Cantora paulista Fabiana Cozza explora cultura afro-baiana em seu quinto álbum

Música
08.06.2015, 12:34:00
Atualizado: 08.06.2015, 12:35:50

Cantora paulista Fabiana Cozza explora cultura afro-baiana em seu quinto álbum

Uma das maiores intérpretes da música brasileira, Maria Bethânia é quem assina a apresentação do disco

Em visita à casa da cantora paulista Fabiana Cozza, o músico e compositor baiano Roberto Mendes aguçou a curiosidade da artista sobre o que a Bahia tem. Durante dois meses, os amigos sentaram na cozinha e trocaram histórias, enquanto ele tocava chula e ensinava sobre o Recôncavo onde nasceu. 

Depois da estadia, que daria origem a um projeto de Roberto, Fabiana partiu de São Paulo e foi a Santo Amaro da Purificação (a 72 km de Salvador) beber na fonte do amigo e da “mestra” Maria Bethânia. “Andava bastante e observava as pessoas, porque tudo isso é música”, lembra Fabiana. 

Nascida e criada em São Paulo, Fabiana Cozza, 39 anos, interpreta composições predominantemente baianas e mergulha na diáspora africana em quinto disco da carreira, Partir (Foto: Marina Decourt/ Divulgação)

O projeto, de 2011, acabou não seguindo adiante, mas Fabiana Cozza continuou “caminhando pelo Brasil e por outros lugares do mundo, recolhendo, observando, escutando...”. Depois de quase cinco anos, a embrionária ideia foi finalmente gestada no seu quinto álbum Partir (Agô Produções). 

“É uma Bahia muito assumida nesse disco, que eu já vinha desejosa de pisar”, diz Fabiana, 39 anos, que canta a Ribeira, o Abaeté, a Barroquinha, o Pelourinho, a capoeira, os orixás e Santo Amaro. Tudo em composições de baianos como Tiganá Santana, Vicente Barreto, Jorge Portugal e o próprio Roberto Mendes, autor de cinco das 14 músicas.

“Fabiana é uma intérprete afinadíssima. Canta com doçura, quando necessário, e com firmeza, quando necessário. Me surpreendeu muito, fiquei emocionado e orgulhoso em ver a minha música tocada com zelo”, elogia Roberto Mendes, 62.

Uma das maiores intérpretes da música brasileira, Maria Bethânia é quem assina a apresentação do disco produzido por Swami Jr. “Fabiana, seu disco é lindo. Você sempre canta bonito, sempre usando com maestria seu timbre, alcance vocal, apuro nas notas, caprichosa na escolha dos músicos”, diz a cantora e fã declarada no encarte.

Maria Bethânia Elogia “canto bonito” de Fabiana e timbre “usado com maestria" 
Na apresentação do álbum, Bethânia deixa clara sua admiração: “Fabiana, seu disco é lindo. Você sempre canta bonito, sempre usando com maestria seu timbre, alcance vocal, apuro nas notas, caprichosa na escolha dos músicos. E mais do que isso, eu gosto que você cante a sua música, livre. Só a graça de Deus e suas escolhas. Isso eu sempre vou reverenciar num artista. Adoro as cantigas escolhidas por você nesse disco, a nudez dos arranjos onde sua voz passeia lisa e clara. (...) Sua fã, Maria Bethânia”.

Assim, o clima baiano é instalado no álbum de Fabiana, eterna investigadora da cultura afro-brasileira. “A Bahia, embrionariamente, recebeu os primeiros navios negreiros. Precisava ir no umbigo dessa música para poder abrir essa janela para o mundo. Por isso ela é tão presente”, ressalta Fabiana, que assina a concepção artística com Swami Jr. e Marcelino Freire.

Ouro da alma
Ao ouvinte, a paulista passa a impressão de ser de fato baiana, já que canta a Bahia de forma tão orgânica. A sensação fica mais intensa na música Voz Guia (Roberto Mendes/Jorge Portugal) que avisa: “A minha casa é a Bahia, mas o mundo é meu lugar”.

E assim Fabiana parte do berço para explorar a mãe- África, Brasil afora. Em Chicala (João Cavalcanti) fica clara a busca por essa diáspora africana no mundo, esse “ouro da alma brasileira”. “Chicala pontua muito o que é esse disco: minha travessia África- Brasil, Brasil-África”, explica a cantora de descendência angolana, por parte de pai.

“Estou cada vez mais perto da África, sim. Não só por uma escolha artística, mas de alma, de vida, de sobrevivência, urgência por entender minha alma negra, minha origem e o meu papel aqui, sem a menor demagogia. Sou uma pessoa que se investiga”, resume.

De Tiganá Santana, Fabiana regravou Mama Kalunga, música que dá nome ao disco da “grande amiga Virgínia Rodrigues”. Além dela, de língua africana, também gravou Le Mali Chez la Carte Invisible, na qual critica, em francês, o racismo sofrido pelos africanos residentes na Europa.

A cultura negra é cantada, ainda, em letras dos cariocas Paulo César Pinheiro, Moyseis Marques e Vidal Assis, do paraense Leandro Medina, da gaúcha Gisele De Santi e do mineiro Sérgio Pererê. “Falar sobre cultura negra, muitos falam. Até porque existe certa propaganda, no mundo do politicamente correto, em prol do negro. Mas tenho dúvida do contato real que as pessoas têm. Precisamos que esse discurso tenha ressonância efetiva na vida das pessoas, para que cada vez mais mate o racismo”, critica.

Além mar
Após se dedicar ao repertório da cantora mineira Clara Nunes (1942-1983) - no CD/DVD Canto sagrado (2013) -, Fabiana passa agora para um disco “cuja sonoridade permite ir para fora, partir para além da casa da gente”. 

Esse é o seu primeiro álbum distribuído fora do Brasil e isso é fruto da relação mais íntima com a Europa, que tece desde 2006. Além dos constantes shows no continente, como a turnê com o músico baiano Jurandir Santana (que também toca em Partir), Fabiana tem estudado interpretação e voz com uma professora francesa.

Isso permitiu explorar mais a suavidade na voz. “Em termo de gestual, estou mais econômica também”, reforça a artista, ao lembrar da dica do ator e diretor Elias Andreato (que faz a direção cênica do seu show): “Menos é mais”.

França, Alemanha, Londres, Itália e Holanda são algumas das rotas pelas quais a turnê Partir vai passar, depois de Belo Horizonte e São Paulo. Em agosto, ela segue para o Rio e só então Fabiana pensará na musa inspiradora. “Estou esperando um santo parceiro me levar para a Bahia! (risos)”.

Consciência
Nascida e criada em família musical, Fabiana Cozza acumula cinco álbuns e dois DVDs em 18 anos de carreira. Tudo iniciado com muita naturalidade nas rodas de samba no quintal da avó e nos almoços de domingo.

“Tive uma infância muito musical, não só por praticar e vivenciar música na minha casa, mas por escutar também”, lembra Fabiana, filha de professora “que cantava para crianças” e de um pai que foi intérprete de escola de samba durante 15 anos.

O estímulo estava também nos inúmeros discos de casa (veja abaixo os cinco preferidos). Então, não demorou para Fabiana começar a cantar na Igreja Católica e, com 10 anos, virar solista de coral. Início de um futuro marcado pela interpretação doce e intensa. “O Brasil carece de interpretação. Tem cantoras, mas não intérpretes completas. Fabiana é uma grande intérprete”, elogia Roberto Mendes.

Orgulhosa, Fabiana diz que busca, hoje, uma ampliação de sua “consciência artística, que passa por essa mulher, negra, solteira e sem filhos, em uma sociedade machista”. “Me preocupo de que forma posso me tornar uma cidadã que contribui efetivamente com o seu trabalho. Não faço música negra por questão estética. Minha escolha por esse discurso é de alma”, finaliza.

CRÍTICA
Ancestralidade com elegância (por Hagamenon Brito*)

Terra mater do Brasil, a Bahia já deu régua e compasso para muita gente boa que busca entender sua origem, sua história nesses trópicos. Paulista, Fabiana Cozza atende ao chamado da sua ancestralidade em Partir - e faz isso com uma beleza estética que consolida e amplia sua presença na MPB.

Intérprete naturalmente forte, Fabiana entende melhor o seu poder vocal e exercita a sabedoria, às vezes fundamental, de que menos é mais nas 14 canções do disco produzido por Swami Jr. Cinco delas compostas por Roberto Mendes, mestre dos ritmos do Recôncavo Baiano, região visitada por Fabiana  nesse seu mergulho pelas estradas brasileiras (e que também vão dar em portos do Caribe, Cabo Verde, Angola).

Nesse partir e chegar, ela também canta, entre outros, João Cavalcanti, Moyséis Marques,  Leandro Medina, Vicente Barreto, Paulo César Pinheiro, Gisele De Santi e o baiano Tiganá Santana, autor de Le Mali Chez la Carte Invisible e Mama Kalunga. Ancestral e universal, Partir é o momento maior dessa grande intérprete.

*Editor e crítico musical do CORREIO


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