Bocados de crônica, poesia e memórias da baianidade

entretenimento
16.08.2021, 18:18:38
Atualizado: 16.08.2021, 20:30:21
Lia Gonzalez reflete sobre a baianidade (Júlia Gonzales/divulgação)

Bocados de crônica, poesia e memórias da baianidade

Bordadeira e culinarista, Lia Gonzalez lança seu primeiro livro, Um Bocado de Vida; prefácio é de Mabel Velloso

“Um bocado de vida”, de Lia Gonzalez, não é um livro de crônicas, ou de poesia. Tampouco de filosofia ou memórias. É tudo isso, nada disso e... mais que isso.

Explico.

Nele está a cidade de Salvador e suas baianidades: lugares, sabores, cheiros, falares, cores, crendices, temores, coragens, dores... 

Há histórias engraçadas, ‘causos’ hilários, como o de um rato que virou quibe... ou de um quibe que virou rato (dependendo da perspectiva).

Mas há também espantos e indignações ante pequenas e grandes “descidadanias”, mediocridades, preconceitos, grosserias.

E quando a prosa cede lugar ao verso, das páginas de “Um bocado...” escorrem nostalgias, saudades, desencantos, prantos — pelo amor perdido, pela insanidade e insensatez dos homens.

Enfim, com despudores e sutilezas; ironias e lirismos, Lia recompõe a atmosfera de um determinado tempo e espaço. Tempo e espaço de uma — sua — geração.

E se revela.

Sim, porque “escrever é desnudar-se”, como afiança a autora, que salta das páginas de “Um bocado...” como alguém que jamais estará “condenada à realidade...”, pela artesã irrequieta e autêntica que é.

Provocante, também. Porque há um nível de construção simbólica nesse rol de “bocados” que extrapola os significados e formatos mais facilmente identificáveis. 

E aí está, talvez, sua maior contribuição ao campo da arte literária.

A obra de Gonzalez, ainda que inconscientemente, insere-se no debate sobre as limitações da cultura / literatura ocidental e seus cânones engessados.

Uma cultura / literatura que, ao contrário da oriental, rejeita assimetrias, combinações aleatórias, “desordens”, que a escrita assêmica, por exemplo, enfrenta, provoca, desestabiliza. 

A escrita assêmica (ou panssêmica), grosso modo, busca eliminar as informações semânticas das construções discursivas, para ressaltar conteúdos estéticos e emocionais das letras, ou grafias.

A arte polissêmica de Lia usa a palavra em seu modo tradicional, mas o faz deixando em aberto a possibilidade de múltiplas leituras, de acordo com os códigos culturais, a experiência e o sistema de valores do leitor.

Desse modo, desloca os receptores da zona de conforto dos significados dirigidos e da estética literária arrumadinha, para inseri-los numa ambiência desordenada de sensações e percepções.

Esse rompimento com o estabelecido, o acordado, o pacificado, é perceptível em várias de suas breves narrativas, mas fica mais evidente no conjunto resultante da — com certeza consciente — edição.

Parabéns, Lia Gonzalez! Você pode, sim, orgulhar-se desse(s) bocado(s) de vida: da sua — singular — vida.

Título: Um Bocado de Vida
Autora: Lia Gonzalez
Editora: Luminosa
Preço: R$ 50

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