Bordadeiras contam como superaram estresse, depressão e outras dores

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08.07.2019, 06:00:00
Atualizado: 08.07.2019, 08:50:03
(Foto: Divulgação)

Bordadeiras contam como superaram estresse, depressão e outras dores

Trabalho manual melhora qualidade de vida; veja onde encontrar oficinas e exposições sobre o tema

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Raimunda Rocha, 66 anos, sempre reclamava de dor no corpo. As amigas, então, tiveram uma ideia: deitaram a vendedora no chão e desenharam o contorno do seu corpo em um tecido. A brincadeira era bordar o desenho e “levar todos os problemas embora”. “Tenho três hérnias de disco, problema de artrose e por isso surgiu esse bordado do meu corpo. Elas usaram linhas coloridas ‘pra Rai ficar melhor’”, lembra Raimunda, rindo da “cura”.

O bordado não fez milagre, mas deu força a Rai para enfrentar muitas dores. Isso porque a moradora de Sussuarana faz parte de um grupo de bordadeiras do bairro há pelo menos seis anos e vê a prática como aliada do bem-estar.

“Na hora que a gente está bordando, a gente esquece tudo. Esquece que está doente, esquece da dor...”, explica, sobre o projeto Bordar os Sonhos, que acontece em Sussuarana todas as terças-feiras, desde 2013.

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Entre as coisas que mais gosta de bordar, estão os pássaros, “porque simbolizam a paz”, e as paisagens, porque Rai adora “estar em um lugar sossegado, vendo só o horizonte: é muito bom”. O bordado de Rai e de outras nove vizinhas de bairro poderão ser vistos de perto na exposição Bordar os Sonhos: O Ponto e A Linha no Bordado Contemporâneo, que será aberta na RV Cultura e Arte, na quarta-feira.

São 50 obras de bordado livre que resultam do projeto Bordar os Sonhos, idealizado pela artista visual e psicóloga Flávia Bomfim. “O bordado é uma experiência muito positiva, é como se fosse uma terapia. É o momento que a gente se encontra, conversa, dá risada. Não é só o bordado, é o momento de estar junto. Quando chega em uma certa idade, a gente tem que botar a cabeça pra funcionar”, conta Rai, com bom humor.

Terapia
Apesar de não usar o bordado como terapia, Flávia Bomfim reconhece que esse tipo de trabalho manual pode ser terapêutico. Especialista em psicologia comunitária, ela conta que isso é visto nos encontros semanais realizados no Centro Comunitário Cultural de Sussuarana: enquanto uma costura e solta o tema, outra lembra do “traste” e fura o dedo, ou pondera algo e desembola a linha.

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Não vou tratar ninguém, mas muitas vezes rola um tipo de mediação nas oficinas”, explica Flávia, 39, que reconhece os benefícios da atividade para a saúde mental. “Não é um grupo terapêutico, mas como pessoa que borda todos os dias, sei que o lance de estar concentrada, respirando sozinha, te faz dar uma desacelerada. Às vezes, desloca você da repetição cotidiana, coloca em um estado de criação com cores e formas que faz botar pra fora o que sente”, reflete.

Ao escutar uma das bordadeiras narrar os medos da infância, a escritora, curadora e educadora paulista Valquíria Prates, 42, passou a refletir sobre os seus próprios medos. Convidada para uma imersão com as artistas do projeto Bordar os Sonhos, Valquíria trabalhou a narrativa como assunto e o fazer junto como metodologia. O resultado foi um livro feito a partir de fragmentos de histórias das dez bordadeiras, transformados em imagens.

“Estar junto com outras pessoas fazendo arte é uma das situações que podem levar à experiência de trocas profundas. Isso se deve a uma abertura sensível de qualquer pessoa que se coloque na situação de disponibilidade para o outro, a partir de si mesmo”, destaca Valquíria, que estuda o ato de “fazer junto”. “Transbordamentos acontecem a partir do contato com outras formas de ver o mundo e também da percepção de ser capaz de criar coisas que em muitos casos a pessoa não acreditava que poderia”, completa.

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Superação
Pessoas com depressão, síndrome do pânico e transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) relataram que o bordado pode e deve ser usado como ferramenta de superação. “Já ouvimos várias histórias. Muitos participantes das oficinas que realizamos pelo Brasil dizem que o bordado acalma, tranquiliza. Ele é um instrumento que ajuda muito o bem-estar. É como uma meditação, uma oração”, compara a educadora, psicóloga e bordadeira mineira Luana Dumont, 44.

Sua oficina, que chega em Salvador em setembro, alterna a arte do bordado com contação de histórias e cantigas de roda, além de compartilhar o legado da Família Dumont, uma das mais famosas no bordado brasileiro. Responsável pela ilustração do álbum Pirata (2007), de Maria Bethânia, o Grupo Matizes Dumont também assinou o cenário do show Abraçar e Agradecer (2015), com o qual a cantora baiana comemorou 50 anos de carreira.

“O bordado na nossa família é um processo passado de geração para geração. Quando a gente completava sete anos, momento da alfabetização, minha avó nos ensinava a bordar de forma muito intuitiva”, lembra. Por isso, quando as pessoas bordam,  a memória afetiva ganha força, segundo Luana. “Convivi com minha avó trabalhando com linhas, tesouras, então acabei escolhendo o bordado como processo de autoconhecimento, relaxamento e meditação. Acredito que todo trabalho manual proporciona esse bem-estar”, reflete.

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Sem tempo
Assim como Luana, a artista plástica, bordadeira e professora Tininha Llanos, 41, também é filha de artista e aprendeu a técnica bem pequena. Em diferentes momentos, ajudou a mãe a bordar figurinos em casa. “Para ela, sempre foi algo prazeroso, porém era trabalho”, lembra Tininha, que hoje compartilha o conhecimento herdado no LaTina Atelier, no Santo Antônio Além do Carmo.

Mineira que mora na Bahia há 22 anos, Tininha também viu no bordado um aliado para enfrentar problemas como estresse e depressão. “Busquei algo que me desse bem- estar. Curioso é que fazer trabalhos manuais no mundo acelerado de hoje parece coisa de desocupado”, critica. Mas o que vê em sua aula é diferente: arquitetos, engenheiros e outros profissionais buscando no bordado “uma forma de apaziguar os problemas da contemporaneidade”.

Além de encontrar um meio de fuga do estresse, seus alunos descobrem um processo de autoconhecimento que passa pelo campo da introspecção, de “poder ficar ali junto aos seus pensamentos, reflexivo”. “É como se fosse uma terapia”, resume Tininha, enquanto cita também os benefícios cognitivos e sensoriais proporcionados pelo trabalho manual.

“O bordado faz a gente dar mais valor ao tempo, se reconectar com a natureza, com a terra, porque a gente está desconectado. Quando você borda, você está se voltando à conexão do seu ser, ao tempo da natureza. O bordado não fica pronto rápido, leva tempo. Então é uma conexão com o seu tempo e com a existência”, reflete a artista.

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Oficinas de bordado

Flávia Bomfim
Curso: Dias 20 e 21
Vagas: 6 por turma
Valor: R$ 150. Com material.
Onde: Aflitos
Informações: 9 8810-2306

LaTina Atelier
Curso: Dias 20 ou 21 (aula 1); 3/8 ou 4/8 (aula 2); 31/8 ou 1/9 (aula 3); 8/9 ou 14/9 (aula 4)
Valor: R$ 170 (avulso) ou R$ 500 (4 aulas). Com material.
Vagas: 5 por turma
Onde: Santo Antônio Além do Carmo
Informações: Sympla

Ateliê Flor de Pano
Curso fixo: Segundas-feiras, às 14h
Valor: R$ 200 (4 aulas), R$ 65 (avulso). Sem material.
Curso Matizes Dumont: 27/9, 28/9 e 29/9.
Valor: R$ 395 (27) e R$ 660 (28 e 29). Com material.
Onde: Pituba
Informações: 9 9115-2086

Bordar os Sonhos

Exposição coletiva O Ponto e A Linha no Bordado Contemporâneo, com Anália, Deyse, Jucimar, Lindaura, Lita, Luzia, Maria Isabel, Mariazinha, Neuza e Raimunda
Exposição individual 'Com quantos pontos se desfaz um rosto?', de Flávia Bomfim
Quando: Abertura: quarta-feira (10/7), às 19h. Visitação: de segunda a sexta, 10h às 18h; sábados, 10h às 14h. Até 31/8.
Onde: RV Cultura e Arte (Rio Vermelho)

Visita guiada: Dias 17 e 24, às 15h30. Inscrição no local (15 vagas)

Colóquio Conversa Têxtil: sexta-feira (12/7), às 18h30. Participam: Flávia Bomfim ao lado de artistas convidados, como Marcelo Gandhi, Tininha Llanos e Vânia Medeiros.

Entrada gratuita

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