Brasileiros na Ásia: mapa interativo dos jogadores pelo mundo

esportes
31.05.2020, 05:06:00
Atualizado: 04.06.2020, 02:14:50

Brasileiros na Ásia: mapa interativo dos jogadores pelo mundo

Tem atleta em 26 países do continente, dos badalados Emirados Árabes até os inusitados Camboja e Malásia

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O Brasil é o maior celeiro de jogadores no futebol mundial. No ano passado, 1.988 atletas nascidos aqui fizeram transferências internacionais, incluindo os que deixaram o país e os que já estavam no exterior e trocaram de lugar no estrangeiro. O número consta no relatório anual da Fifa, divulgado em janeiro, e significa mais que o dobro da segunda nacionalidade mais presentes: foram 946 argentinos.

O sonho de muitos é brilhar nos gramados europeus, e uma mostra disso é que o maior sentido das transferências internacionais é do Brasil para Portugal, caminho feito por 228 jogadores em 2019. Porta de entrada no Velho Mundo e onde brasileiros não constam na cota de estrangeiros por se tratar de uma ex-colônia, Portugal tem 129 só na primeira divisão nacional na atual temporada. Mas muitos não ficam no prestigiado mercado europeu. E aí a Ásia entra na história.

Veja mapa interativo (a reportagem continua após o mapa)

O maior continente do planeta, onde vivem cerca de 60% da população global, se consolidou como destino de muitos jogadores brasileiros. São 342 distribuídos somente na primeira divisão de pelo menos 26 países asiáticos, como detalhado no mapa acima (incluindo Hong Kong e Macau, regiões administrativas especiais da China que têm seleções nacionais filiadas à Fifa e campeonatos próprios). No caso dos países com território em dois continentes, foi respeitada a escolha futebolística de cada associação. Assim, Rússia e Turquia, por exemplo, que são membros da Uefa (União das Associações Europeias de Futebol, na sigla em inglês), não entram na contagem.

O Japão é quem acolhe mais brasileiros na sua liga principal, a J-League, que é a mais forte do continente. São 52 por lá, equivalente a 15% do total. Emirados Árabes vêm em seguida, com 44, e a China fecha o top 3, com 30. Ou seja, 36,7% estão nessas três nações que, junto com a Arábia Saudita e o Catar, formam o quinteto onde muitas vezes os salários são estratosféricos, suficientes para o jogador arrumar a vida da família financeiramente e, em alguns casos, por mais de uma geração. A pesquisa aprofundada mostra que lugares exóticos para o futebol também são muito procurados, como Tailândia, Hong Kong e Indonésia, cada um desses com mais de 20 brasileiros.

“Zico ajudou muito nesse processo, foi o maior ídolo lá. E Toninho Cerezo, que fez um brilhante trabalho junto com Mário (Augusto), preparador físico. Isso contribuiu muito para aumentar nossa credibilidade no Japão”, analisa o agente Antônio Gustavo, o Guga, sócio da empresa Antonius Assessoria Esportiva, que fez seu primeiro negócio para a Terra do Sol Nascente em 1998, quando intermediou a venda do lateral direito Dedimar, revelado no Vitória, do Palmeiras para o Jubilo Iwata. Atualmente, Dedimar é observador técnico do Palmeiras.

O atacante Mateus, do Nagoya Grampus, entre os empresários Antônio Gustavo e Antônio Terceiro (Foto: Acervo pessoal)

Ao longo desses 22 anos, Guga faz uma estimativa de ter levado mais de 50 jogadores para o Japão. No portifólio, destaques como Jorge Wagner, Paulo Isidoro, Marcelo Ramos, Ueslei, Nadson, Fabão, Neto Baiano e Leandro Domingues (este ainda em atividade, aos 36 anos, no Yokohama), e outros ainda em busca de afirmação na carreira, como foi o caso do atacante Mateus, emprestado pelo Bahia ao Omiya Ardija em 2014, em 2015 e vendido em 2017. Campeão japonês pelo Yokohama Marinos em 2019, ele agora está com 25 anos e defende o Nagoya Grampus, mesmo time do atacante Jô, do zagueiro João Schmidt e do meia Gabriel Xavier (ex-Vitória).

Uma coisa nunca mudou: “Financeiramente falando, o Japão é muito sério. O que acerta, cumpre. Isso traz uma tranquilidade muito grande”, atesta Guga. A pedido do CORREIO, ele traçou o perfil de jogador que se encaixa bem no mercado nipônico: “Gostam de atletas rápidos e obedientes taticamente. E atacantes de área fortes e trombadores”.

Já no Oriente Médio, há de se constatar que o popularmente chamado “mundo árabe” é composto, na verdade, por vários mundos. Destaque para a trinca formada por Arábia Saudita, Emirados Árabes e Catar, países que pagam salários altíssimos - estamos falando na casa dos milhões de dólares por ano - abaixo somente da China, que agitou o mercado ao longo desta década com investimento robusto no projeto de crescimento da modalidade.

Para esmiuçar a realidade do Golfo Pérsico, o CORREIO conversou com Flávio Viana, um ex-jogador que, após pendurar as chuteiras em 2012, montou uma empresa de agenciamento de atletas e fez seu primeiro negócio para a Arábia Saudita em 2013. Na época, levou Jandson dos Santos, um quase desconhecido atacante de passagem por Avaí, Juventude e América-MG (hoje já aposentado), para o também modesto Najran. O desempenho dele abriu as portas do deserto para o empresário na região, e hoje a sede da Kiraht Sports fica em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

“Nos Emirados tem jogador ganhando 3 milhões de euros por ano. Na Arábia, até 6 milhões por ano”, exemplifica Flávio - quando o jogador é europeu, o contrato é feito em euro; brasileiro costuma assinar em dólar. “Kuwait e Irã (país de etnia persa, não árabe) ainda pagam bem, mas no Irã tem muita inadimplência. Omã e Bahrein eu já não trabalho tanto porque são países que pagam pouco e com exigência alta para o que pagam”, explica, citando alguns dos países do Golfo Pérsico.

Flávio Viana com Péricles Chamusca em Dubai, Emirados Árabes. Técnico baiano treina o Al Faisaly, da vizinha Arábia Saudita (Foto: Acervo pessoal)

Irã: clássico com 90 mil pessoas e torcida pulsante

O zagueiro Robson, revelado pelo Bahia e hoje no Botafogo-SP, já jogou em quatro países estrangeiros mesmo tendo ainda 26 anos. Foram três na Ásia: Japão, Irã e Emirados Árabes, além de Portugal na Europa.

Quando tinha 19 anos, chegou ainda com idade de júnior ao Kawasaki Frontale, emprestado pelo tricolor em 2013. Ficou por cinco meses e praticamente não teve oportunidade de jogar, mas o que viu foi o suficiente para esse capixaba ser só elogios ao falar do Japão. “É um país incrível. A educação deles é algo que fica marcado. Eu falo assim do país, não é nem dos clubes”, pontua.

A chance no Irã surgiu também ainda jovem, e em um momento delicado da carreira. O mês era julho de 2016 e ele tinha 22 anos. Titular do Bahia ao longo de 2015 e no início de 2016, Robson havia perdido a posição com a contratação de Lucas Fonseca e Jackson. Por aqui, o horizonte não se apresentava animador para o jogador que, três meses antes, havia falhado em um lance contra o Santa Cruz que resultou em gol e eliminação na semifinal da Copa do Nordeste, além de ter integrado o elenco que não conseguira o acesso à Série A no ano anterior.

“Na época eu tive a proposta do Esteghlal, do Irã, e de dois clubes aqui do Brasil, que eram da Série B. Financeiramente lá era melhor, e aceitei também porque eu queria abrir mercado, sair do país. A ideia principal era essa”, conta Robson.

"Em relação à cultura, é um pessoal que segue bem as leis (do islamismo), uma religião totalmente diferente da nossa, mas eu nunca tive dificuldade para me adaptar aos lugares. Lógico que existem dificuldades, no começo você sofre um pouquinho, mas quem tem um objetivo e quer alcançar tem que ultrapassar essas barreiras. Lá, por exemplo, o homem é obrigado a usar calça ao sair na rua, a mulher tem que andar de burca. Imagina: um calor no verão e você de calça pra cima e pra baixo", lembra. Bebida alcoólica e carne de porco são proibidas.

Do Irã, no entanto, a lembrança mais viva que ele guarda é a da paixão do povo por futebol: do público de 80 mil pessoas em dia de clássico contra o Persépolis, da torcida que ia a hotéis e aeroportos à espera da delegação. Intensidade e pressão que não são vistas nos Emirados Árabes, país situado na outra margem do Golfo Pérsico, onde o zagueiro vestiu as camisas do Baniyas e do Khorfakkan. “No Irã é incrível como eles gostam do jogador e são apaixonados pelo clube. Quando eu fui eu era jovem, tinha 22 anos, e foi uma experiência incrível. Hoje, aos 26, se eu tivesse na mesma situação, com certeza iria, sem sombra de dúvida”, diz.

Além do comportamento do torcedor, Robson aponta diferenças no estilo de jogo praticado nos dois países: “No Irã é um futebol mais competitivo fisicamente, eles são mais fortes. É um futebol mais intenso, muito contato e força física. Nos Emirados é um futebol mais cadenciado, mais técnico. É bem diferente”.

Robson, o último em pé da esquerda para a direita, em seu primeiro clássico iraniano entre Esteghlal e Persépolis (Foto: Reprodução / Instagram)

Sudeste Asiático: Malásia, Tailândia

Japão, Arábia Saudita e recentemente China são países para onde o torcedor brasileiro já se acostumou a ver muitos jogadores indo. Mas há muita bola (e dinheiro) rolando também em lugares menos midiáticos. Caso da Malásia, por exemplo. É lá onde está atualmente o zagueiro Maurício, ex-Palmeiras, Sporting, Lazio e de passagem rápida pelo Vitória em 2011.

Após empréstimos para o russo Spartak Moscou e o polonês Legia Varsóvia, Maurício rescindiu o contrato que tinha no clube italiano, onde chegou no início de 2015, e partiu para o Sudeste Asiático em outubro de 2018. Uma escolha rara motivada pela combinação oferecida pelo magnata dono do Johor, o príncipe herdeiro Tunku Ismail.

“Eu vim da Itália pra cá para conhecer o clube e, quando cheguei aqui, me surpreendi muito com a estrutura. É altíssima, de ponta. Passei por alguns clubes na Europa que não tinham a estrutura que aqui tem. O dono é um príncipe, (filho do) sultão aqui de Johor e o cara é apaixonado por futebol, pelo Campeonato Italiano também e já tinha acompanhado meu trabalho na Lazio. E o que também fez a diferença foi o lado financeiro. A proposta foi muito boa para mim e para minha família. Em relação à premiação por partida é surreal, fora do normal do futebol brasileiro ou europeu. Aqui são valores bem altos. Também me deram todas as condições de carro, casa, tudo num nível muito alto. Então a minha escolha juntou tudo”, narra o zagueiro de 31 anos, que assinou por dois anos e encaminha a renovação por mais dois. Outro brasileiro no Johor é o atacante Diogo, ex-Portuguesa.

Entre os investimentos feitos pelo príncipe herdeiro - que exibe fotos ao lado de Cristiano Ronaldo, Messi, Piqué e Beckham nas redes sociais - está o estádio Sultan Ibrahim (nome do pai dele, o sultão Tunku Ibrahim Ismail), com capacidade para 40 mil pessoas e de alto padrão, inaugurado em fevereiro, na decisão da Supercopa da Malásia. O Johor venceu o Kedah por 1x0, gol de Maurício.

O zagueiro Maurício com troféu da Copa da Malásia conquistado pelo Johor em 2019 (Foto: Reprodução / Instagram)

Já o meia-atacante Vander arrumou as malas e partiu rumo à paradisíaca Tailândia, onde chegou em 2017, logo após deixar o Vitória. Em meio a elogios ao país, o jogador de 30 anos e revelado pelo Bahia, atualmente no Bangkok United, destaca que o fator financeiro pesou para apostar numa liga inexpressiva mundialmente.

“Nem se compara com a China, mas eles pagam muito bem. Os jogadores que jogam em times grandes, como eu, que jogo em um dos três melhores times da Tailândia, recebem muito bem”, afirma.

“A diferença é a qualidade, claro, que nem se compara, mas é um futebol muito gostoso de se jogar, muito pegado, muito rápido. O futebol da Tailândia é mais rápido do que no Brasil. Lá é correria os 90 minutos. Um pouco mais violento do que o do Brasil, mas o campeonato é forte, equilibrado”, detalha Vander.

Vander em ação pelo Bangkok United antes da paralisação por causa da covid-19 (Foto: Divulgação)


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