Bonde literário: conheça a novíssima geração de escritores da Bahia

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02.05.2021, 11:00:00

Bonde literário: conheça a novíssima geração de escritores da Bahia

Ativa nas redes sociais e tocando projetos diversos, novos talentos conquistam espaços

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Poderíamos até considerar que o Brasil se tornou um campo menos fértil para a criação literária, já que a realidade tem superado a ficção, e que a esperança se reduziu a um substantivo abstrato. Porém, contra as perspectivas de rendição e desânimo, ao longo de 2020 e nos primeiros meses deste ano, uma nova geração de autores baianos publicou livros, lançou podcasts, organizou eventos e coletâneas, criou editoras e, sobretudo, escreveu bastante. Como se não houvesse amanhã? Melhor, como se houvesse. 

Com idades que variam entre 20 e 35 anos, esses jovens escritores têm vivenciando a pandemia combativamente, seja dando sequência aos seus trabalhos literários ou ousando estreias em livro. Um bom exemplo dessa movimentação criativa se deu recentemente no mercado editorial que, claro, não se restringe à circulação de exemplares na Bahia. Na contramão de uma crise nacional, que teve como consequência mais visível a quebra de grandes redes de livrarias, duas novas editoras independentes foram criadas. 

A primeira delas, a Mormaço, iniciou as suas atividades no final do ano passado, sob a direção da escritora e poeta Maria Luiza Machado, 24. A segunda, a Folhetim, foi lançada oficialmente no início deste mês, pelo trio de sócios Gabriel Lima, 25, Andrey Kanesiro, 26, e Thaise Amorim, 26. Em comum entre os novíssimos editores baianos, histórias de amor que começaram na infância, em torno dos primeiros livros lidos, e que se consolidaram em opções artísticas e projetos alternativos para a vida toda.

Letícia Carvalho curte os primeiros meses após o lançamento de seu livro (Foto: Divulgação)

Alquimistas chegando
Apaixonada pela feitura de livros, Maria Luiza partiu da experiência como autora para criar a editora. Tantas que Aqui Passaram, terceiro título de sua autoria e o primeiro da Mormaço, contou com edição da escritora pernambucana Jarid Arraes, que acolheu a iniciativa. Acolhimento, aliás, é a palavra que melhor define esta casa editorial, que já nasceu atrelada a uma revista digital. “Ouvir e conhecer quem chega, priorizar autores novos e/ou jovens e suas pluralidades. Ser um espaço transparente”, diz.

Os próximos passos da Mormaço para este ano, já divulgados nas redes sociais da editora, incluem o lançamento da segunda edição da coletânea Corpos que Queimam, reunindo poetas baianas, selecionadas por meio de edital. O primeiro volume saiu em 2019 e teve 41 autoras. E a publicação do livro de prosa poética da escritora manauara Danna Dantas. “Não consigo lembrar de um momento na minha vida em que eu não estivesse no meio de muitos livros. Sou muito privilegiada nesse sentido”,  afirma  Maria Luiza.

Ainda sem livros publicados, a Folhetim também foca nos inéditos. “A proposta é ser um portal de entrada para novas autoras ou autores no universo editorial”, conta Gabriel Lima, que fez sua estreia em contos na coletânea Soteropolitanos, organizada por Matheus Peleteiro, 25, e lançada em 2020. Do projeto de Lima e seu sócios faz parte, ainda, o Bússola Crítica, um guia de escrita criativa. “A ideia é, além de orientar, oferecer feedback profissional dos textos”, pontua Andrey Kanesiro, que é administrador.

Das conversas da dupla sobre mercado editorial, surgiu a Folhetim. “Coisas que eu via como insolúveis, Andrey mostrou que não eram”, comenta Lima, que é formado em Letras. A artista gráfica Thaise Amorim, baiana que vive em São Paulo, completa o trio. “Nunca tivemos um momento na história onde existiram tantas autoras e autores quanto hoje. A literatura é, talvez, uma das artes mais acessíveis. Mas a facilidade para produção é compensada pela dificuldade no consumo”, observa Andrey.

Abra os olhos e ouça 
Publicando de modo independente há alguns anos, Matheus Peleteiro já tem na bagagem sete títulos. Ele conta que optou pela autopublicação ao sentir que seus leitores estavam nas redes sociais e que seus livros não teriam boa distribuição em pequenas ou médias editoras. 

“As grandes não analisariam um original meu sem intermediação de um agente ou conhecido do meio. Além disso, notei que o custo seria bem menor, conseguiria uma cota maior para divulgação e um lucro digno. Tem dado certo”,  assegura.

Embora veja o mercado literário baiano como resistente aos autores mais jovens, Peleteiro diz se sentir relativamente integrado, em parte, por estar sempre movimentando a cena local com seus projetos. O mais novo deles  é um podcast, o 1LeroPodcast, que traz entrevistas com escritores contemporâneos de todo o país e pode ser ouvido na plataforma de streaming Spotify. “O que me satisfaz é explorar outros lados de grandes autores e produzir documentos para que compreendam nosso presente no futuro”, diz.

Maria Luiza criou sua própria editora (Foto: Divulgação)

O podcast também tem sido uma das ferramentas de difusão da literatura usadas pelo poeta Anderson Shon, 33. Formado em comunicação e fissurado em tecnologia, ele produziu dois livros de modo independente e costuma transitar entre audiovisual, música e arte de rua, além de escrever crônicas, artigos e resenhas. “A limitação dentro da literatura não faz sentido. Livro e livre são quase a mesma palavra, não deve ser só coincidência”, diz. O podcast O que Você Está Lendo? está disponível no Spotify e recebe autores para papos sobre livros, a partir de suas referências pessoais.

Recentemente, Shon vivenciou duas experiências que fizeram valer a vocação, despertada pela leitura dos livros paradidáticos na infância. Uma delas foi a adaptação de um de seus contos, O Dia do Yuri, transformado em curta-metragem. O outro foi o convite para uma exposição urbana de textos poéticos na Bibliometrô, localizada no Acesso Norte. “Muita gente ficou emocionada ao ver um poeta negro em um local de destaque. Essa exposição fez com que meus versos chegassem bem mais longe”, diz.

Artista da palavra, Deisiane Barbosa, 28, também expande a literatura, experimentando formatos em narrativas multifacetadas, cartões postais, cartas e performances. Convidada pela Segundo Selo —braço da editora Organismo — para integrar uma coleção, ela segue apostando na autopublicação. “Isso, de certo modo, me deixa mais livre para vivenciar meus próprios ritmos de lidar com os fazeres criativos, para experimentar modos de lançá-los  ao mundo, para criar e sentir meus próprios tempos”, explica.

Pela Andarilha Edições, Deisiane publicou os livros Cartas à Tereza: Fragmentos de Uma Correspondência Incompleta (2015) e Desavesso (2016), além de Refugos, em 2019, pela Segundo Selo. 

“Percebo o cenário cultural, literário, pouco a pouco, abrindo-se mais a, compondo-se mais pela diversidade — é um processo ainda de caminhada lenta, mas teimosa, irreverente, irrefreável. Tenho gostado de ver, por exemplo, pessoas como eu, mulheres, negras, lésbicas, periféricas, botando a cara no sol”.
  
Nossos planos são bons
Com criatividade, o mercado literário em todo o mundo foi se adaptando aos poucos às limitações impostas pela pandemia, que se alonga indefinidamente. No Brasil, editores não titubearam diante do dilema: lançar ou não seus livros de modo virtual? 

Lançar, claro. E felizmente, bons títulos vieram à luz nas telas de nossos notebooks e smartphones e chegaram às nossas mãos em formato físico. A pré-venda e as vaquinhas online viabilizaram diversas publicações em uma tendência que deve se manter.   

Mesmo sem lançamentos presenciais, onde a maioria das vendas é feita, muitos jovens autores toparam o desafio da estreia. Julia Grilo foi uma delas. Aos 21, lançou Cães, editado pela Penalux, na cara e na coragem, com orelha assinada por Laerte e a certeza de que era a hora. 

Julia Grilo, 21 anos, lançou seu primeiro livro em meio à pandemia (Foto: Divulgação)

“Ser escritora publicada é muito divertido —  e eu imagino que seria mais ainda fora dessa quarentena quase apocalíptica, porque boa parte da experiência pós-publicação é mediada pela alteridade, pelo contato com as pessoas”, diz.

As escritoras Letícia Carvalho, 26, e Hosanna Almeida, 27, também caíram no mundo literário pela primeira vez durante a pandemia, com livros editados pela Paralelo 13s e pela Urutau, respectivamente. Para Letícia, Eu Devia Ter Visto Isto Chegando, seu primeiro título, foi, como ela conta, um processo de reconhecimento da própria escrita. 
“Confesso que queria muito estar tendo essa experiência na presença física das pessoas, mas, ainda assim, esses primeiros meses pós-lançamento estão sendo de comemoração”, diz.

No começo da crise sanitária, Hosanna Almeida recorreu a um financiamento coletivo online para editar A Anatomia dos Parênteses, livro de poemas maturado lenta e cuidadosamente pela autora durante anos. “Estávamos todos ainda tentando entender o que era esse vírus, com todas as implicações diretas da pandemia... Achava que não conseguiria. Após o lançamento e os envios, vieram as trocas com outras autoras e autores baianos e de outros estados. Boas conexões e aprendizagem”, conta.

Escrevendo o seu primeiro romance em plena pandemia, Luara Batalha, 33, deixou de lado temporariamente os livros técnicos voltados para concursos, aos quais se dedicava como engenheira. Autora de contos e crônicas, ela também participa de Soteropolitanos, publicada em 2020, e de uma nova antologia que será lançada ainda este ano, reunindo autores de vários estados. As distâncias, diz, sempre existiram. “As redes sociais ajudam bastante nesse processo porque amplificam o alcance da palavra”.

Tocando em frente
A maturação do texto fez com que, só depois de três anos de escritas e reescritas, Evanilton Gonçalves, 34, experimentasse a sensação de estar em contato com os leitores de seu segundo livro, o romance O Coração em Outra América, editado pela Paralelo 13s.

 O encontro virtual, mediado pelo escritor pernambucano Marcelino Freire aconteceu este mês e selou a expectativa em torno do autor de Ensinamentos Supérfluos: Coisas que Desaprendi com o Mundo, publicado pela mesma editora em 2017.

Vivenciando o penoso distanciamento provocado pela pandemia, ele diz que a literatura ocupa um lugar especial em sua vida por ser um exercício de liberdade. “No sentido pleno da palavra. Por causa da literatura, hoje em minha vida, não só como leitor, mas também como escritor, estou em movimento pelo mundo”. Também encarando o segundo lançamento, Com as Mãos Atadas e como Quem Pisa em Ovos, pela Paralelo 13s, o poeta Esteban Rodrigues, 24, fez sua estreia em 2018 pela Padê, com Sal a Gosto.

Poeta Esteban Rodrigues, 24, lançou primeiro livro em 2018 (Foto: Divulgação)

Filho da poeta Vania Melo, Esteban convive desde a infância com a literatura em casa e escreve poemas desde a adolescência, muito embora, antes, pensasse ser um corpo estranho dentro da literatura nacional, pelo fato de ser um escritor trans. “A publicação pela Padê me abriu um horizonte ainda não explorado: literaturas LGBTs dissidentes e não brancas, de espaços semelhantes, experiências semelhantes, mas estéticas completamente diferentes em formas expressivas”, conta.

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