Banco de lenços ajuda a recuperar autoestima de mulheres em tratamento contra câncer

saúde
16.10.2016, 08:00:00

Banco de lenços ajuda a recuperar autoestima de mulheres em tratamento contra câncer

Trabalhar a autoestima ajuda a vencer a compaixão alheia que, na maioria das situações, força a paciente a esconder o que está sentindo

A modelo Flávia Flores sempre foi uma daquelas mulheres que realizavam religiosamente seus exames periódicos, até porque tinha uma prótese de silicone. Em 2012, com 35 anos, ela sentiu uma alteração na mama, um carocinho. A recomendação do médico era não se preocupar, pois, recentemente, havia feito os preventivos. Na ultrassonografia e na primeira mamografia houve a constatação de que a prótese estava rompida e precisava ser trocada. 

Modelo Flávia Flores perdeu namorado e muitos amigos quando começou a perder cabelos por conta do tratamento contra o câncer; ela contou experiência nas redes sociais e levantou autoestima com acessórios e produtos de beleza (Foto: Acervo Pessoal)

Decidida a se ver livre do problema, ela fez a troca do silicone e aproveitou para retirar o carocinho e levá-lo para a biopsia. Para a surpresa de todos, inclusive de Flávia, os resultados apontaram para um câncer em estágio avançado. Mais uma vez, a modelo voltou para a mesa de cirurgia, dessa vez para uma mastectomia e uma reconstrução mamária imediata. Nos 15 meses seguintes, se submeteu a 30 sessões de quimioterapia e 28 de radioterapia. Enquanto lutava bravamente contra o câncer, Flávia imaginou que o namorado e os amigos dariam a rede de apoio necessária para superar o longo tempo de terapia. A realidade é que enquanto perdia os cabelos, ficava com “cara de minhoca” (segundo ela mesma), as amizades escassearam e o namorado desapareceu. “Foi um período muito difícil. O namorado sumiu por falta de caráter e os amigos pelo constrangimento de não saber como ajudar naquele momento”, pontua.

O fato é que o isolamento fez Flávia refletir muito sobre ela e o processo que enfrentava. Para vencer a solidão, a falta de ombros amigos, ela decidiu contar sua experiência nas redes sociais e buscou um remédio de recuperação da autoestima na busca por produtos de beleza que a ajudassem a melhorar a aparência. “Minha mãe, por exemplo, não gostava de me ver sem maquiagem (risos), porque assustava a ‘cara de doente’, decidi mostrar que a doença não poderia roubar isso também, então resolvi falar aos outros como me sentia e como estava vencendo aquela dor”, conta. A página “Quimioterapia e Beleza” na internet virou um sucesso.

Banco de belezas
O projeto das redes sociais se transformou em livro e já está na terceira edição no Brasil e teve lançamento em Portugal, além de ser traduzido para o inglês e virar documentário, com lançamento previsto para este mês. Outro projeto que vem ganhando cada vez mais adeptos é o “Banco de Lenços Flávia Flores”.  “Hoje, atendemos 500 mulheres por mês, por meio de uma  rede de troca de lenços, com intuito de unir e acolher pacientes”, comemora. Para participar do banco, as interessadas fazem o pedido via internet (http://quimioterapiaebeleza.com.br/), depois disso, Flávia e os voluntários que trabalham no banco escolhem o lenço de acordo com o perfil da solicitante. “Cada peça é higienizada e enviada para a paciente gratuitamente”, esclarece.

Mais de 500 mulheres são atendidas por mês no Banco de Lenços Flávia Flores, uma rede de troca de lenços que une e acolhe pacientes em tratamento contra o câncer (Foto: Divulgação)

Com uma experiência de mais de 20 anos na assistência de pacientes com câncer, a psicóloga do Núcleo de Oncologia da Bahia(NOB) Luiza Sarno diz que o câncer agride dois dos maiores símbolos de feminilidade: a mama e o cabelo. “A mama tem a possibilidade da reconstrução, mas a perda do cabelo e dos pelos do corpo fica difícil de ser disfarçada, daí a importância de iniciativas que valorizem esse resgate da autoestima, que fica muito abalada com a doença”, esclarece a psicóloga, que faz questão de lembrar que beleza é saúde.  

Para a psicanalista Fabiana Benetti, o resgate da autoestima da paciente começa quando ela percebe a necessidade de retirar o estigma de que o câncer é pena de morte e perda total da identidade. “O câncer de mama quando assimilado como uma oportunidade de se compreender, pode ser vivido como um resgate da autoestima e das múltiplas possibilidades de viver mais próximo de si mesmo com leveza e flexibilidade, desta forma trazendo força para a paciente não abandonar e sim criar novas possibilidades de viver”, afirma a psicanalista.

“Em poucos países do mundo, a beleza tem um peso tão importante na cultura como no Brasil. O que pode ser fútil para muitos, na verdade é uma necessidade importantíssima a ser trabalhada durante todo o tratamento. Promover o resgate da autoestima é tão importante quanto tratar as náuseas, diarreia, entre outros efeitos da quimioterapia. As mudanças na aparência são temporárias e podem ser amenizadas com a utilização de perucas, lenços, maquiagem e outros recursos. São medidas simples que podem ter grande impacto na qualidade de vida e sucesso no tratamento”,  observa a oncologista clínica Ana Carolina Nobre de Mello, da Oncologia D’Or.

As mudanças na aparência são temporárias e podem ser amenizadas com a utilização de perucas, lenços, maquiagem e outros recursos (Foto: Divulgação)

Escutas e estimas
Luiza Sarno observa ainda que trabalhar a autoestima ajuda a vencer a compaixão alheia que, na maioria das situações, força a paciente a esconder o que está sentindo para não chocar as pessoas em volta. “Para a pessoa que está lutando contra o câncer, a escuta é muito importante e o olhar de pena incomoda, a doença muitas vezes gera raiva e a paciente não pode desabafar”, destaca, ressaltando que a ajuda para esses pacientes passa por não misturar a dor pessoal com a dor de quem precisa enfrentar a doença, o medo, a solidão e a agressividade do tratamento. “Nesse mundo tão hedonista, para ajudar alguém com câncer, é preciso saber suportar a dor do outro”, diz a psicóloga, destacando que tudo que possibilita resignificar as marcas desse sofrimento termina sendo muito importante. “As tatuagens na região da mama retirada, por exemplo, permitem um novo olhar para aquela marca que era de dor”, completa, destacando que maquiagem e outros adereços ajudam a beleza a ser o início de uma cura do corpo e da alma.


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