Baiana faz filmes de terror protagonizados por crianças

entretenimento
28.07.2019, 07:00:00
Julia Ferreira, durante as filmagens da série Sonhadores (Fotos: Ricardo Prado/divulgação)

Baiana faz filmes de terror protagonizados por crianças

Julia Ferreira, de 38 anos, estudou cinema em Londres e Madri e hoje trabalha em Salvador

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Julia Ferreira antecipa ao repórter que assina esse texto, antes mesmo de ouvir a pergunta: "Não tenho nenhum trauma da infância". E ela talvez tenha razão em se apressar, já que sempre lhe perguntam - e este repórter, claro, também perguntaria - por que suas criações invariavelmente tratam de crianças que sofrem algum tipo de trauma ou abuso praticado pelos adultos.

Formada em jornalismo pela Ufba, Julia, que é baiana, tem 38 anos e chegou a atuar como jornalista. Foi repórter do CORREIO por cerca de um ano e meio, entre 2004 e 2005. Mas foi no fim desse período que começou a realizar o sonho de ser cineasta e partiu para Londres, onde foi estudar cinema. Na capital inglesa, cosmopolita, estudou com gente do mundo todo. "Gostava muito da cidade e aquela foi uma experiência fundamental para mim porque tive contato com diferentes histórias. E a cidade tem um lado gótico que adoro, a escuridão...", observa Julia.

Esse tom sombrio pode ser notado em seus curtas metragens, como Evelyn, Evelyn, O Menino e O Louco e Duas Marias. Não à toa, Julia tem uma admiração especial por cineastas como Tim Burton e Guillermo Del Toro. O primeiro é o criador de filmes como A Noiva Cadáver (2005) e A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (1999), marcadamente góticas. Del Toro é o diretor de O Labirinto do Fauno (2006), igualmente sombrio.

Antônio Pitanga e Fernando Alves Pinto em Sonhadores

Outra característica dos dois cineastas que também atrai Julia: a presença de crianças nos filmes deles. "Me identifico mais com Guillermo del Toro, que faz filme com criança, mas não é para criança. É como acontece em O Menino e o Louco", diz, sobre o curta dela, lançado em 2017.

Os filmes de Julia retratam principalmente a passagem da vida infantil para a fase adulta e neles, a criança quase sempre morre. Para Julia, essa morte das crianças simboliza o fim da infância e a passagem para a vida adulta: "Para nascer o adulto, a criança tem que morrer", diz.

Essa atração pelo sombrio se acentuou durante o período em que morou em Londres, cidade conhecida pelo seu tom escuro.

"No inverno, Londres escurece pouco depois das três da tarde", lembra Julia.

Mesmo encantada com a capital inglesa, a baiana se incomodava com a escuridão da cidade. "Sofro de depressão e Londres acabava acentuando essa depressão", lembra.

Depois de concluir o curso de cinema em território britânico, Julia começou a pensar em outra cidade onde pudesse dar continuidade aos estudos e passou a cogitar Madri, que, além de ter uma boa escola de audiovisual, era uma cidade bem iluminada, diferentemente de Londres. "Embora seja fria, Madri é bem iluminada e eu preciso de luz". 

Na capital espanhola, fez uma especialização em direção e lá realizou o curta-metragem Evelyn, Evelyn, que foi seu trabalho de conclusão do curso. O filme conta a história de uma menina que se sente rejeitada na escola e também pela mãe. Abandona tudo e vai viver no mato, onde acaba morrendo. 

Durante o curso, Julia conheceu o português Nuno, que mais tarde se tornaria marido dela. Em 2009, a cineasta decidiu então partir para Lisboa e viver lá com ele. Mas a crise econômica internacional de 2008 havia chegado com muita força em Portugal e se estendeu por um bom tempo. Foi em 2011, quando nasceu a filha do casal, Beatriz, que a situação econômica ficou mais complicada para Nuno e Julia. 

"Estava difícil segurar a barra, porque eu estava desempregada. Resolvi então voltar para Salvador e vim inicialmente sem meu marido em 2012, quando Beatriz tinha meses de nascida". Julia lembra que a produção de cinema em Portugal era escassa, enquanto no Brasil a indústria cinematográfica crescia e se firmava. A cineasta aprontou as malas e voltou para a Bahia com a filha. Nuno só viria se juntar à mulher e à filha no ano seguinte.

Brunno Pastori em Sonhadores

O primeiro curta que Julia realizou em Salvador foi Duas Marias, sobre duas meninas que são abandonadas no sertão, onde vivem sem rumo, e encontram um baú de roupas. Foi filmado em Itatim, a 200 quilômetros de Salvador.

Em seguida, Julia venceu um concurso promovido pela produtora Mandacaru Filmes, que bancaria a realização do seu curta seguinte, O Menino e o Louco, sobre um garoto que vai para o interior e lá tenta salvar as amigas gêmeas de um pai desalmado, perverso. Segundo a autora, é claramente um terror, incluindo até uma cena em que o pai coloca as filhas numa linha de trem. 

Lançado em 2017, o curta foi exibido em países como EUA, Itália e Espanha. No Festcine, festival de curtas em Pernambuco, a produção levou o prêmio de melhor fotografia.

"Tenho uma preocupação com a fotografia, que eu acho que nem todo diretor tem", destaca a diretora.

Com a Mandacaru, conseguimos trazer o fotógrafo de Jorge Furtado, Alex Sernambi [que havia fotografado filmes do diretor, como Meu Tio Matou um Cara e O Homem que Copiava]. E ele soube dar a atmosfera de terror que eu gosto, com um tom bem escuro", observa Julia.

A experiência com Sernambi agradou tanto a cineasta, que ela o chamou para fazer parte de seu projeto seguinte, finalizado há pouco: a série Sonhadores, com Fernando Alves Pinto e o baiano Antônio Pitanga. 

Na produção, a mãe expulsa de casa o marido, que tem uma relação muito próxima com o filho, um adolescente interpretado por Brunno Pastori. "O pai era uma companhia importante para ele, uma referência e ele terá que aprender a viver sem ele. O menino tem uma coisa bem dark e o pai é um típico 'loser' [derrotado]", explica . 

Sonhadores, que tem oito episódios, foi toda produzida na Bahia e, em breve, deve chegar à TV. Segundo Julia, as negociações estão avançando para isso e a O2 Play, de Fernando Meirelles, manifestou interesse em distribuir. A produção, que custou R$ 750 mil, foi viabilizada com recursos de um edital realizado pela Secretaria de Cultura do Estado junto com a Ancine (Agência Nacional de Cinema, órgão federal que fomenta o audiovisual brasileiro).

A série foi filmada em Salvador, em locais como a Cidade Baixa, o Rio Vermelho e no Colégio Central.

"Não tem nada a ver com a Bahia de Jorge Amado. É uma outra Salvador, bem urbana e cinzenta, chuvosa. E mostra muito a cena rock de Salvador, com referências a Raul Seixas e Camisa de Vênus", observa a cineasta.

E Julia já tem pronto o roteiro de seu próximo filme, que, claro, é mais um terror envolvendo crianças. Ela está se dedicando a adaptar o caso das francesas irmãs Papin, duas empregadas domésticas que ficaram famosas por, na década de 1930, assassinar as patroas com sinais de extrema violência. 

Na versão de Julia, as irmãs vivem no Brasil. "Conto a infância bizarra delas no sertão, abandonadas e vítimas de violência doméstica, em orfanatos pobres e em escolas de freiras. Mais uma vez, eu maltratando as crianças (risos). Essa é minha fama", diz Julia.

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