Meu Amigo Fela através de notícias de Carlos - que morou mais de dez anos em Salvador - e, mais tarde, do próprio Joelzito. Tive a honra de assistir com eles o primeiro corte do longa que chega nesta quinta–feira (07) aos cinemas.

Venho recomendar aqui o já consagrado Meu Amigo Fela,  pemiado em festivais como o Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ouagadougou (Fespaço),  maior festival de cinema africano, e no nacional È Tudo Verdade. Filmado fora do Brasil, narrado em inglês e contendo uma entrevista em francês, trata-se de uma obra de interesse que extrapola o território em que foi produzida. No entanto, mantém coerência com os filmes anteriores do diretor.

Quando li pela primeira vez a a biografia de Fela, senti-me motivado a divulgá-lo pelo Brasil, valorizando sua atuação política. A leitura e as resenhas com seu autor, somadas à minha admiração pela sua música, levaram-me a articular o Fela Day Brasil. A concepção do evento releva o homem e a obra enquanto experiência artística e política em simultaneidade, com objetivo de divulgar a arte de Fela sem ocultar sua postura política contundente. É também com esse olhar que vislumbro a potência desse documentário: obra de arte e instrumento poderoso da divulgação da música e do panafricanismo de Fela Kuti. Como Fela: Esta Puta Vida, Meu Amigo Fela nos apresenta o legado de um enorme guerreiro. Esse filme é uma arma.

filme
Carlos Moore com  Fela Kuti, de quem foi biógrafo oficial (Foto: Acervo Pessoal) 

Entre tantas provocações que o filme faz, quero apontar sete motivos pelos quais ele merece ser assistido como uma obra prima histórica. Tensa tanto nos aspectos temáticos quanto na envergadura ética e estética, a narrativa nos leva por verdadeiras encruzas da negritude contemporânea. Das encruzilhadas dos Exus Fela, Carlos e Joelzito, ninguém sai como entra.

Encruza 1. Meu Amigo Fela é o novo filme de um competente diretor negro brasileiro, com uma consiste trajetória no debate sobre a questão racial. A filmografia de Joelzito reúne longas essenciais sobre a conflituosa presença negra na sociedade brasileira como A Negação do Brasil (2000), Vista Minha Pele (2003),  Filhas do Vento (2004), Cinderelas, Lobos e um Príncipe (2009) e Raça (2013). O conjunto lhe dá ótima credencial e domínio narrativo para se debruçar sobre a biografia de Fela Kuti.

Encruza 2. O filme documenta a vida de um dos artistas populares mais instigantes de todos os tempos. A composição e a execução da obra diluem a fronteira entre a ética e a estética. Os registros musicais e performances de palco de Fela não admitem classificações a partir de paradigmas culturais ou políticos isolados. Arte versus engajamento não representa uma anomalia na sua obra. Pessoas que recém descobrem o teor de suas letras se surpreendem que assuntos tão polêmicos possam estar em canções visceralmente dançantes.

Encruza 3. A materialização da profunda pesquisa acontece através das memórias, indagações e diálogos de um personagem tão ou mais instigante que o próprio Fela. O cubano Carlos Moore é o amigo do título do filme e estabelece a história a partir de suas lembranças. Carlos conduz entrevistas com pessoas de grande envergadura artística e política que conviveram de perto com o nigeriano. A  presença dele é tão forte que parte do documentário é dedicada à sua própria biografia. Só para se ter uma ideia, Carlos foi segurança pessoal de Malcolm X.

Encruza 4. O eixo central da narrativa foca Fela em perspectiva com o movimento pan-africanista de sua geração. Os clichês das abordagens tradicionais sobre ele são colocados em segundo plano. São tratados com sobriedade, evitando os estereótipos convencionais. O uso da maconha e o pluri-conjugalismo, por exemplo, aparecem de acordo cm sua conjuntura artística e social. Mas os exotismos habituais sobre Fela não têm lugar.

Encruza 5. As contradições pessoais de Fela são tratadas sem subterfúgios ou tergiversações. Não há movimento de consagração do herói a partir do aparamento de suas arestas. O filme não camufla traços questionáveis ou reprováveis como o machismo, a postura violenta e a progressiva conturbação mental. Tudo isso, colocado na sua linha do tempo, não deixa de causar certo constrangimento na plateia. O resultado é uma trajetória verossímil. Um homem de carne, osso, acertos e defeitos.

Encruza 6. A presença de mulheres fortes que fizeram parte do mundo de Fela Kuti. Avançadas para sua época, duas delas merecem destaque: Funmilayo Ransome-Kuti e Sandra Izsadore. A longa entrevista de Sandra faz o contraponto ao perfil do biografado. Fértil interlocutora, ela tem personalidade forte e tom irônico nas relativizações que faz sobre os comentários que ouve sobre o músico. Militante dos Panteras Negras, Sandra foi a companheira que reeducou Fela. Apontou a alienação de suas primeiras letras e despertou sua africanidade crítica. Foi ela quem apresentou para ele a biografia de Malcolm X, leitura que mudaria o sentido de sua arte e vida. Já a mãe Funmilayo marcou profundamente o caráter de Fela. Feminista pioneira, dirigente política nacional, foi a primeira nigeriana a visitar a União Soviética. Através dela, ele conheceu Kwame Nkruma.

Encruza 7. A trilha sonora com muitas músicas originais e magistrais de Fela Kuti. Em várias sequências, são desdobradas linguagens audiovisuais complementares. Aproximam-se da estrutura de videoclipe, atualizando a linguagem do filme e potencializando o prazer na sua recepção. A estratégia permite uma sobreposição de diferentes formatos de imagens. Além do som, a narrativa articula camadas visuais em simultaneidade. É o caso das animações das figurações das artes das capas dos vinis do artista. É também o caso do uso de fontes artísticas animadas nas legendas das letras. Uma história contada com requinte que faz jus à obra musical de Fela Kuti.

* Nelson Maca é poeta, autor do livro Gramática da Ira e criador do Sarau Bem Black. Colaborou com o CORREIO.      


Horário

Espaço Itaú Glauber Rocha  Sala  (leg): 18 h (quinta a segunda)  



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