Black e poderoso: Festival Cultural do Harlem vem à tona 50 anos depois

entretenimento
29.01.2022, 07:00:00
B.B.King é uma das estrelas do blues que participa do festival (Foto: divulgação)

Black e poderoso: Festival Cultural do Harlem vem à tona 50 anos depois

Documentário de Questlove revela gravações inéditas do evento que reuniu estrelas da música negra americana, em 1969

O que explicaria o quase total desconhecimento sobre um festival de música que reuniu mais de 50 mil pessoas, em 1969, para ver estrelas como B.B.King, Nina Simone, Stevie Wonder, Mahalia Jackson e Sly And The Family Stone? E realizado no coração do Harlem, bairro mais negro de Nova York, em dois dias solares de Verão. Para o músico, ator e agora diretor de cinema Questlove, o fato dos registros do Festival Cultural do Harlem ficarem 50 anos escondidos, só se explica pelo apagamento histórico da cultura negra. 

“Todos sabem do derramamento de sangue, das lágrimas, da dor, da dureza da vida negra americana, mas não da alegria”, disse Questlove durante o lançamento do documentário Summer of Soul (...ou Quando a Revolução Não Pode Ser Televisionada) – que estreou  quinta-feira (27) nos cinemas e também pode ser visto no Telecine Play. Aqui em Salvador, o filme está em cartaz no Cine Metha Glauber Rocha, em sessões às 16h10 e 18h20. 

Integrante da banda The Roots e atuando em várias frentes, o diretor confessou que não acreditou quando foi procurado por dois senhores com as cerca 40 horas de filmagens: “Meu ego não me permitia acreditar que havia algo monumental que aconteceu na música que eu não sabia” disse à revista Variety. Mas ele foi à luta e honrou a tarefa desafiadora: transformou o material em um filme que faz, a partir da música negra, uma tradução da ebulição que os Estados Unidos (e o mundo) vivia naquela década e em especial naquele ano.

nova york
Plateia quase toda negra e segurança feita pelos integrantes do Panteras Negras (Foto: divulgação)

Em 20 de Julho, enquanto a plateia majoritariamente negra celebrava em êxtase os shows de soul, funk,  R&B e ritmos aparentados afro-latinos, o homem pisava na lua. A um repórter que cobria o festival, vários presentes lembraram que enquanto o país gastava uma fortuna para ir ao espaço, milhares de negros passavam fome e estavam mergulhados na heroína - ali mesmo no Harlem. 

Em outro momento potente do documentário, o reverendo Jess Jackson - que estava ao lado de Martin Luther King quando ele foi assassinado em 1968 - lembrou, em meio a um louvor gospel, que o país estava em convulsão. E que um grupo de 21 integrantes dos Panteras Negras estava sendo julgado naquele mesmo dia em Nova York. Vale destacar que os panteras se misturavam ao público fazendo a segurança no Herlem, já que a polícia oficial não se importou muito com o festival. Em imagens recentes, Jess Jackson avalia a importância do evento e fala sobre a transformação que acontecia naqueles dias.

Um dos acertos do filme é alternar as performances com depoimentos de artistas, produtores e expectadores que estiveram no Woodstock Negro - como tentaram vender, sem sucesso, o evento. A referência era uma tentativa de atrair um pouco do holofote que a mídia dava ao festival de rock, que aconteceu em agosto do mesmo ano. 

Stevie Wonder  lembra do jovem talentoso e já com alguma fama  de 19 anos, que estava em uma “encruzilhada”, com desafios musicais e políticos, que ele encarou, se engajando na luta pelos direitos civis e na denúncia do racismo. Entre tantas perfomances marcantes, Nina Simone surge imponente para politizar a tarde ensolarada, mas depois distribuir autoestima em To Be Younger, Gifted & Black. Como bem define um dos entrevistados do filme, ela foi a mistura perfeita de luto e da esperança vivida pelos negros. 


 

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