Carlinhos Brown e Deborah Colker juntos pela Cura

entretenimento
17.04.2021, 07:00:00
Carlinhos Brown e Deborah Colker nos ensaios de Cura (Foto: Divulgação)

Carlinhos Brown e Deborah Colker juntos pela Cura

Músico baiano assina a trilha sonora do próximo espetáculo da premiada coreógrafa

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Ainda em 2018, ano em que a humanidade caminhava livre da pandemia, a bailarina e coreógrafa Deborah Colker começou a pensar o novo trabalho de sua companhia de dança, que batizou com o nome de Cura.  

O espetáculo - que estava previsto para estrear no começo deste ano, em Londres, na Inglaterra, teve de ser adiado com o avanço do coronavírus pelo mundo – está sendo desenvolvido em parceria com o cantor, compositor e instrumentista baiano Carlinhos Brown, que assina a trilha sonora composta especialmente para a montagem.

Desde 2019, a dupla de artistas vem tendo encontros constantes – ora na sede da companhia de dança da coreógrafa, no Rio, ora no estúdio Ilha dos Sapos, no Candeal, em Salvador - para juntos desenvolverem o trabalho que arrisca chegar ao Brasil – ainda sem data definida - pela Bahia. Isso se a Cura já tiver sido obtida pela ciência.

Ao longo dos últimos dois anos, o Cacique do Candeal foi compondo, compondo, até receber o sinal verde da coreógrafa para parar. “Na verdade, no espetáculo cabem 12 composições, então já está sobrando (risos). Graças a Deus, porque Deborah é muito luminosa e a gente sabia que entre os experimentos fomos retrabalhando muitas coisas e a partir deles nós chegamos à trilha final”, conta o músico.

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Carlinhos Brown e Deborah Colker no estúdio Ilha dos Sapos, no Candeal (Foto: Divulgação

Parceria visceral

A parceria entre os dois – garantem - não poderia ter fluído melhor.  De acordo com Déborah Colker, que teve a ideia do espetáculo a partir de uma experiência pessoal dolorosa (quando teve que lidar com a notícia de que seu neto Theo, de 11 anos, havia sido diagnosticado com epidermólise bolhosa  - doença que provoca  feridas na pele, provocadas por qualquer atrito), o convívio com o músico tem sido muito intenso.

“O encontro com Brown foi muito visceral, profundo mesmo. Embora já nos conhecêssemos há muito tempo, neste processo conjunto de criação, descobrimos muitas afinidades como a nossa busca pela cura da dor, a cura do que não tem cura. Enfim, falamos a mesma linguagem”, conta a artista que, assim como o parceiro, é sagitariana.

Para Brown, que já admirava o trabalho da coreógrafa, a exigência dela e a musicalidade que ela traz, faz toda diferença. “E isso é perceptível na qualidade dos movimentos e nos bailarinos que trabalham com ela também”. Ele afirma que o que mais lhe chamou atenção em todo esse processo de criação foi a liberdade que a coreógrafa lhe deu para criar. “E o melhor de tudo é que Deborah me desafia com o tema e com a dança, ainda em silêncio. A minha função foi materializar tudo isso”. 

A relação da coreógrafa com os ritmos afro-brasileiros, embora não seja recente, se intensificou muito nos últimos anos quando passou a pesquisar outras culturas, outras religiões, para entender como estas lidavam com a dor.

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Deborah Colker em Moçambique, antes da pandemia, onde fez pesquisas para o espetáculo Cura (Foto: Acervo pesoal)

Durante o trabalho de pesquisa que realizou para criação do espetáculo, a carioca viajou pela África e visitou terreiros de Candomblé, lá e na Bahia. Foi uma busca incessante, afirma ela, de entender como as diferentes culturas e religiões lidavam com o sofrimento, com a cura do que é incurável, como costuma frisar.

“Fui à Moçambique conhecer danças de cura e fiquei tão impressionada com o que vi que trouxe bailarinos e cantores de lá para fazerem uma residência na nossa companhia aqui no Rio de Janeiro”, conta.

Da Bahia, a coreógrafa levou também o bailarino Gabriel Guimas, que integrava o corpo de baile do Balé Folclórico da Bahia e que agora faz sua estreia na companhia neste espetáculo que tem ainda outra marca baiana, a do coreógrafo Zebrinha, que foi contratado por Colker para ministrar aulas de dança afro, para ela e seus bailarinos.

Colker lembra que foi aqui na Bahia que se emocionou com o orixá Obaluaê, filho de Nanã e Oxalá, que tem o corpo coberto de feridas e é abandonado no mar pela mãe e adotado por Iemanjá, que cobre seu corpo com palhas sagrada para esconder os ferimentos.

“Isso reforçou minha convicção de que a dor pode ser curada através do amor. Curar é se aproximar da dor do outro. É preciso curar a ignorância, a discriminação. Meu encontro com a Bahia reforçou a minha fé”, diz emocionada.

Ainda não é possível prever quando o público poderá conferir o espetáculo, que já esteja praticamente pronto, com coreografias afinadas, cenografia executada, iluminação testada e figurinos aprovados.

Para Carlinhos Brown, que já acompanhou alguns ensaios, o público vai, mais uma vez, se surpreender com a genialidade da coreógrafa. Para ele, pessoalmente, Cura traz uma oportunidade que não tinha há muito tempo: “a de expressar a maior herança que a Bahia me deu, que é ser um compositor de música contemporânea popular, sem o conhecimento de leituras e partituras: apenas de ouvido”. Que venha a Cura para nos salvar de tantos males. 
Confira documentário sobre a produção do espetáculo no site  www.correio24horas.com.br

História

 A Companhia de Dança Deborah Colker nasceu em 1994 e fez sua estreia no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, no mesmo ano com o espetáculo Vulcão. Desde então vem se consolidando como uma das mais importantes companhias de dança do país, reconhecida internacionalmente. Realizou os espetáculos Vulcão  (1994), Velos (1995), Mix (1996), Rota (1997), Casa (1999), 4 por 4 (2002), Nó (2005), Dínamo (2006), Cruel (2008), Ovo   (2009), Tatyana (2011), Belle (2014), Vero (2016) e Cão Sem Plumas (2017)

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