Capinan, baiano letrista de clássicos da MPB, completa 80 anos

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19.02.2021, 09:01:00
Atualizado: 19.02.2021, 13:29:54
Capinan nasceu em Pedras, distrito de Entre Rios, interior da Bahia (Jamile Coelho/divulgação)

Capinan, baiano letrista de clássicos da MPB, completa 80 anos

Ele emprestou sua poesia a Soy Loco Por Ti América e Papel Marchê

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O Brasil, mesmo com sua riquíssima música popular, não é um país justo com seus letristas, que, muitas vezes, deveriam ter o mesmo reconhecimento que seus intérpretes têm. E olha que não falta gente muito boa: Aldir Blanc, Hermínio Bello de Carvalho, Paulo César Pinheiro, Humberto Teixeira...

Aqui na Bahia, no povoado de Pedras, nasceu um poeta que está por trás de alguns clássicos da música brasileira: José Carlos Capinan, que completa hoje 80 anos. A data será celebrada às 19h, em uma live no YouTube, com a participação dele e de convidados. Capinan emprestou sua poesia a canções que marcaram a história da MPB, como Soy Loco por Ti, América, hino do tropicalismo composto com Gilberto Gil; e Ponteio, parceria com Edu Lobo, vencedora do  III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. 

Com Gil, Capinan compôs Soy Loco Por Ti América (Marina Silva/CORREIO)

Tem ainda Coração Imprudente, com Paulinho da Viola; Moça Bonita, com Geraldo Azevedo, e Papel Marchê, com João Bosco. Ponteio  fez muito sucesso e rendeu reconhecimento a Capinan. Mas pouco dinheiro, observa o poeta:

“Já me disseram que teve gente que viveu em Nova York com os direitos da música, mas eu recebi muito pouco pelos direitos de execução e pelos direitos fonomecânicos”.

Diabetes
Hoje, os direitos autorais de suas músicas, mesmo tendo sido (e ainda sendo) muito executadas, mal pagam os remédios que Capinan compra para tratar sua diabetes: “Um diabético vive ‘drogado’, porque a diabetes atinge todos os órgãos. Tem que ter droga para olho, pro tesão, pra andar direito, comer... Pelo menos, os direitos autorais me permitem comprar os remédios, que são muito caros. Gasto mais de R$ 400 por mês. E o direito autoral mal dá pra cobrir isso”, conta. E quem fala é alguém que conhece de saúde: Capinan é formado em medicina. Concluiu o curso nos anos 1980, quando já havia abandonado a faculdade de direito.

Se a faculdade de direito não serviu para lhe dar seu primeiro canudo, ao menos prestou um grande serviço ao tropicalismo: foi naquele período que Capinan entrou para o CPC, o Centro Popular de Cultura, ligado à União Nacional dos Estudantes (UNE). Ali, teve os primeiros contatos com os futuros tropicalistas Gilberto Gil, Caetano Veloso e Tom Zé.

Tom Zé escreveu a peça Bumba Meu Boi com Capinan (foto: Andre Contigo/divulgação)

“Tive uma participação muito grande no CPC, onde cheguei a escrever uma peça de teatro com Tom Zé [o musical Bumba Meu Boi]. Depois, tive que sair de Salvador e não completei o curso de direito”, lembra Capinan. De Salvador, foi para São Paulo e, depois, para o Rio de Janeiro, onde surgiram as parcerias que marcaram a história da MPB.

Com Gil, fez Miserere Nobis, que abre, com toda honra, o fundamental álbum Tropicália ou Panis et Circencis, de 1968. No disco, é o próprio Gil que a interpreta.

Ponteio
Mas um ano antes de Miserere Nobis ser lançada, Capinan já havia deixado sua marca na música brasileira, com Ponteio. O letrista morava no Rio de Janeiro, perto de Edu Lobo, seu parceiro e intérprete da canção: “Ele morava um pouquinho adiante, na outra rua e a gente se reunia lá para compor. Ele compôs Ponteio nos últimos instantes do Festival da Record, na véspera”.

No festival de 1967, além de receber o troféu de campeão, Capinan teve outro trunfo: apresentou a Gil, no dia da final, a letra daquele que é, provavelmente, o maior clássico do letrista: Soy Loco Por Ti, América, gravada por Caetano em 1968. Capinan ressalta a importância dessa canção para o tropicalismo: “Ela já indica o rompimento com o lado mais tradicional da música brasileira. É uma rumba, tem claramente influência caribenha”.

Soy Loco por Ti, América foi composta no dia da morte de Che Guevara, 9 de outubro, 12 dias antes do encerramento do Festival da Record. A homenagem ao revolucionário passou pela Censura de forma surpreendente. Os versos “El nombre del hombre muerto/Ya no se puede decirlo” - em tradução literal: “O nome do homem morto já não se pode dizer” - são uma referência ao guerrilheiro. 

“Eu era contra a luta armada. Mas, apesar disso, havia uma imagem romântica de Che Guevara muito forte. Foi um ícone da luta pelo socialismo, pela liberdade. Na guerrilha, venceu uma ditadura em Cuba. Foi um revolucionário autêntico”, afirma.

O poeta voltou à Bahia nos anos 1970 para, mais tarde, formar-se em medicina, embora nunca tenha exercido a profissão. Começou o curso na Escola de Medicina de Petrópolis e terminou aqui, na Ufba. Mas optou mesmo por ser artista. Diz que não se sentia capaz de vestir o jaleco profissional: “Medicina é um negócio muito complicado, muito sério”.

Não retomou o curso de direito. Mas tem daquela faculdade outra lembrança importante, além da atuação no CPC: foi lá que conheceu Raul Chaves, um professor de direito penal que o livraria de ser preso. Capinan foi intimado a prestar depoimento em um inquérito sobre a peça Bumba Meu Boi, em que a Censura estava de olho. Já morava em São Paulo, mas teve que vir a Salvador para depor em 1964, no Forte do Monte Serrat, na Cidade Baixa. Foi Raul Chaves que deu entrada em um habeas corpus, que garantiu a Capinan sua liberdade.

Secretário
Nos anos 1980, já formado em medicina, foi secretário de cultura do governo de Waldir Pires, eleito em 1986. “Era um governo de transição da ditadura para a democracia e os recursos eram limitados. A cultura não tinha tanta importância para os governos militares. Não tinha nem papel para escrever”, lembra-se.

Agora, Capinan ocupa outro cargo na cultura: é o diretor do Museu da Cultura Nacional Afro-Brasileira (Muncab), no Centro Histórico. Lamenta viver uma situação parecida com aquela do tempo em que foi secretário: há alguns meses o museu corria risco de ser fechado por falta de verba, que deveria vir do governo federal. O salário dos vigilantes era pago por voluntários. O dinheiro finalmente chegou no fim do ano passado, o que vai dando uma sobrevida ao Muncab.

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