Atuação da Rondesp será repensada após caso Geovane

salvador
24.04.2015, 07:47:00
Atualizado: 24.04.2015, 08:00:49

Atuação da Rondesp será repensada após caso Geovane

Geovane foi morto em agosto de 2014, depois de desaparecer durante uma abordagem de policiais da Rondesp na Calçada
Geovane Mascarenhas desapareceu
no dia 2 de agosto

(Foto: Marina Silva)

O secretário da Segurança Pública, Mauricio Barbosa, nem esperou o repórter concluir a  pergunta. Sem se esquivar da indagação sobre a denúncia de que Geovane Mascarenhas de Santana havia sido morto dentro do quartel da Rondesp, no Lobato, admitiu a necessidade de mudanças na forma de atuação da companhia especializada.

“A nossa ideia é usar este caso Geovane para que sejam feitos aperfeiçoamentos para que a Rondesp continue existindo, sem que casos como esse continuem a existir”, afirmou Barbosa, ao lado do governador, Rui Costa, e do comandante-geral da Polícia Militar, Anselmo Brandão, durante as comemorações ao aniversário de 190 anos da Polícia Militar, na quarta-feira.

Geovane foi morto no dia 2 de agosto do ano passado, depois de desaparecer durante uma abordagem de policiais da Rondesp na Calçada. O caso só foi investigado após o CORREIO denunciar, com exclusividade, seu desaparecimento.

Na semana passada, o Ministério Público denunciou 11 PMs da Rondesp pelo assassinato do jovem, bem como por sequestro e roubo. Seis deles ainda foram denunciados também por ocultação de cadáver.

O inquérito policial apontou também tortura e formação de quadrilha — mas estes dois crimes não foram incluídos na ação apresentada pela promotora Isabel Adelaide. A ação aponta a sede da Rondesp, no Lobato, como local do crime.

Maurício Barbosa reconheceu que a companhia precisa ser repensada. “É claro que temos que repensar a Rondesp. O procedimento policial como um todo ele tem que, de tempos em tempos, ser repensado”, afirmou Barbosa. 

“O caso Geovane é uma situação extremamente relevante do ponto de vista correcional e criminal. Ele acentua a necessidade de que a tropa, que é submetida a uma situação de estresse todos os dias, tenha condições de se capacitar e tenha outras matérias incluídas nessa capacitação para que ela seja uma tropa que erre menos”, disse Barbosa, sugerindo uma maior utilização de armas não letais pela especializada.

Segundo o secretário, as ações da Rondesp, incluindo os fatos negativos, aparecem mais do que em outros grupos porque “a Rondesp está na linha de frente”.

Reciclagem

O comandante-geral da PM, por sua vez, fala em reciclagem. O coronel Anselmo Brandão quer que a Rondesp aja de acordo com a lei. E anunciou que os homens da especializada já estão passando por um aprimoramento. “Vamos adotar uma linha de procedimento, capacitar todos esses homens, ensinar uma nova abordagem com a sociedade”.

Companhia tática, a Rondesp atua em operações especiais, locais de difícil acesso e terrenos ‘inóspitos’
(Foto: Arisson Marinho/Arquivo Correio)

Todos os policiais vão passar por um nivelamento com 80 horas-aula. Segundo a PM, os policiais da Rondesp terão aulas de Direitos Humanos, Abordagem, Gerenciamento de Crise, Tiro Tático, Tiro Policial, Técnicas e Táticas Policiais e Patrulhamento Tático. “Cada ‘rondespiano’ está dando 200 tiros de precisão, redefinindo a questão do alvo”, disse o coronel.

Até o momento, 90 policiais já passaram pelo nivelamento. Todo o efetivo da Rondesp, composto por 476 policiais, será reciclado. Sobre a investigação que apontou que o assassinato de Geovane aconteceu dentro do quartel, o comandante prefere esperar.

“Desconheço essa informação de que aconteceu alguma coisa dentro da unidade. Seja o que aconteceu, a nossa mensagem é de uma corregedoria forte. Os que estão em desvio de conduta, nós aplicaremos os remédios que a legislação nos permite”.

Polícia Tática

A Rondesp é uma companhia independente especializada em policiamento tático. Em nota, a assessoria da PM explicou que a Rondesp é “uma tropa de reação com capacidade técnica diferenciada e mais preparada para enfrentamento a quadrilhas especializadas em roubos a banco ou aquelas que utilizam armamento pesado”, diz.

“São patrulhas que trabalham em locais de difícil acesso, onde as viaturas não conseguem chegar”, completa o texto. Ainda segundo o comunicado, o treinamento é diferenciado. Os homens da Rondesp passam por cursos de reação em emboscadas e contra emboscadas em viaturas, aulas de incursões em terrenos “inóspitos” e o resgate de policiais feridos em confronto.

Eles são preparados tanto para utilizar equipamentos de tecnologias não letais - instrumentos de menor potencial ofensivo - até armas de maior poder letal, como fuzis.  

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