Caso Davi Fiúza: 17 PMs são indiciados por homicídio qualificado

salvador
07.08.2018, 15:26:00
Atualizado: 07.08.2018, 19:39:46

Caso Davi Fiúza: 17 PMs são indiciados por homicídio qualificado

Grupo com 2 tenentes, 2 sargentos e 13 soldados-alunos fazia operação final para obtenção do diploma de soldado

Davi tinha 16 anos quando desapareceu (Foto: Rute Fiúza/Arquivo Pessoal)

A Polícia Civil indiciou 17 policiais militares no inquérito que apura a morte do adolescente Davi Fiúza, 16 anos, que desapareceu no dia 24 de outubro de 2014, durante uma operação da PM no bairro de São Cristóvão, em Salvador. A informação foi confirmada ao CORREIO pelo advogado assistente de acusação junto ao Ministério Público Estadual (MP-BA) Paulo Kleber Carvalho Filho.

Os 17 policiais militares foram indiciados na semana passada após envio do inquérito do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) ao MP-BA. No entanto, só na noite desta segunda (6), o advogado tomou conhecimento do número de PMs que responderá por homicídio qualificado. As qualificadoras são os crimes de ocultação de cadáver e concurso de agentes, que pode ser definido como a concorrência de duas ou mais pessoas para o cometimento de um ilícito penal. A Polícia Civil confirmou, por meio de nota na noite desta terça-feira (7), todo o procedimento.

Os policiais indiciados faziam uma operação final para obtenção do diploma de soldado, na manhã de 24 de outubro de 2014, quando, segundo o inquérito, abordaram o garoto na Rua São Jorge, na localidade de Vila Verde, e o raptaram.

São dois tenentes, dois sargentos e 13 soldados-alunos – os tenentes e os sargentos faziam parte do grupo de instrutores da operação. Os nomes dos indiciados não foram revelados porque o processo tramita em segredo de Justiça.

Em abril de 2016, 23 PMs chegaram a ser indiciados pela Polícia Civil pelo assassinato do jovem, além dos crimes de ocultação de cadáver e formação de quadrilha – que consiste na associação de três ou mais pessoas que se dedicam a cometer um ou mais delitos. 

“Naquela ocasião, foram indiciados também todos os policiais envolvidos na operação que passaram na região onde o Davi Fiúza foi abordado”, declarou o advogado.

Mas o MP-BA pediu novas investigações, devolvendo o inquérito à Polícia Civil. A partir daí, outras apurações foram realizadas e a investigação chegou agora aos 17 nomes de PMs que incursionavam na Rua São João, local onde Davi Fiúza foi abordado. “Foi comprovado que os demais PMs estavam do outro lado da pista da Vila Verde”, contou o assistente de acusação do MP-BA. 

Para chegar aos 17 policiais, o DHPP levou em consideração a análise do GPS das viaturas, os sinais de celulares dos policiais e o depoimento de testemunhas. 

Na manhã desta terça (7), a mãe de Davi Fiúza, Rute Fiúza, esteve com a Anistia Internacional para pedir proteção.

“Todas as pessoas envolvidas na acusação estão recebendo ameaças de policiais e similares”, disse Paulo Kleber. Ainda de acordo com ele, o próximo passo é aguardar a denúncia, ou não, dos policiais pelo Ministério Público. 

Relembre o caso
Davi Fiúza desapareceu por volta das 7h30 do dia 24 de outubro de 2014, enquanto conversava com uma vizinha na Rua Vila Verde, em São Cristóvão, quando foi levado por um grupo de homens. Duas semanas depois, a mãe do adolescente, Rute Fiúza, divulgou o caso, acusando policiais militares pelo sumiço.

"Meu filho estava na rua, conversando com uma moradora, quando policiais da PM, Rondesp e Peto chegaram ao local", disse Rute.

Segundo ela, o grupo dirigia dois carros descaracterizados, um Gol prata e um Sandero cinza.

"Eles tiraram a camisa do meu filho, colocaram um capuz no rosto dele, e amarraram as mãos e os pés. Em seguida, colocaram Davi no porta-malas do Gol e foram embora", contou Rute, na época.

Davi foi sequestrado dois dias antes do segundo turno das eleições de 2014. Durante o período eleitoral – cinco dias antes da votação e 48 horas após o seu fim –, a prisão de qualquer eleitor só pode ser feita em flagrante. Os familiares de Davi deram queixa na Corregedoria da Polícia Militar. Ainda em 2014, a corregedoria passou o caso para a Polícia Civil, afirmando não ter encontrado indícios consistentes da participação de PMs.


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